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      InícioParágrafoParágrafo #92Algumas notas de 2024:

      Algumas notas de 2024:

      Catarina Domingues

      1. Passei anos a viajar sozinha pela China, depois com o Carlos, agora também com a Carmo. Diria que a prosperidade começa por aí, mas já lá vou.
      2. Não li tanto quanto queria. Li mais mulheres, li mais em português, mais em livro de papel e mais autores brasileiros – é mesmo um privilégio para quem fala português poder tocar em vidas tão distantes. Comprei Melhor não contar (Tatiana Salem Levy, 2024, Elsinore) em Lisboa, umas horas antes de embarcar para Macau e acabei de o ler pouco antes de chegar a casa. Eu sei, parece que não viajei com uma criança de dois anos, mas juro que houve um momento em que me enfiei na casa de banho para avançar com a leitura. Já de regresso a casa, passou uma semana e o livro da autora portuguesa e brasileira continuou no meu colo, no autocarro, na redação, no café, em todo o lado, num acto de resistência, porque devolvê-lo à estante significava não pensar mais sobre ele, não voltar à história da autora, não pensar sobre mim, não estancar a hemorragia. O livro saiu no Brasil ainda antes de em Portugal e, quando veio parar às minhas mãos, já eu tinha muita leitura feita, entre entrevistas, críticas, comentários nas redes sociais. Estava devidamente armada, conhecia os temas estruturantes do romance autobiográfico de pouco mais de 200 páginas: assédio sexual, aborto, perda. Mas claro, nada nos prepara para (a coragem de) um grande texto. Aqui tudo é importante, até o que não parece. Regresso ao capítulo 11, página 39: «Primeiro nos dizem para escrever em segredo sobre nós mesmas. Depois, quando decidimos mostrar para os outros o que escrevemos, nossos diários, nossas cartas, nossas narrativas em primeira pessoa não são consideradas literatura, ou são literatura menor. Só que nada fala mais de quem somos, de quem nos tornamos, coletivamente, do que as histórias de nossa vida». Ainda sobre diários, Tatiana Salem Levy escreve: «Quase todas as meninas da minha geração ganharam diários. (…). A eles confiávamos nossos pensamentos e atos mais íntimos, nossas pequenas subversões, os segredos que não ousávamos contar nem à nossa melhor amiga. Aprendemos desde cedo a esconder sentimentos, ideias (…) Não escrevíamos para ser lidas; pelo contrário, escrevíamos para não ser lidas. E deveríamos continuar assim, vivendo em sussurros, trancando com cadeado o que nos acontecia» (capítulo 4, pág. 19). Ainda em Lisboa e dois dias antes de partir para Macau, rasguei os meus últimos dois diários da adolescência. Aquilo assombrava-me, mas agora sei que algo se perdeu para sempre.
      3. Em Dahebei, província chinesa de Guangxi, queríamos sair do circuito turístico. A Shirley, proprietária da hospedaria onde ficámos, entendeu logo as nossas teimosias, chamou um barqueiro para nos levar (e a mais três turistas chinesas) num passeio pelo rio. Navegação nocturna, afastada da multidão, das câmaras e cruzeiros, vão gostar, garantiu. Eram quase oito da noite quando entrámos numa barcaça de plástico e alumínio, água e montanhas a nossa geografia, chuva miudinha, um trovão não esperado a estourar lá ao fundo, onde não existe ninguém, só incríveis vultos gigantes de calcário. E nós a descermos o rio Li, para depois subirmos, sempre sem luzes, sem coletes, uma criança nos braços, primeiro feliz, depois adormecida.
      4. Outra autora que li este ano foi a norte-americana Pearl S. Buck (1892-1973), filha de missionários presbiterianos, nascida em Hillsboro, West Virginia, mas que com poucos meses foi com os pais para a China, onde viveu metade da existência e um país em transformação, convulsão, renovação. Li a trilogia The good earth (1931), Sons (1933) e A house divided (1935), da editora John Day. Buck, Nobel da literatura em 1938 – a primeira mulher norte-americana a receber o prémio – foi, à semelhança de muitos outros estrangeiros que escrevem sobre a China, acusada de ter uma visão enviesada do país. Ela que viveu entre chineses em Zhenjiang, província de Jiangsu, e que só se apercebeu que não era chinesa quando tinha oito anos. A China é um país incrível, também aos olhos de Buck
      5. Se pudesse escolher um momento em 2024, seria a minha ida à Coreia do Sul. Um destes dias sonhei que regressava a Seul, à avenida Uisadang-daero, onde durante dias se ouviu o pulsar de uma democracia.
      6. Um homem esconde-se para roubar uma hortênsia. Paro de andar quando ouço o som metálico do jogo de chaves que o ladrão de flores saca do bolso. Isola um canivete. Eu estou de férias, sozinha, não tenho pressas, nem nada contra o ladrão, um homem na casa dos 60, quase careca, camisa branca, calças pretas, até podia ser um funcionário de uma repartição pública qualquer, mas é provavelmente só mais um turista como eu, com pouco o que fazer. Ele rouba hortênsias, eu observo. Ato contínuo, o ladrão de flores baixa-se, põe-se de cócoras, espreita por cima do canteiro e o nosso olhar cruza-se. Fujo, para trás fica o som do canivete a roubar a hortênsia – será que foi mais do que uma? – , eu faço-me à estrada, árvores enormes e com nomes que não conheço, gatos à perna, cisnes negros de bico vermelho no lago Taihu, e, no horizonte, Wuxi (também em Jiangsu), para onde voltarei pouco depois. Talvez não seja um ladrão de flores a fazer turismo, talvez viva longe da cidade, numa aldeia onde vingou com um pequeno terreno. Em casa, vai preparar um arranjo, colocá-lo com cuidado extremo em cima da bancada da cozinha, ou da mesa, numa toalha de plástico, com hortênsias estampadas. Adoro não ter de fazer nada.
      7. A todos, um feliz 2025.

       

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      Redacção do Ponto Final Macau