
Dora Gago
A última fronteira
Nesta noite, Liu sabe que vai conseguir. Ensaia, mais uma vez, o salto libertador. Mediu dezenas de vezes este muro branco, estreito, com o olhar. Namorou-lhe cada aresta nas últimas noites e madrugadas, no pouco tempo que lhe sobrava quando, já tarde, regressava a casa.
A loja onde trabalhava estava na iminência de fechar. Seria difícil encontrar outro emprego e o dinheiro era escasso. Não conseguiria sobreviver mais de duas semanas sem um salário, pois as economias eram praticamente inexistentes. Sabia que, ali, na ilha de Henquin, estavam a terminar a construção do campus da universidade. O espaço fora arrendado à China, por isso, do outro lado do muro já era Macau: outras leis, outras vidas, outras oportunidades, talvez um bom emprego, um bom salário, num casino. Porque não? Para além dos trabalhadores das obras, há já alguns alunos e professores a viverem daquele lado da ilha e autocarros frequentes para Macau e para a Taipa. Será fácil apanhar o autocarro e depois, em Macau, alguns familiares afastados podem talvez ajudar nos primeiros tempos. Conta com isso. Sonha com a mão amiga que se há-de estender e atenuar as consequências da clandestinidade.
Àquela hora, toda a gente estará recolhida em casa ou até a dormir e será ainda possível apanhar o transporte. Os motoristas nunca fazem perguntas, os seguranças devem estar a comer ou a dormitar com aquele frio tradicional que iniciou o Ano da Serpente. “Vai ser fácil, tão fácil que vou lamentar ter perdido tanto tempo e ter tido tanto receio… Longe vão os tempos em que da China continental muitos desesperados se dirigiam para Macau a nado e morriam, muito antes de pisarem terra, afogados ou atingidos a tiro. Agora tudo mudou. Claro, se for preso e expulso ficará metido em grandes problemas, mas não, vai ser fácil, tão fácil…”. Então, por que lhe dispara o coração no peito daquela maneira? De onde irrompem aqueles suores frios que lhe escorrem pela testa e pelas mãos? Um medo líquido colado à pele, a deslizar, implacável. Tem de ter as mãos bem secas para se agarrar ao muro. Afasta-se, respira fundo, ganha balanço, calcula matematicamente cada movimento conducente ao salto, precipita-se muro acima, com a agilidade de um gato bravio. Em poucos segundos está do outro lado, caído e com uma perna a doer-lhe, a querer desertar-lhe do corpo. Não, não pode ter partido nada… talvez tenha sido só do impacto. E agora precisa de ser sombra, de colar a sua invisibilidade às poucas árvores existentes, de forma a afastar-se dali, para depois chegar à paragem mais próxima. Respira fundo, massaja a perna revoltada, suspira de alívio ao chegar à paragem. Só ele e mais um casal jovem. O autocarro pára, entram todos. Traz consigo alguns Hong Kong dólares para as despesas iniciais. Senta-se, encosta-se e sente-se feliz, descontraído como um estudante a dar um passeio até à cidade. O autocarro atravessa lentamente o túnel. Quando estão mesmo quase do outro lado, trava, pára. Entram três polícias a pedir a identificação a todos os passageiros…então, é nesse momento que tudo desaba. Tão efémeros e penosos os instantes: nem visto, nem documentos, nada! Imediatamente é levado para dentro do carro da polícia. É este o último muro contra o qual esbarra, recusando-se a acreditar: a última fronteira da clandestinidade a destruir a esperança de um novo amanhã entretecido nos farrapos do sonho.
Dora Gago








