O fotógrafo Edgar Martins venceu o Grande Prémio do Sovereign Portuguese Art Prize 2025, no valor de 25 mil euros, pela obra “Anton’s Hand is Made of Guilt”, inspirada no desaparecimento de um amigo em tempos de guerra.
O anúncio foi feito na terça-feira, dia da inauguração da exposição dos finalistas, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, durante uma visita para a imprensa, conduzida por Howard Bilton, fundador e presidente da Fundação Sovereign Art Foundation (SAF).
Trata-se da quarta edição deste prémio anual, que é atribuído pela Associação SAF, filial portuguesa da Sovereign Art Foundation, criada em 2003 em Hong Kong para promover, apoiar e reconhecer a arte contemporânea e incentivar a produção artística, bem como financiar programas para crianças desfavorecidas em Portugal.
A obra vencedora, que também está presente na colecção do Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM), é uma prova cromogénea, montada em alumínio e emoldurada, que faz parte da série “Anton’s hand is made of Guilt. No muscle of Bone. He has a Gung-ho Finger and a Grief-stricken Thumb” (2023).
O trabalho de Edgar Martins explora temas como a guerra, o encarceramento, a migração, o urbanismo e a tecnologia, sendo que este projeto, em particular, se debruça sobre a morte e o desaparecimento de um amigo, o fotojornalista Anton Hammerl, durante a guerra da Líbia em 2011.
O trabalho articula-se em torno de uma questão central: como narrar uma história sem testemunhas, provas ou vestígios, e na ausência do próprio referente fotográfico”, refere a informação do catálogo sobre a obra, acrescentando que “mais do que uma homenagem, este trabalho retrata uma história complexa, distorcida por ausências, que fala sobre as dificuldades de documentar, testemunhar e imaginar a guerra”.
“Embora não tenda a categorizar o meu trabalho como fotografia, no sentido tradicional do termo, ele é, em praticamente todos os aspetos, fotográfico. E a fotografia, historicamente, não tem sido particularmente bem-sucedida quando é forçada a competir com outros meios. Por isso, recebi esta notícia com surpresa e entusiasmo em igual medida. É, naturalmente, uma enorme honra receber um prémio tão prestigiado. E, além disso, um privilégio saber que este apoio financeiro contribuirá diretamente para o programa solidário da Sovereign Art Foundation, fazendo-me sentir parte de algo muito maior do que este feito artístico isolado”, declarou o vencedor, citado em comunicado.
Para o presidente do júri, David Elliott, não tem sido tarefa fácil chegar a um vencedor, com a “variedade, profundidade e subtileza das obras finalistas”. “As ironias cruelmente selvagens que nos confrontam em cada noticiário diário fazem parte do tema da obra vencedora de Edgar Martins. Enraizada tanto no presente como no passado recente, foi desencadeada pelo ainda inexplicado desaparecimento e morte do seu amigo, o fotojornalista Anton Hammerl, durante a Guerra da Líbia em 2011. Continua a ser um crime sem testemunhas ou qualquer outra prova, um vazio que Martins abordou noutros trabalhos, bem como na obra vencedora ‘Anton’s Hand is Made of Guilt. No Muscle or Bone. He has a Gung-ho Finger and a Grief-stricken Thumb'”, afirmou o presidente do júri, citado pela organização.
Este ano, pela primeira vez, foi instituído o Prémio Feminino, criado em parceria com a Sassy Women Society, no valor de dois mil euros, que distingue a finalista com maior pontuação, tendo a escolha recaído sobre a artista Alice Marcelino, pela obra “Black Skin White Algorithm”.
Caso o vencedor do grande prémio tivesse sido uma mulher, outra obra de uma artista feminina seria escolhida para receber este novo galardão, uma vez que não é possível um mesmo autor acumular dois prémios, explicou Howard Bilton. “Black Skin White Algorithm” é uma impressão fotográfica C-Type em papel, montada em alumínio, que se inspira em “Pele Negra, Máscaras Brancas”, de Frantz Fanon, para explorar como as ideologias coloniais persistem nos sistemas algoritmicos, onde a negritude é frequentemente codificada como ameaçadora ou desviante. “Esses preconceitos herdados são mascarados como objetividade, amplificando os danos através de processos aparentemente neutros”, lê-se na descrição da obra de Alice Marcelino, que usa a fotografia para explorar como a migração, a tradição e a identidade se cruzam e evoluem entre as culturas na sociedade global de hoje.
As 30 obras finalistas vão estar expostas até ao dia 13 de Dezembro, data em que será atribuído o prémio do Voto Público, que pode ser feito presencialmente ou ‘online’, também no valor de dois mil euros.
As 30 obras finalistas que vão estar em exposição foram escolhidas por um júri internacional composto por sete especialistas – Adelaide Ginga, Armando Cabral, David Eliott, Francisco Trêpa (que venceu o grande prémio em 2024), João Paulo Queiroz, Maura Marvão e Tim Marlow OBE – a partir de cerca de 200 artistas propostos por um painel de profissionais independentes das artes, incluindo críticos, curadores e académicos portugueses.
Todas as obras finalistas estão disponíveis para compra e os lucros serão divididos igualmente entre os artistas e os programas de artes expressivas da SAF para crianças desfavorecidas em Portugal.
O Sovereign Portuguese Art Prize é um galardão anual que celebra o trabalho de artistas contemporâneos a viver em Portugal e na sua diáspora, oferecendo reconhecimento internacional e apoiando financeiramente artistas, ao mesmo tempo que angaria fundos para crianças desfavorecidas em Portugal através da venda das obras finalistas. Lusa












