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      InícioCultura“Em cada país a que pertenço, uma parte de mim sente-se estrangeira”

      “Em cada país a que pertenço, uma parte de mim sente-se estrangeira”

       A autora Elisa Shua Dusapin participou ontem numa sessão no festival Rota das Letras em que falou sobre o seu aclamado romance de estreia, “Inverno em Sokcho”, e os desafios de adaptar ao cinema uma história feita de silêncios e sensações. Em resposta às questões colocadas pela artista Alice Kok, a escritora partilhou ainda os desafios de crescer entre duas línguas e culturas e de se sentir permanentemente “estrangeira”, mesmo nos países a que pertence.

      Elisa Shua Dusapin nunca pensou em ser escritora – isto é, até começar a escrever o seu primeiro livro aos 17 anos. Em criança, era fascinada pela forma como os animais comunicavam entre si sem recorrer a palavras, numa linguagem não-verbal secreta que sonhava um dia aprender a decifrar. “Não queria palavras, e agora vivo delas”, sorri a autora.

      As palavras que usa no seu romance de estreia, “Inverno em Sokcho”, são tão sucintas quanto carregadas de significado, tecendo uma atmosfera evocativa de sensações corpóreas. O vento gélido, o cheiro a marisco fresco a varrer a cidade. A presença da narradora é mais reservada, espelhando os conflitos internos e a sensação de alienação que percorrem a história.

      Numa sessão decorrida ontem na Casa Garden, integrada no festival literário Rota das Letras, Elisa Shua Dusapin explicou que este não é um romance auto-biográfico. Ao mesmo tempo, também não é uma obra totalmente ficcional. As semelhanças entre a protagonista e a autora são múltiplas, desde a origem franco-coreana à experiência de crescer num mundo em que os seus rostos sobressaem entre o padrão culturalmente imposto. A grande diferença consiste no local onde habitam: Dusapin cresceu entre a França e a Suíça, enquanto a narradora (sem nome) reside na Coreia do Sul.

      Um primeiro rascunho da história teve como fundo a cidade portuária de Busan, que a autora considerou demasiado “afastada das emoções das personagens”. Sokcho, uma cidade piscatória na fronteira entre as Coreias, entre as montanhas e o mar, entre o turismo no Verão e a solidão no Inverno, parecia capturar melhor a tensão interna da protagonista.

      “Foi muito importante para mim encontrar esta cidade, porque não escrevo de uma forma centrada no perfil psicológico – tento descrever as sensações, o que o corpo sente com os cinco sentidos”. Foi para encarnar a pele da jovem coreana de 24 anos, de personalidade fragmentada e destino incerto, que Elisa Shua Dusapin passou um Inverno em Sokcho em 2011, cinco anos antes da publicação da obra. “Era muito jovem quando escrevi este livro, sem auto-confiança. Não confiava no meu raciocínio, nos meus pensamentos, mas disse a mim própria: o que o corpo sente não são pensamentos, são sensações”.

      A cidade mudou, entretanto, e é agora mais moderna do que há uma década. Também a autora cresceu e aprendeu a conciliar as diferentes partes de si, oriundas de diferentes cantos do mundo mas integradas numa única identidade. “Em cada país a que pertenço, uma parte de mim sente-se estrangeira”, contou. “Mesmo que eu tenha uma sensação de pertença, a expressão na cara das outras pessoas diz-me que não sou como elas. Quando era criança, foi difícil sentir que não pertencia a lugar nenhum – até pela questão da língua, porque nessa altura falava melhor coreano do que francês”.

      Com os anos, a agilidade na língua coreana foi dando lugar a uma preferência pelo francês, a língua que escolhe para se expressar na literatura. A escrita do livro foi uma oportunidade para se reconectar com a língua-materna, quase esquecida: “Imaginei todos os diálogos em coreano e traduzi-os, sozinha, para o francês”.

      A paixão pelas formas de comunicação alternativas, herdada da infância, permitiu apurar o tom introspectivo e calmo, pouco ruidoso, que caracteriza o livro. “As personagens não comunicam tanto com a língua, mas através do corpo, de desenhos, culinária, imagens. Por vezes, as palavras não são a melhor via de comunicação quando há tantas diferenças em termos de cultura ou experiências pessoais”.

      UM CAMINHO QUE SE DESCOBRE

      É o caso do protagonista masculino, Yan Kerrand, um autor de banda desenhada que viaja a Sokcho em busca de inspiração para o último volume de série de livros. A narradora, recepcionista na casa de hóspedes onde o francês se instala, aceita conduzi-lo pelos locais mais simbólicos da cidade, como a fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.

      A princípio, a personagem é vista como, acima de tudo, “o francês”, com o seu desinteresse na cultura local e a recusa em experimentar gastronomia diferente daquela que já conhece. Pouco a pouco, estabelece-se uma relação que não é explicitamente romântica, mas que parte da necessidade (ou obsessão) da protagonista de ser vista, reconhecida e desenhada pelo artista misterioso.

      “Quis que esta personagem representasse algo que não é a preto e branco. Tenho alguma empatia por ele porque, no fundo, ele não se apercebe que tem esta forma de pensar. Quando começa a comunicar e a compreender a rapariga, ambos se apercebem de que são mais próximos do que imaginam”, reflectiu a autora.

      O homem francês, bastante mais velho e assente na sua mentalidade europeia, confronta a narradora com a sua identidade fraccionada e com a imagem nebulosa do próprio pai. Mas o conflito estende-se ao lado sul-coreano: a pressão para casar, emagrecer, modificar o rosto, conformar. A mãe que recomenda o matrimónio e a cirurgia plástica como caminhos a seguir; o namorado auto-centrado que quer ser modelo em Seul; uma hóspede com a cara envolta em ligaduras, cuja aparência se vai metamorfoseando à medida que os dias correm. O transtorno dismórfico corporal da narradora, que não se reconhece ao espelho.

      A adaptação cinematográfica de uma obra tão assente nos detalhes, no que fica por dizer, poderia ter resultado num produto demasiado dissonante do material de origem. “Discutiu-se muito sobre como adaptar a escrita para o ecrã, porque as imagens e as palavras são linguagens distintas”, constatou a autora. “Fui muito cuidadosa e não aceitei logo o filme – quis ter a certeza de que o realizador percebia os pontos mais relevantes”. Rejeitou, até, uma proposta de adaptação de “uma grande produtora dos Estados Unidos”, que queria transformar o âmago da história num romance entre uma mulher asiática e um homem caucasiano. “Não é este o tema central, de todo”.

      No final, a equipa escolhida para “Inverno em Sokcho” foi composta por Koya Kamura (na sua primeira longa-metragem) e Stéphane Ly-Cuong. “O realizador é franco-japonês e o argumentista é franco-vietnamita, portanto somos todos ‘metade-metade’ e partilhamos esta sensação de identidade repartida entre diferentes países”. A voz de Dusapin interveio no processo de filmagem sempre que necessário, mas preservando uma distância segura.

      “A equipa pedia a minha opinião em cenas onde era preciso mostrar os pensamentos da protagonista ou dar mais contexto. Como não queríamos narração em ‘off’, foram usadas animações para retratar temas como a dismorfia, que era muito difícil explicar de outra forma”. De resto, a escritora assume que optou por não se envolver demasiado: “Nem sempre confio em adaptações de livros, portanto quis distanciar-me para poder dizer que não participei caso não gostasse do filme”. Riu-se, em conjunto com a audiência, e apressou-se a acrescentar: “Não foi o caso – achei-o muito emocionante”.

      Dez anos depois da publicação de “Inverno em Sokcho”, Dusapin tem quatro livros publicados e um quinto a caminho, que terminou há apenas uma semana. “Quando comecei o primeiro, nunca pensei vir a escrever outro livro. Tinha muitas dúvidas, porque a criatividade exige tanta concentração e disciplina…”. Terá encontrado as suas respostas agora? “Não, porque é algo que se questiona sempre. A única coisa que aprendi é que é normal ter dúvidas: começo a trabalhar sem ter um plano e descubro o meu caminho enquanto escrevo”.