“Era uma vez uma taça onde se misturaram…”. A partir de uma simples frase, o público do 14.º Festival Literário de Macau, composto por miúdos e graúdos, foi convidado a contribuir com descrições e adjectivos e a criar uma história autenticamente sua, enquanto um cartoonista ia dando vida à narrativa com ilustrações em tempo real. Os organizadores Catarina Mesquita e Rodrigo de Matos, que já tinham dinamizado sessões semelhantes nas duas edições anteriores, reconhecem que este ano se atingiu um número “recorde” de espectadores, naquele que foi o último dia do Rota das Letras.
A autora de livros infantis Catarina Mesquita e o cartoonista Rodrigo de Matos dinamizaram ontem, no último dia do 14.º Festival Literário de Macau, uma actividade interactiva em que a plateia ajudou a construir e a ilustrar uma história. Embora “teoricamente” direccionado a um público infanto-juvenil, tanto crianças como pais participaram no evento e contribuíram na montagem as peças daquilo que, pouco a pouco, se tornou uma história finalizada.
“Basicamente, a ideia é contar uma história ao vivo. Não temos uma história em mente, só um esqueleto, e precisamos da participação do público para a completar. Vão dar-nos adjectivos, descrições do que querem que aconteça na história, e o Rodrigo [de Matos] vai desenhando o que é dito em tempo real”, revelou Catarina Mesquita, em declarações ao PONTO FINAL antes do evento. “A história não é contada, mas sim descoberta. É um desafio tanto para o público como para nós, já que nenhuma das partes sabe o que vai acontecer”.
Ao contrário de edições anteriores, em que “a improvisação foi total”, desta vez a dupla optou por partir de uma “história já existente” para dar início à sessão de criatividade – que, frisa Catarina, não deve ser exclusiva aos mais novos. “No ano passado, reparámos que as crianças se sentaram à frente e os pais atrás. Mas o nosso objectivo é que toda a audiência participe, independentemente da idade”. Na sessão de ontem, no dia de encerramento do Rota das Letras, tanto miúdos como graúdos ocuparam todos os bancos disponíveis; os que não arranjaram lugar, ficaram em pé a acompanhar a construção da história.
Como ponto de partida, uma única frase: “era uma vez um homem e uma mulher que tinham uma taça onde misturaram… Misturaram o quê?”. Perante a questão de Catarina Mesquita, dezenas de crianças levantaram as mãos e exclamaram as primeiras ideias que lhes vieram à cabeça, desde mousse de chocolate a tinta. Em frente à plateia, a caneta de Rodrigo de Matos ia materializando estas imagens num enorme painel.
Começando pela imagem de uma simples taça, acrescentaram-se pessoas “gordas”, “bonitas”, “malcheirosas” ou com “cauda de porco”, conforme os adjectivos e detalhes inusitados que as crianças – e alguns adultos – iam sugerindo para a história. O resultado final foi uma obra de arte surrealista, como gracejou Rodrigo de Matos em declarações posteriores ao PONTO FINAL: “Não fazia muito sentido incluir uma cauda de porco, mas a audiência é que decide”. E como é que o próprio artista interpretou a obra que acabara de criar? “A única interpretação é que as crianças têm uma imaginação sem limites, indomável”.
O trabalho do cartoonista é precisamente o de se adaptar às intervenções de uma audiência hiper-criativa, tendo sempre em atenção o tamanho do painel. “No primeiro metro de desenho, ainda não fazia ideia de onde iria parar a história. É preciso perceber quando é que a história está a meio ou a chegar ao fim, para conseguir preencher tudo e não deixar espaços em branco”, explicou. No final, as crianças foram convidadas a colorir o desenho finalizado com autocolantes multicolores distribuídos para o efeito.
Rodrigo de Matos reconheceu que a actividade superou todas as expectativas de adesão, tornando-se, provavelmente, aquela “com maior presença de sempre”. “Acho que quebrámos um recorde, aqui. Já fizemos isto duas ou três vezes e julgo que, desta vez, estavam tantas pessoas como nas outras duas sessões juntas”. Parte da justificação pode estar relacionada com a disponibilidade do espaço, bem mais amplo do que nos eventos anteriores: “calhou bem o evento ter decorrido aqui”, desabafou o ilustrador, referindo-se ao Antigo Matadouro Municipal, na Barra.
O 14.º Festival Literário de Macau teve início na passada sexta-feira, às 17h, no Antigo Matadouro Municipal, e terminou ontem, por volta das 19h, com um jantar sob o mote “Uma festança de histórias: sete pratos, sete tradições”.
C.B.












