O que acontece quando a ancestral Rota da Seda se encontra com a linguagem tecnológica do século XXI? A exposição-performance “Golden City of Seres” encerra uma saga de quase dois meses que fundiu as fronteiras entre dança, arte visual e música, marcada para este sábado na sede da Fundação Oriente. O projecto, uma colaboração entre Macau e Antuérpia, mostra ao público uma reflexão sobre desejo, tecnologia e identidade cultural através de uma estética que os criadores apelidam de “Chinoiserie Surrealista”.
O projecto artístico “Golden City of Seres – Surrealistic Chinoiserie” chega ao seu momento culminante a 6 de Dezembro, com uma performance de encerramento que promete fundir linguagens artísticas numa experiência imersiva singular. Após um percurso expositivo de quase dois meses na Fundação Oriente – Casa Garden, a iniciativa organizada pela Associação Art For All (AFA) encerra com uma apresentação que sintetiza a relação cultural entre Macau e a cidade belga de Antuérpia, deambulando pelos novos significados da Rota da Seda no contexto contemporâneo.
O título do projecto evoca deliberadamente o termo latino “Sērēs”, usado por geógrafos greco-romanos para designar os povos associados à produção da seda. Uma referência histórica que serve de ponto de partida para uma reflexão sobre transmissão cultural, valor material e identidade. A “Cidade Dourada” remete, por sua vez, para a transformação de Macau de porto histórico na estampa actual do Cotai, criando um terreno fértil para uma dinâmica surreal sobre materialidade e desejo.
No centro da exposição esteve o trabalho do artista visual Leong Chi Mou, que explora o conceito de “nova seda” através de materiais industriais como latão, cobre e malha metálica. Nas suas séries “Serica – Diamond Hill” e “Serica – Golden Landscape”, Leong reinterpreta a tradição chinesa da pintura de paisagem (shan shui), questionando as estruturas de valor e herança cultural. A sua obra “Serica – Auspicious Drone” confronta símbolos auspiciosos ancestrais, como os do “Pergaminho dos Grous Auspiciosos” do Imperador Huizong da Dinastia Song, com a omnipresença tecnológica contemporânea, representada por drones de vigilância.
Esta investigação visual ganha uma dimensão performativa e corporal na apresentação de encerramento, co-dirigida e interpretada pelos bailarinos Jay Zheng, de Pequim, e Tina Kan, de Macau. A coreografia funde influências da dança clássica chinesa, nomeadamente a leveza etérea da dança de Dunhuang, com a linguagem do ballet contemporâneo, criando um vocabulário físico que espelha o conceito de “Chinoiserie Surrealista”.
A dimensão visual da performance é amplificada pelo trabalho da artista de ‘body painting’ e estilista Mandy Cheuk, que transforma os corpos dos intérpretes em telas humanas. Inspirada pelo conceito de “Diamond Hill” presente nas pinturas de Leong Chi Mou, Cheuk concebeu uma imagem futurista para a bailarina Tina Kan, uma peça que evoca a imagem de um “ciborgue”, um ser híbrido entre humano e máquina, e que questiona as linhas entre o corpo natural e as modificações tecnológicas.
A dimensão sonora é assegurada pela produtora e arranjadora musical Faye Choi, conhecida pelo seu trabalho com a banda de música electrónica EVADE, com os contributos instrumentais de Iris Lo na flauta. A composição original combina uma estética oriental etérea com o ritmo contemporâneo da música electrónica, criando uma paisagem auditiva que envolve o espectador no diálogo transcultural proposto.
“’Golden City of Seres’ não é apenas uma exposição ou uma performance, é uma experiência. É uma jornada através de uma paisagem cultural reimaginada, onde a história ornamentada da Chinoiserie é filtrada através de uma sensibilidade surrealista, e onde as identidades distintas, mas interligadas de Macau e Antuérpia, encontram novas formas de expressão”, explica a curadora Alice Kok, que acompanhou academicamente o projecto.
A iniciativa, que inaugurou oficialmente no dia 24 de Outubro, contou ainda com workshops criativos de abertura orientados pelo director artístico belga Dirk Decloedt, que trouxe para a mesa influências do surrealismo belga, em particular de René Magritte. “Golden City of Seres” propõe-se como uma reflexão profunda sobre a condição humana contemporânea, num mundo onde o desejo, a tecnologia e os códigos culturais se entrelaçam de forma complexa. Algo pertinente não só para Macau, mas para a actual situação da arte contemporânea em sobrevivência no cenário tecnológico em progresso.
A performance de encerramento, com entrada livre, terá lugar no dia 6 de Dezembro, às 18h30, na Casa Garden. “Golden City of Seres – Surrealistic Chinoiserie” é organizado pela Art For All Society com o apoio do Fundo para o Desenvolvimento Cultural.












