Em Portugal, mais de 65.000 pessoas já assistiram ao espectáculo. Está em cena há um ano e meio, sempre com lotação esgotada. Ontem, no Instituto Português do Oriente (IPOR), a actriz no centro deste fenómeno teatral, Margarida Vila-Nova, explicou como tudo aconteceu, como a peça de Suzie Miller sobre consentimento sexual se tornou num catalisador para o diálogo em Portugal e porque a trouxeram para Macau.
A peça, originalmente intitulada Prima Facie, foi escrita pela autora australiana e ex-advogada criminal Suzie Miller em 2019. Desde então, o texto foi traduzido para dezenas de idiomas e encenado em todo o mundo. Em Portugal, a actriz Margarida Vila-Nova interpreta Teresa, uma advogada criminal em ascensão, especializada em casos de agressão sexual, cuja vida é virada de cabeça para baixo quando ela própria se torna uma vítima.
Para Vila-Nova, a jornada até este papel não só não foi uma simples decisão de carreira, como foi a coisa mais difícil que já fez: “Acho que existem personagens que nos escolhem”, esclareceu. “Não somos nós que as escolhemos. Podemos ou não ter a capacidade de agarrá-las”, prosseguiu.
A actriz explicou que o tema central da peça, o consentimento, tinha sido uma preocupação crescente na sua vida. “Essa questão dos limites, o poder do ‘não’… estava a perturbar-me”, confessou. Ao ver os movimentos globais de conscientização a desenrolar-se, Margarida Vila-Nova viu-se a fazer uma pergunta difícil: “Como continuamos a perpetuar a agressão contra as mulheres?”.
A questão tornou-se depois pessoal: “Tenho dois filhos, como é que vou educá-los para que possam fazer parte da mudança e não do problema?”, partilhou.
Uma decisão fundamental foi convidar o encenador e realizador, Tiago Guedes, para encenar o espectáculo. Margarida Vila-Nova explicou que admirava o trabalho do encenador, mas, mais importante ainda, “achei que um homem deveria assinar a encenação. É um texto escrito por uma mulher e interpretado por outra mulher. Esta discussão precisa de ser mais abrangente”.
Guedes admitiu que ficou imediatamente cativado. Para ele, o projecto consistia em promover o diálogo. “Acho que essa foi uma das razões pelas quais quis fazer este projecto. É importante ter o ponto de vista do homem. Os homens devem ser chamados a participar neste assunto. Precisamos construir pontes de diálogo em vez de apenas acusações”, afirmou.
A adaptação exigiu um trabalho meticuloso. “O texto está em inglês e vem de uma realidade jurídica diferente”, explicou o encenador. A equipa trabalhou em estreita colaboração com consultores jurídicos para adaptar as nuances da lei portuguesa, traduzindo e reformulando o texto para garantir a sua autenticidade.
Desde a sua estreia, “À Primeira Vista” tornou-se um verdadeiro fenómeno em Portugal, ficando em cena por um ano e meio e sendo visto por mais de 65.000 pessoas. “Não foi preciso ser muito promovido, foi tudo boca a boca.”, observou Tiago Guedes.
Margarida Vila-Nova observou também uma evolução distinta no público: “Inicialmente, havia muitas, muitas mulheres na plateia. Era difícil encontrar um homem a quem dirigir as minhas falas”, recordou. Mas, com o passar das semanas, mais homens começaram a assistir ao espectáculo, “Hoje, posso dizer que está em pé de igualdade”.
Esta mudança estendeu-se às redes sociais. “No início, só as mulheres é que partilhavam. De repente, comecei a ver homens a partilhar também. Isso é importante, mostra que o diálogo está a acontecer. Não se trata de meninas contra meninos, é uma questão transversal que deve ser abraçada por ambos os sexos”, explicou Vila-Nova.
O peso do testemunho
O impacto mais profundo, no entanto, veio da resposta do público. Margarida Vila-Nova descreveu os abraços silenciosos que recebeu após as primeiras apresentações: “Eu sabia o que aquele silêncio significava, não eram necessárias palavras”.
Depois vieram as mensagens. A actriz partilhou um exemplo recente, uma jovem que viu a peça em 2024 e incentivou a sua família a vê-la. Meses depois, quando se viu numa situação semelhante à da personagem, ela teve clareza. Quando contou ao pai, este disse: “Aquele espectáculo que nos disseste para ver, retrata exactamente a situação que tu viveste, se tens dúvida se foi ou não abuso”.
“Se hoje recebo uma mensagem de alguém que levou um ano para ter coragem de me escrever”, disse Vila-Nova, “quantas outras histórias estão silenciadas?”.
A actriz citou ainda a estatística de que uma em cada três mulheres é vítima de abuso: “Olhem para a vossa direita, olhem para a vossa esquerda. Muitas de nós aqui sofremos algum tipo de abuso ao longo de nossas vidas”.
Quando questionada se acredita que a peça está a mudar o sistema judicial, Vila-Nova foi cautelosa. A actriz observou que o ministro da Justiça de Portugal, o procurador-geral e todos os alunos do Centro de Estudos Judiciários, o centro de formação de futuros juízes e procuradores, assistiram ao espectáculo. “Talvez daqui a 10 ou 15 anos possamos olhar para trás e dizer que a peça teve impacto, porque essas pessoas, que agora estão a ser formadas, sentaram-se naquela sala e dialogaram sobre este assunto”, considerou
Tiago Guedes ampliou também esta perspectiva: “A solução nunca virá apenas através de mudanças no sistema judicial, deve vir de toda a sociedade. É comportamental. O importante é trazer isso à tona, tornar isso um assunto sobre o qual as pessoas possam conversar”, reiterou.
Margarida Vila-Nova concluiu a sessão no IPOR, moderada por Cássia Schutt, com uma reflexão sobre o papel da arte: “Acredito que a arte é transformadora. Esse é o seu papel na sociedade, desafiar, colocar-nos em posições desconfortáveis. A minha parte está feita. A partir daqui o que acontece? Não me cabe a mim julgar”.
O monólogo “À Primeira Vista” será apresentado nos dias 14 e 15 de Março, no âmbito do 15.º Festival Literário de Macau. O espectáculo terá duas apresentações, sábado, dia 14 de Março, às 20h30, e domingo, dia 15 de Março, às 16h, ambas no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Macau. O monólogo de 90 minutos, apresentado em português sem intervalo, é recomendado para maiores de 18 anos.












