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      Desmistificando as “mulheres amaldiçoadas” do Cavalo de Fogo

      Dia 17 vai marcar o início de um novo ano do Cavalo de Fogo, efeméride que se repete a cada 60 anos. Na última ocasião, em 1966, a taxa de natalidade no Japão caiu abruptamente devido a superstições sobre uma suposta “maldição” associada às mulheres nascidas sob este signo. Mas haverá realmente algum fundamento por trás do mito? O PONTO FINAL procurou saber o que diz a astrologia chinesa sobre o tema e perceber o impacto que os signos e os estereótipos de género ainda têm na Ásia Oriental.

      As mulheres nascidas sob o signo do Cavalo de Fogo são teimosas, obstinadas, temperamentais. Em jovens, desafiam a autoridade da figura paterna; já casadas, torturam os maridos com o seu temperamento volátil até os conduzirem a uma morte precoce. Ou, pelo menos, é isto que dizem os estereótipos – estereótipos esses que não se estendem aos homens do mesmo signo.

      Poderiam ser apenas preconceitos resultantes de uma interpretação incorrecta da astrologia chinesa, mas as consequências foram reais e devastadoras no Japão. De acordo com dados apresentados num estudo de Ishise Hirokazu, publicado em 2025 no repositório da Universidade de Osaka, o número de nados-vivos no país registou decréscimos acentuados nos anos de 1846, 1906 e 1966. Ao mesmo tempo, também o rácio entre bebés do sexo masculino e do sexo feminino teve uma subida atípica, favorecendo o primeiro.

      A queda no número de nascimentos foi particularmente alta em 1966, quando o uso de métodos contraceptivos se tornou mais generalizado. O declínio foi de cerca de 25% em comparação com o ano anterior (menos 463.000 nados-vivos), segundo dados recolhidos num estudo publicado por Kanae Kaku na revista académica Annals of Human Biology.

      Na mesma publicação, lê-se que a taxa de abortos induzidos nesse ano foi de 43,1 por mil nascimentos, um número bem mais elevado do que os 30,6 inicialmente projectados pelos demógrafos do país. A análise dos dados evidencia também um “aumento notável” da taxa de mortalidade neonatal precoce entre as meninas nascidas em 1966, causada por “acidentes e violência”. “Este facto é consistente com a superstição de que as mulheres nascidas no ano do Cavalo de Fogo são malfadadas”, escreve a autora.

      Quanto à China, os dados compilados pela Divisão de População das Nações Unidas mostram que em 1966 se registou um declínio de 7,39% face ao ano anterior, embora o número de nascimentos tenha voltado a descer 3,13% no ano seguinte de 1967. Importa sublinhar que a natalidade nos anos 60 foi fortemente impactada pelas consequências do Grande Salto em Frente, o que dificulta a apreciação de outros factores demográficos.

      O PONTO FINAL solicitou dados relativos ao número de nados-vivos em Macau em 1906 e 1966 à Direcção dos Serviços de Estatística e Censos (DSEC), que disse não dispor de informações anteriores a 1970.

      A ORIGEM DO MITO

      O zodíaco chinês é composto por doze animais ordenados da seguinte forma: Rato, Búfalo, Tigre, Coelho, Dragão, Serpente, Cavalo, Cabra, Macaco, Galo, Cão e Porco. Cada ano é também associado a um de cinco elementos: Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água. É preciso um ciclo de 60 anos para que todas as combinações possíveis aconteçam.

      Em 1966, o Japão encontrava-se em pleno “milagre económico” que transformou um país devastado pela Segunda Guerra Mundial numa enorme potência económica. Floresciam a tecnologia, a ciência e a educação, concomitantes a um pensamento ainda enraizado na superstição e em supostas diferenças inatas entre mulheres e homens. Seis décadas depois, o signo do Cavalo volta a cruzar-se com o elemento Fogo em 2026 (mais precisamente, segundo o calendário lunar, entre 17 de Fevereiro de 2026 e 5 de Fevereiro de 2027). Poderemos estar perante um novo ano desfavorável para as crianças do sexo feminino?

      No século XXI, a superstição ainda faz parte do quotidiano da população chinesa. No primeiro dia do Ano Novo não se lava o cabelo, não vá a prosperidade – palavra de sonoridade semelhante a “cabelo” em mandarim – ser arrastada com a água. Algumas famílias evitam visitas e eventos sociais no terceiro dia, considerado propício a discussões (este ano, a data cai a 19 de Fevereiro).

      A astrologia também desempenha um papel importante na mentalidade colectiva, embora não de forma tão acentuada como em décadas anteriores. O ano do Dragão, considerado particularmente auspicioso entre os demais, coincide frequentemente com aumentos expressivos na natalidade na China Continental, Hong Kong e Taiwan. Em 2024, o mais recente ano associado a esta criatura mítica, verificou-se um ligeiro aumento no número de nados-vivos no território continental após sete anos consecutivos de declínio.

      “Este fenómeno baseia-se em crenças supersticiosas de que os ‘bebés do Dragão’ têm mais sorte e são mais fortes”, explica o mestre Sam Pao, especialista em ‘feng shui’, ao PONTO FINAL. “Melhor ainda se for um bebé rapaz, porque em zonas onde o pensamento supersticioso está mais enraizado, como Fujian ou Chaozhou, existe ainda alguma preferência por filhos do sexo masculino”.

      Esta é uma tendência que tem vindo a perder força nos últimos anos, em que as decisões relacionadas com o casamento e a natalidade são cada vez mais baseadas em preferências emocionais e na estabilidade económica do casal. “Não creio que a astrologia tenha impacto na natalidade em Macau ou no interior da China”, defende o astrólogo. “Antigamente poderia acontecer, porque estas crenças eram mais populares e levadas mais a sério. Por exemplo, era comum que o casamento dependesse da aprovação dos pais e até da escolha do momento certo. Hoje em dia, os jovens nem sequer consultam os pais – seria impensável alguém deixar de namorar porque a mãe disse que as horas de nascimento não são compatíveis”.

      Ainda assim, o mestre Sam Pao não descarta a hipótese de que algumas crenças ou superstições se espalhem por influência de amigos ou colegas. Terá sido desta forma que se difundiu o estigma das mulheres do Cavalo de Fogo: por histórias passadas de boca em boca, sem fundamentos na literatura tradicional (e muito menos na científica).

      “Não se trata de uma crença generalizada, mas sim de ideias particulares”, confirma o mestre de ‘feng shui’. “Se procurarmos em textos antigos ou livros de adivinhação, não encontraremos tais referências às mulheres do Cavalo de Fogo; são mitos transmitidos oralmente”.

      De facto, as origens deste estigma são nebulosas e parecem ter como provável causa uma história contada de geração para geração desde o século XVI. A protagonista é Yaoya Oshichi, uma jovem de dezasseis anos queimada na fogueira em 1683 por ter ateado um incêndio. O motivo? Um ano antes, tinha conhecido um rapaz durante um incêndio devastador e estava certa de que o reencontraria caso a cidade de Edo (actual Tóquio) voltasse a ser consumida pelas chamas.

      Baseado em factos verídicos, o relato acabou por ganhar elementos ficcionais com o tempo e tornou-se num conto de advertência para a impulsividade, a paixão desmedida… e o peso do signo astrológico, que teria condenado a adolescente, nascida no ano do Cavalo de Fogo de 1666, a um fim trágico. Trezentos anos depois, o estigma continuava no Japão – apesar de a história da mulher “amaldiçoada” do Cavalo de Fogo ser exclusivamente baseada no folclore.

      Mitos e histórias centenárias à parte, o mestre Sam Pao chama a atenção para o quão redutor é associar a personalidade ao signo. A astrologia chinesa assenta numa leitura muito mais complexa: o mapa astral individual, chamado Bazi (literalmente, “oito caracteres”), é formado por quatro pilares correspondentes ao ano, mês, dia e hora de nascimento, combinando um Tronco Celeste (que contém um dos cinco elementos, com polaridade Yin ou Yang) e um Ramo Terrestre (associado a um dos doze animais).

      No total, são oito os caracteres que definem o perfil astrológico. O signo do zodíaco, correspondente ao Ramo Terrestre do ano, representa apenas um desses oito elementos e não fornece informação suficiente para decifrar o puzzle intrincado que é o horóscopo chinês.

      A MULHER MODERNA

      A igualdade entre os sexos está inscrita na Constituição da República Popular da China, promulgada originalmente em 1954, e tem sido uma das principais bandeiras hasteadas pelo Partido Comunista Chinês (PCC). A entrada massiva das mulheres chinesas no mercado de trabalho e a garantia das suas protecções legais coincidiu com o surgimento da famosa frase “as mulheres sustentam metade do céu”, popularizada por Mao Zedong, e parecia consolidar o poder feminino na sociedade chinesa. Na prática, a realidade nem sempre é esta.

      “O estereótipo tradicional da mulher ideal na China é influenciado pelos discursos dos diferentes períodos históricos”, afirma Juan Chen, professora assistente de Antropologia na Universidade de Macau (UM). “No passado, a imagem ideal da mulher era caracterizada como gentil, virtuosa e voltada para a família, assumindo responsabilidades como apoiar o marido e educar os filhos”.

      “O pensamento tradicional chinês sugeria que uma mulher deveria ser dócil”, corrobora o mestre Sam Pao. “Se fosse impaciente, de temperamento forte ou muito ambiciosa, era vista como uma mulher problemática que não respeitava as convenções femininas. Claro que esta é uma visão tradicional e antiga, que não tem lugar numa sociedade igualitária”.

      Os tempos mudaram – e os estereótipos de género foram progressivamente dando lugar a uma visão mais justa e multidimensional da mulher. Juan Chen observa que as principais mudanças ocorreram na década de 1990, “com o desenvolvimento da economia do país e o aumento do número de mulheres no mercado de trabalho”. A mulher trabalhadora veio desafiar estas ideias pré-concebidas e obrigar a uma reflexão sobre as mesmas, embora de forma desigual entre regiões e províncias.

      A docente, cuja área de investigação se centra sobretudo sobre os temas de género e de antropologia da China, realça que o caminho para a igualdade plena está ainda longe de ser alcançado. “No geral, como a China é uma sociedade patriarcal, mesmo que as mulheres possuam um certo grau de independência financeira mantém-se a expectativa de que adoptem os mesmos valores tradicionais”.

      Esta observação sugere que as imposições sociais relativas ao casamento e ao cuidado dos filhos não desapareceram – apenas constituem uma das várias camadas associadas às mulheres modernas. São agora trabalhadoras, mas continuam a acumular os papéis de esposas e mães esmeradas.

      No entanto, a tentativa de traçar um retrato da mulher chinesa talvez obrigue a generalizações demasiado extremas tendo em conta a dimensão e diversidade do país. “Mulheres de personalidade forte não são necessariamente vistas como problemáticas ou difíceis: esta percepção varia consoante factores como o contexto social, diferenças regionais, nível de educação e o grupo em questão”, sublinha Juan Chen. “Por exemplo, a geração mais velha tende a associar a feminilidade ideal à gentileza e à virtude, pelo que poderá ter tendência a encarar as mulheres de temperamento forte como relativamente difíceis”.

      As gerações mais jovens, mais abertas ao mundo e distanciadas do pensamento tradicional, poderão ter uma perspectiva diferente. A professora enfatiza que, “de um modo geral, os jovens modernos receberam níveis mais elevados de educação e testemunharam a crescente participação das mulheres na força de trabalho e a sua independência financeira”, o que contribui para que as percepcionem como suas semelhantes. As mulheres “economicamente independentes, competentes ou de temperamento forte” já não são vistas como uma fonte de problemas: para alguns homens, são até “desafiadoras e atraentes”.

      À medida que a sociedade chinesa avança, também os valores sociais parecem evoluir e abrir caminho para a igualdade plena, independentemente do sexo ou do signo astrológico. O novo ano do Cavalo de Fogo vai permitir uma compreensão mais profunda do pensamento contemporâneo dos países da Ásia Oriental, posicionados entre a vanguarda tecnológica e a fidelidade aos ensinamentos tradicionais. Seremos novamente confrontados com um ano atípico no Japão, onde a natalidade já alcançou níveis alarmantemente baixos? Haverá repercussões na China, particularmente em contraste com os anos do Dragão? A resposta a estas questões permanecerá uma incógnita até Fevereiro de 2027, quando o ano do Cavalo terminar e ceder lugar ao ano da Cabra.