À semelhança do que acontece com um convidado mal-educado, o inverno em Macau chega sem avisar, entra sem pedir licença, fica pouco tempo e, quando achamos que a sua visita está concluída, dá meia-volta e regressa, como quem se esquece do telefone quando os donos da casa já estão no conforto dos seus trajes de dormir. Os termómetros insistem em marcar nove graus de mínima e o elevado nível de humidade agrava o cenário, deixando o ar mais denso e cortante. O frio infiltra-se sorrateiramente entre frestas de portas e janelas, o pavimento gela e, com ele, os nossos ossos. O inverno é intenso enquanto dura e, mesmo que breve, relembra-nos a cada ano que a construção e o estilo de vida das regiões de clima subtropical não são de todo compatíveis com invernos rigorosos.
Foi num gélido dia de Janeiro que a minha chefe regressou de uma inspecção a uma fábrica em Yunnan, região no sul da China, com uma caixa dos tradicionais “xian hua bing”, mais conhecidos por bolos de rosas, uma iguaria com mais de trezentos anos, outrora apreciada até pelo imperador Qianlong, que os elevou a oferenda especial. Compostos por várias camadas de uma leve massa folhada, com um recheio que consiste numa pasta doce feita de pétalas comestíveis (misturadas com açúcar e mel). O aroma floral é suave e perfumado. Hoje, estes bolos são o souvenir mais cobiçado de Yunnan, com filas nas pastelarias e variantes que vão do clássico de rosas ao crisântemo, jasmim ou toques surpreendentes de pinhões.
Abri o pacote, curiosa, e dei a primeira dentada, sem antecipar a viagem que se seguia. A massa folhada estourou delicadamente, libertando um aroma delicado, etéreo, de rosas frescas. O recheio veio na sequência: doce na medida certa, como os chineses tão bem o sabem equilibrar, floral sem ser enjoativo, como se as pétalas tivessem sido colhidas na manhã de uma primavera distante. Senti um calor subtil espalhar-se pelo meu peito, um contraste delicioso entre a real manhã gélida e a minha eterna rebeldia de teimar andar desagasalhada. Por momentos, levitei com um jardim inteiro a desabrochar na minha boca, rosas doces a dançar quais borboletas na barriga de um adolescente a lidar com os sinais da primeira paixão. E, naquele momento, no meio da explosão de pétalas, as saudades de casa apertaram com um sorriso nostálgico. Lembrei-me das mulheres da minha família, que sempre recorreram a flores e plantas para elevar energias. Viajei até casa e aos momentos em que eu e a minha avó, a rainha da botânica, fazemos juntas os arranjos de flores e os centros de mesa. Na dentada que se seguiu, fui transportada até à casa de banho da minha irmã; eu, a falar pelos cotovelos, perdida entre assuntos aleatórios que ela tão bem vai acompanhando, sem nunca se perder na sequência da sua rotina de noite, que finaliza com uma generosa borrifadela de água de rosas, como quem recebe uma bênção noturna.
Um bolo tão pequeno bastou para importar a primavera inteira e, com ela, um eco distante do colo da minha avó e do abraço da minha irmã. Por vezes, a vida tem uma ternura discreta: mesmo nos dias mais cinzentos do inverno, faz chegar um bolo de rosas para nos sussurrar que a primavera nunca está longe, apenas à espera do momento certo para desabrochar.











