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      InícioCulturaPrimeiro jornal da história de Macau comemora 200 anos  

      Primeiro jornal da história de Macau comemora 200 anos  

      A “Abelha da China” foi um jornal semanal publicado durante pouco mais de um ano, tempo suficiente para ser o primeiro jornal fundado por um estrangeiro em território chinês e considerado o primeiro jornal moderno publicado no Império do Meio. Escrito em português do século XIX, o título constitucionalista foi fundado, entre outros, pelo brasileiro Paulino da Silva Barbosa e pelo médico José de Almeida Carvalho e Silva há precisamente dois séculos, fervorosos liberalistas. A Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau promove, na próxima segunda-feira, na Fundação Rui Cunha, uma palestra sobre a efeméride.

       

      Duzentos anos depois é altura de se comemorar o primeiro periódico impresso da história de Macau. O jornal “Abelha da China” foi fundado a 12 de Setembro de 1822, em plena dinastia Ching, pelo militar brasileiro, criador da Typographia do Governo (depois Imprensa Oficial) e presidente do Leal Senado, Paulino da Silva Barbosa, nascido na Bahia, e pelo médico José de Almeida Carvalho e Silva, director dos Serviços de Saúde. O seu redactor principal foi o frei António de São Gonçalo de Amarante.

      A Associação de Imprensa em Português e Inglês de Macau (AIPIM) promove, na próxima segunda-feira, pelas 18h30, na Fundação Rui Cunha, uma palestra sobre a efeméride. A iniciativa terá como oradores João Guedes, jornalista e autor, e Daniel Pires, professor universitário. A moderação estará a cargo de José Miguel Encarnação, jornalista e presidente da AIPIM, com quem o PONTO FINAL conversou. “Vamos ter a celebração possível no dia em que, precisamente, se comemoram os 200 anos do início da imprensa escrita em Macau. Há sempre um marco e sempre um primeiro dia em que as coisas acontecem”, começou por dizer Encanação.

      Para o editor do jornal semanário católico O Clarim, a palestra comemorativa intitulada “A Abelha da China: 200 anos da Imprensa em Macau”, com entrada livre, procurará abordar “não só o contexto histórico, social ou económico, mas, principalmente, o contexto político, porque a ‘Abelha da China’ surge como um manifesto político”.

      José Miguel Encarnação referiu ainda que a sessão – integralmente realizada em língua portuguesa sem interpretação simultânea – contará ainda com três ecrãs distribuídos pela sala onde se podem ver, não só capas da própria ‘Abelha da China’, como também outras capas de outros jornais da história da imprensa escrita de Macau, onde o PONTO FINAL está presente. “Ao mesmo tempo também mostramos pinturas antigas dos anos de 1830, porque não se conseguiu arranjar pinturas de 1822, e ainda uma fotografia com uns juncos, que se não é a primeira fotografia captada em Macau, é, certamente, uma das primeiras”, notou, acrescentando que esta iniciativa poderá não ser a única a ser realizada este ano. “Pode ser que mais tarde se faça mais qualquer coisa, com mais músculo, mas, para já, assinalamos a data desta forma”.

       

      MANIFESTO POLÍTICO E NÃO SÓ

       

      O título surge durante os tempos conturbados criados pela revolta liberal portuguesa de 1820 e acabou por ser um instrumento de opinião pública para os liberais e constitucionalistas alfinetarem os absolutistas. Foi publicado às quintas-feiras pelo Gabinete de Impressão do Governo de Macau até 27 de Dezembro de 1823 (número 68 e último), altura em que o Comandante Joaquim Mourão Garcez Palha e várias centenas de soldados aportaram para Macau, numa tentativa de restaurar o antigo regime, algo que conseguiram. Garcez Palha passou a ser Governador de Macau.

      Antes, o militar brasileiro Paulino da Silva Barbosa chegou à liderança política de Macau e, por isso, o baiano que tinha ideias liberais e constitucionais, as implementou, tendo a “Abelha da China” como manifesto político semanalmente.

      Outras figuras liberalistas de relevo, para além de Paulino da Silva Barbosa e José de Almeida Carvalho e Silva, foram Antônio Francisco de Paula de Holanda Cavalcanti de Albuquerque, brasileiro e ascendente do cantor Chico Buarque, assim como o tipógrafo e revisor de provas brasileiro Bento José Gonçalves Serva e Manoel Pereira, proprietário, entre outras coisas, da Casa Garden e do Jardim Luís de Camões. Do lado absolutista foram derrotados o governador José Osório de Castro Cabral e Albuquerque e não menos famoso ouvidor Miguel José de Arriaga.

      A “Abelha da China”, para além de veículo de índole política, continha também anúncios oficiais, decretos e outras informações como a reacção do governo Qing chinês às mudanças políticas, notícias internacionais e horários portuários. Desde a sua criação, o jornal tinha um objectivo político claro e forte, apresentando-se como o órgão de informação liberal e o gazeta do governo constitucionalista. “A China sempre foi muito institucional. Repare que a política externa chinesa, ainda hoje, é igual ao que era no tempo dos Qing e dos Ming. A única coisa que os preocupava era se a China seria prejudicada”, referiu o jornalista João Guedes.

      Promovendo a democracia, a liberdade de expressão e os direitos civis, a publicação procurou sempre dar ênfase aos movimentos revolucionários que proliferavam um pouco por todo o mundo naquela altura, como o movimento independentista brasileiro e as revoluções burguesas em Portugal e Espanha.

      Do ponto de vista estético, era um jornal ocidental típico do início da modernidade, com três características bem vincadas para a altura: folhas soltas, impressão frente e verso e layout colunar. Tinha uma dimensão reduzida (34 x 21,4 cm), com duas colunas básicas de quatro a doze páginas. “Foram alguns exemplares para Portugal. Aliás, a colecção que está na Biblioteca Nacional é mais completa do que a que ficou em Macau. Acredito que no Brasil também existam exemplares”, admitiu o especialista em História de Macau.

      A publicação também tinha uma ligação à Maçonaria. “A própria abelha, que dá título ao jornal, era um dos símbolos maçónicos mais usuais no século XIX, mas que actualmente está em desuso”, escreve o académico Pablo Magalhães no seu estudo “Paulino da Silva Barbosa. O baiano que liderou a Revolução Constitucional em Macau e criou o jornal A Abelha da China (1822-1823)”.

      Depois de instaurado o antigo regime absolutista, a publicação, que foi o primeiro jornal fundado por um estrangeiro em território chinês e considerado o primeiro jornal moderno publicado no Império do Meio, acabou substituída pelo jornal conservador “Gazeta de Macau”, mas apenas em Janeiro de 1824.

      João Guedes lança um dado curioso na conversa que manteve com o PONTO FINAL. Se as ideias liberalistas tivessem vingado, muito provavelmente Macau deixaria de responder a Portugal e passaria a responder ao Brasil, que recentemente se tornara independente. “Não se fala disso. Talvez não convenha. Mas Paulino da Silva Barbosa preferia que Macau estivesse sobre a alçada do Rio de Janeiro do que de Goa. Ele esteve a dois passos de juntar Macau ao Brasil e, se isso acontecesse, a História de Macau seria totalmente diferente da que é hoje”, admitiu.

       

      A QUESTÃO DO “INÍCIO DO DIÁRIO NOTICIOSO”

       

      A académica e antiga jornalista Agnes Lam sugeriu, no entanto, em 2015, no livro “The Begining of The Modern Chinese Press History/Macau Press History 1557-1840”, que o primeiro jornal de Macau terá sido o “Início do Diário Noticioso”, fundado 15 anos antes da “Abelha da China” pelo monge Lázaro Joaquim José Leite no Mosteiro de São José. No entanto, conforme nos explicou por telefone, “o Início Diário Noticioso era escrito à mão e, muito provavelmente, fora do habitual formato de jornal”.

      Para a professora da Universidade de Macau (UM), a “Abelha da China” deveria ser catalogada ainda como “o primeiro jornal publicado em Macau sobre o qual foi encontrado um original” e, ainda, “o primeiro jornal publicado em Macau após a revolução liberal portuguesa de 1820”. “Ao mesmo tempo deveria ser acrescentado que a ‘Abelha’ foi o primeiro jornal impresso em Macau”, referiu Agnes Lam, que não tem dúvidas que, na língua de Camões, o “Início do Diário Noticioso” foi o primeiro.

      Agnes Lam considera, no entanto, que a “Abelha da China” foi “um jornal de especial significado” porque a sua publicação “marcou a transição da era da publicação religiosa e cultural em Macau, quando o catolicismo e os missionários cristãos dominavam o negócio editorial, para uma nova era em que as funções políticas influenciaram o desenvolvimento da imprensa e da indústria editorial”, e observou que “Macau era então um lugar de considerável tolerância cultural entre o Oriente e o Ocidente, permitindo que diferentes pessoas publicassem em chinês em Macau”. “E a história podia ter sido muito diferente. Se o Diário Noticioso tivesse sido, efectivamente, o primeiro jornal impresso, teríamos começado com uma cultura religiosa, cristã, católica. Acreditando que o ‘Abelha da China’ foi o primeiro, tudo começou com a política e durante uma revolução”, disse ainda a professora da UM.

      “The Begining of The Modern Chinese Press History/Macau Press History 1557-1840” resulta de uma investigação iniciada em 2005, que vai desde o estabelecimento dos portugueses em Macau até à primeira guerra do ópio. O “Início do Diário Noticioso” funcionava como um serviço de selecção de notícias de jornais, e continha informações sobre Macau, China e sobre a Igreja, explicou ainda a docente.

      João Guedes acrescentou ainda que, em relação ao “Início do Diário Noticioso”, tratava-se de um jornal completamente diferente do “Abelha da China”. “A impressão estava proibida por decreto. Só a Igreja podia, e não era tudo, imprimir alguns documentos, como catequeses, orações, etc. Houve sempre quem quisesse, e conseguiu, fazer publicações. Os ingleses, por exemplo, também escreveram muitas coisas. Mas em letra de forma, o primeiro foi mesmo a ‘Abelha da China’”, esclareceu.

      Em 1994, a Universidade de Macau e a Fundação Macau fotografaram e reimprimiram todos os números do jornal para publicação em livro. As publicações originais estão guardadas na biblioteca do Instituto para os Assuntos Municipais (IAM), estando disponível apenas para visualização, sendo que a Biblioteca Nacional de Portugal também tem um conjunto.

       

      Centro Cultural e Científico de Macau em Lisboa assinala efeméride

       

      Tal como na Fundação Rui Cunha, o Centro Cultural e Científico de Macau (CCCM) vai assinalar, no próximo dia 12 de Setembro, o bicentenário de “A Abelha da China”. O programa da evocação da efeméride, no contexto da Revolução Liberal de 1820 e da primeira formulação do constitucionalismo português, inclui uma sessão com intervenções de cinco investigadores de Portugal, China e Brasil, que se têm dedicado ao estudo daquele período histórico e, em concreto, da imprensa em Macau. Na ocasião, será lançado um livro – “A Abelha da China nos seus 200 Anos: Casos, Personagens e Confrontos na Experiência Liberal de Macau” – coordenado por Duarte Drumond Braga e pelo jornalista Hugo Pinto, que reúne artigos da autoria dos investigadores: Cátia Miriam Costa, Jin Guoping, Jorge de Abreu Arrimar, Pablo Magalhães, e Tereza Sena. Esta edição, que inaugura a nova colecção de livros de História com chancela do Centro Cultural e Científico de Macau, é feita em parceria com a Universidade de Macau. Este volume de estudos tem por foco o primeiro jornal de Macau em língua portuguesa analisado a partir de diversas áreas das humanidades.