No dia 13 de Abril de 2025, as estações de monitorização automática da qualidade do ar em Macau atingiram o nível “perigoso” pela primeira vez numa década. Segundo o mais recente relatório dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos, 2025 foi um ano de paradoxos em termos de qualidade do ar: o número de registos “bons” aumentou ligeiramente em comparação com o ano anterior, embora os dias “muito insalubres” tenham também crescido.
No ano passado, o índice de qualidade do ar em Macau atingiu o nível “perigoso” – um fenómeno que já não acontecia desde 2015. O número de dias classificados como “muito insalubres” também aumentou comparativamente ao ano passado, sendo que as partículas inaláveis em suspensão, conhecidas como PM10, foram o principal poluente. Os dados constam do relatório estatístico sobre a qualidade do ar em Macau em 2025, publicado na página electrónica dos Serviços Meteorológicos e Geofísicos (SMG) e analisado pelo PONTO FINAL.
O nível “perigoso”, recorde-se, é o sexto numa escala de sete classificações possíveis, que vão desde “bom” a “muito perigoso”. O nível mantém-se “bom” enquanto o índice de qualidade, afectado pela concentração de poluentes, se situar entre 0 e 50. A categoria de “perigoso” corresponde a um índice entre 301 e 400 e exige a implementação de medidas de precaução por parte de toda a população, como a redução “ao mínimo” de actividades extenuantes e do tempo de permanência ao ar livre.
No ano passado, foram quatro as estações meteorológicas de Macau que registaram o nível “perigoso”: a estação ambiental da Taipa, a estação ambiental de Seac Pai Van, a estação de alta densidade habitacional da Baixa da Taipa e a estação da berma da estrada de Ka-Hó. Os dados dos SMG indicam que este fenómeno ocorreu a 13 de Abril, quando Macau se encontrava sob influência de uma tempestade de poeira que aumentou consideravelmente a concentração de poluentes atmosféricos no território.
No relatório, as autoridades explicam que a tempestade decorreu entre os dias 12 e 16 de Abril, período em que “seis estações de monitorização da qualidade do ar registaram níveis de partículas suspensas inaláveis com índices de qualidade do ar classificados como ‘muito insalubre’ e ‘perigoso’”. Num comunicado emitido na altura, os SMG adiantaram que a tempestade tinha sido causada pelos ventos fortes junto ao solo nas regiões a norte, varrendo a poeira que depois se espalhou para sul, até ao estuário do Rio das Pérolas, juntamente com uma monção de nordeste.
“A ocorrência de tempestades de poeira em Macau é bastante rara”, nota o relatório, assinalando que o último episódio deste género remonta a Março de 2010. Um documento do Gabinete de Comunicação Social (GCS) publicado a 23 de Março desse ano dava conta de impactos significativos na saúde da população, tendo-se registado “uma evidente mudança do número de doentes” com infecções ou doenças pulmonares no Serviço de Urgência do Centro Hospitalar Conde de São Januário (CHCSJ) na semana em análise.
NÍVEL “PERIGOSO” NÃO ERA REGISTADO DESDE 2015
Apesar de o número de registos “bons” ter aumentado ligeiramente e o de registos “insalubres” ter decrescido comparativamente ao ano anterior, o ano de 2025 caracteriza-se por uma subida nos registos dos níveis mais poluentes.
Numa visão geral dos dados dos SMG, distribuídos pelas seis estações de controlo da qualidade do ar de Macau, contabiliza-se um total de 1.104 registos “bons”, 987 “moderados”, 83 “insalubres”, dez “muito insalubres” e ainda os quatro “perigosos” já mencionados. Em 2024, foram 1.071 os registos “bons” (menos 33), 987 os “moderados”, 104 os “insalubres” (mais 21) e dois os “muito insalubres” (menos oito).
Comparando os dados de 2025 com os do ano anterior, é possível constatar oscilações mais ou menos significativas consoante as estações. No ano passado, a estação ambiental da Taipa Grande teve 163 registos “bons” (mais três do que em 2024), 186 “moderados” (mais sete), 13 “insalubres” (menos 14). Houve ainda 2 registos “muito insalubres” e um “perigoso”, que não encontram equivalência nos dados de 2024.
A estação ambiental de Seac Pai Van teve 184 registos “bons” (mais 22), 171 “moderados” (menos dez), oito “insalubres” (menos 15) e ainda um “muito insalubre” e outro “perigoso”. De acordo com os dados dos SMG, este é o número de registos “bons” mais elevado no local em questão desde 2013.
Na estação de alta densidade habitacional de Macau, no Bairro de Tamagnini Barbosa, houve 186 registos “bons” (mais seis), 166 “moderados” (número igual a 2024), dez “insalubres” (menos dez) e dois “muito insalubres”. A última vez que houve registos “muito insalubres” nesta estação foi em 2017, segundo os gráficos dos SMG.
Na ilha da Taipa, a estação de alta densidade habitacional contou 212 registos “bons” (mais 21), 138 “moderados” (mais 20), 13 “insalubres” (menos quatro), e um “muito insalubre” e outro “perigoso”. Os dados presentes no relatório (que excluem 2012, quando a estação foi temporariamente suspensa devido a obras) mostram que esta é a primeira vez que a qualidade do ar chegou ao nível “perigoso” desde, pelo menos, 2006, ano a que remontam os primeiros dados.
Passando para as estações de monitorização situadas na berma da estrada, temos a Estação da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida com 224 registos “bons” (menos cinco), 121 “moderados” (menos um), 17 “insalubres” (mais dois) e dois “muito insalubres”. Apesar desta ligeira descida, a tendência de evolução continua a ser positiva: em 2013, por exemplo, o número de registos “bons” foi de apenas 71. Os registos só ultrapassaram os 200 a partir de 2020, tendo-se mantido acima deste nível desde então.
Por fim, a estação da berma da estrada de Ka-Hó teve 135 registos “bons” (menos 14), 205 “moderados” (mais 24), 22 “insalubres” (menos 12), dois “insalubres” (tal como em 2024) e ainda um “perigoso”. Os dados desta estação, inaugurada em Agosto de 2017, mostram que esta foi a primeira vez que se atingiu este nível – o mais baixo de sempre da estação até ao momento.
A qualidade do ar em Macau já tinha chegado ao nível “perigoso” nos anos de 2013 e 2014 na estação da Avenida do Conselheiro Ferreira de Almeida e em 2013 e 2015 na estação do Bairro de Tamagnini Barbosa. O ponto mais extremo da escala, “muito perigoso”, foi atingido em 2010 nessas duas mesmas estações e, também, na estação de alta densidade habitacional da Taipa, na estação ambiental da Taipa e na estação ambiental de Seac Pai Van.
RELATÓRIO INTERNACIONAL ALERTA PARA POLUIÇÃO EM MACAU
Um dos capítulos do relatório explora ainda a variação da concentração média de PM10 ao longo do ano. Todas as seis estações de monitorização demonstram o mesmo padrão: o pico acontece em Abril e diminui no Verão, voltando a subir nos meses de Inverno. Os factores explicativos relacionam-se com as chuvas frequentes e os ventos fortes vindos do Mar da China Meridional, típicos dos meses de Verão, que ajudam a diluir a concentração dos poluentes no ar e a promover a circulação de ar estagnado.
O Índice da Qualidade do Ar de Macau está em vigor desde Janeiro de 2012 e baseia-se nos dados obtidos através da rede de estações de monitorização automática. Os dados revelados no mais recente relatório vêm complementar a informação presente no Relatório Mundial sobre a Qualidade do Ar de 2025, elaborado pela empresa suíça IQAir e divulgado no final de Março.
No documento, lê-se que Macau registou em 2025 uma concentração média anual de 17,2 microgramas por metro cúbico de PM2.5 – geralmente considerado um dos poluentes atmosféricos mais perigosos para a saúde humana. O relatório indica que estes níveis excedem “duas a três vezes” o limite definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e posicionam Macau em 1.304 lugar numa lista de 9.446 cidades de todo o mundo.











