China confirma repatriamento de líder de rede de fraude e jogo extraditado do Camboja

0
29

A China confirmou ontem a repatriação do empresário Chen Zhi, identificado pelas autoridades como líder de uma rede transnacional de fraude e jogo ilegal, numa operação realizada com apoio do Camboja.

O ministério da Segurança Pública chinês informou que Chen Zhi foi escoltado na quarta-feira desde Phnom Penh até à China, onde ficou sujeito a “medidas coercivas” segundo a legislação nacional, enquanto prosseguem as investigações.

De acordo com as autoridades, a rede é suspeita de envolvimento em crimes como burla, exploração de casinos, operações comerciais ilegais e branqueamento de capitais. O caso encontra-se em fase de instrução e deverão ser emitidos mandados de captura contra outros alegados membros-chave da rede, indicou o ministério.

Pequim reiterou que continuará a perseguir fugitivos e apelou aos implicados que se entreguem, podendo assim beneficiar de um eventual tratamento mais favorável, sem detalhar o alcance das investigações.

As autoridades chinesas frisaram que a luta contra a fraude em telecomunicações e o jogo ilegal ‘online’ é uma “responsabilidade partilhada” e manifestaram disponibilidade para continuar a trabalhar com os países da região, incluindo o Camboja, para desmantelar redes criminosas deste tipo.

O anúncio segue-se à detenção de Chen Zhi em território cambojano e à sua posterior extradição para a China, anunciada na quarta-feira por Phnom Penh. Chen é fundador do conglomerado Prince Group e foi anteriormente acusado por autoridades norte-americanas de chefiar redes de burla ‘online’ e tráfico de pessoas no Sudeste Asiático – alegações que o grupo negou.

O Camboja anunciou já a liquidação imediata do Prince Bank, propriedade do magnata chinês Chen Zhi. Numa resolução publicada pelo Banco Nacional do Camboja, a entidade ficou impedida de aceitar depósitos e conceder empréstimos, um dia após Phnom Penh confirmar a detenção e entrega de Chen a Pequim. A liquidação será supervisionada pela empresa Morisonkak MKA, que deverá garantir o levantamento dos depósitos pelos clientes e a continuação do pagamento dos créditos em curso.

O Prince Bank era uma das mais de 100 empresas do conglomerado Prince Group, fundado por Chen Zhi, que ao longo da última década expandiu-se em áreas como turismo, tecnologia, logística, alimentação e finanças. Várias dessas empresas foram identificadas por Washington como fachadas para esquemas de burla ‘online’ e redes de tráfico humano no Sudeste Asiático.

Nos últimos meses, vários países e territórios da região, como Singapura, Taiwan e Hong Kong, adotaram medidas judiciais e regulatórias contra empresas e ativos ligados ao conglomerado, no âmbito de um reforço da cooperação internacional contra o crime financeiro transfronteiriço.

Centros de burla continuam activos apesar da extradição de magnata

Organizações não-governamentais (ONG) disseram ontem à Lusa que os centros de burla no Camboja continuam a operar, apesar da extradição para a China do magnata acusado de dirigir operações criminosas utilizando trabalho forçado. O director do Prince Holding Group, Chen Zhi, um empresário chinês, acusado nos Estados Unidos de liderar redes de tráfico humano e de burlas ‘online’ no Sudeste Asiático, foi detido no Camboja e extraditado para a China na quarta-feira. No entanto, Serene Li, fundadora da Global Anti-Scams Organization, sediada em Phnom Penh, disse à Lusa que a ação mediática não levou a uma repressão da indústria. “Não há complexos de burla a serem encerrados”, afirmou Li.

Li Ling, cofundadora de outra ONG que investiga fraudes online, a EOS Collective, alertou que só no Camboja “existem mais de 250 centros de burla”.

A activista explicou à Lusa que as investigações da organização revelam que a maioria destes centros envolve vastas redes de proprietários. “Até os centros operados por [cidadãos] chineses exigem conivência com governos locais e senhores da guerra,” afirmou.

De acordo com o Ministério do Interior do Camboja, outros dois cidadãos chineses, Xu Jiliang e Shao Jihui, foram detidos e extraditados juntamente com o magnata de 37 anos.

Em meados de outubro, a procuradoria do distrito leste de Nova Iorque e a divisão de Segurança Interna do Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusaram Chen Zhi de crimes financeiros relacionados com trabalho forçado.

As autoridades norte-americanas sustentam que o magnata dirigia um império criminoso no Camboja sob o chapéu do Prince Group, que detém empresas em mais de 30 países. O império incluía pelo menos dez operações fraudulentas no Camboja, forçando “centenas de vítimas de tráfico humano”, confinadas em “complexos semelhantes a prisões”, a trabalhar em burlas em plataformas digitais numa “escala industrial”.

Na última década, desde fundar o Prince Group, Chen Zhi doou pelo menos três milhões de dólares (cerca de 2,5 milhões de euros) ao Governo cambojano e outros 16 milhões de dólares (13,68 milhões de euros) a projetos comunitários, através de uma fundação.

Milhares de pessoas são traficadas para centros de burla em todo o Sudeste Asiático, onde são torturadas e forçadas a defraudar vítimas em todo o mundo, formando uma operação de escravatura moderna que movimenta milhões. Sobreviventes e ONG já detalharam anteriormente esta violência à Lusa.

A escala é global. A Organização Internacional de Polícia Criminal (Interpol) confirma no seu portal que vítimas de 66 países foram traficadas para estes centros de burla online, sendo que aproximadamente 74% foram levadas para centros no Sudeste Asiático. Novos centros estão também a surgir na África Ocidental, no Médio Oriente e na América Central. Lusa