A Livraria Portuguesa acolhe hoje o fotógrafo brasileiro Ale Ruaro para uma sessão de partilha sobre a sua prolífica carreira de mais de três décadas. O décimo primeiro livro da sua autoria, “Vestígios”, foi ontem apresentado ao público de Macau no mesmo espaço. O PONTO FINAL falou com o fotógrafo horas antes da sua primeira apresentação em Macau, numa conversa em que se assumiu “encantado” com Macau e a China.
Ale Ruaro, uma das figuras mais interessantes da fotografia contemporânea brasileira, está de visita à Ásia pela primeira vez. As diferenças linguísticas e o calor inesperado (“este ano fez frio o ano inteiro em São Paulo, já não estou acostumado”) não atenuam o fascínio com que vê as ruas de Macau – ora a fervilhar de turistas, ora desaguando em becos ermos. Uma cidade sempre fotogénica, de um modo ou de outro.
O fotógrafo brasileiro é conhecido pelos retratos a preto-e-branco, executados com atenção ao detalhe, quase mais se assemelhando a pinturas a óleo do que a imagens captadas pela óptica da câmara. E desengane-se quem pensa que a fotografia monocromática é menos rica do que a colorida. Pelo contrário, explica o artista ao PONTO FINAL: os vários tons de cinzento permitem que a fotografia seja mais inteligível, mais facilmente interpretada num mundo a transbordar de cores e de estímulos sensoriais.
A paixão pelos retratos, confessa, tem um ponto de partida mais sentimental. Quando a mãe faleceu, em 2017, deixou para a posterioridade um único retrato a preto-e-branco. Ale Ruaro não teve a oportunidade de fotografar a mãe, mas a sua “obsessão” assumida leva-o agora a imortalizar as linhas do rosto de fotógrafos, artistas, de pessoas anónimas que lhe chamaram a atenção por um ou outro motivo. E da sua parceira e musa Alyssa Ohno, que já fotografou milhares de vezes.
O livro que o traz a Macau apresenta uma abordagem diferente. Trata-se de uma colecção de fotografias menos tradicionais e mais abstractas, focadas na sensação de movimento e na emoção implícita que emana das silhuetas de corpos, edifícios e paisagens. “Vestígios” foi ontem apresentado na Livraria Portuguesa, pelas 18h, seguindo-se hoje uma nova sessão em que o fotógrafo partilhará o seu percurso profissional e visão artística com a audiência.
É a primeira vez que visita Macau? Como é que se proporcionou a visita?
Sim, é a primeira vez na Ásia. Conheci o Gonçalo [Lobo Pinheiro, fotógrafo português radicado em Macau] na Internet, quando me escreveu falando que gostava do meu trabalho e de um concurso que ia ter em Macau. Falei para ele que quando fosse para o Brasil era para me avisar. Esse ano ele foi para o Brasil e acabou nos visitando… A gente estava já organizando essa viagem para a Ásia e acabou por incluir Macau no nosso destino.
Vem a propósito do seu novo livro, “Vestígios”…
Sim, é. Esse livro eu lancei em Setembro em São Paulo, no Brasil, e acabei trazendo para lançar aqui. Na realidade, esse livro fala de uma libertação minha como autor, sabe? Porque eu sou fotógrafo há 30 anos e trabalhei muitas vezes com fotografia comercial no passado. Eu tinha que agradar a algumas pessoas, fazer o que as pessoas queriam. Eu lutei muito para ter uma identidade, porque eu estudo arte desde os 14 anos de idade, então eu sempre busquei ter uma fotografia que fizesse sentido para mim. E aí em 2009 eu comecei a encontrar o meu caminho e iniciei a minha produção pessoal. Esse é o meu 11º livro. Todos os outros livros tinham um tema, seja ele documental, conceitual… Esse ano ia fazer uma publicação de retratos de gente na rua, ‘street photography’, desconhecidos em vários lugares do mundo. E aí um dia eu decidi que não ia ser isso. Que ia ser outro tema, que era falando justamente da minha fotografia, falando do meu trabalho pessoal, da minha linguagem. Nesse trabalho, quem consegue ler uma fotografia vê emoção, vê fuga, vê aflição, vê… uma maneira muito fácil, muito nítida de escrever como eu enxergo o mundo.
São fotografias que dão a ideia de movimento…
Sim, e tem muito a ver comigo, que sempre me movimentei a vida inteira.
A propósito do seu começo na fotografia comercial, li na sua página oficial que a certo ponto queimou todas as fotografias que tinha tirado até então e foi aí que começou este novo caminho. Onde é que define a linha entre fotografia comercial e fotografia enquanto arte?
Bom, na realidade eu sou fotógrafo desde o final de 1995. Eu queimei o meu acervo em 2004, e em 2009 foi quando eu encontrei essa minha linguagem. Inclusive tem uma foto no livro [“Vestígios”] que é de 2009, que é um retrato de uma pessoa que eu encontrei na rua, muito estiloso. A partir dali eu comecei a visualizar coisas que faziam sentido para mim… No começo era sempre voltado à quebra de tabu; à normalização de tabus sociais. Mas desde 1996 comecei a trabalhar comercialmente com fotografia, porque eu precisava me sustentar. Eu fazia fotografia comercialmente por encomenda. Até que chegou um momento em que eu meio que surtei com isso, não suportava mais fazer o que me encomendavam, e comecei a viver a minha fotografia pessoal. Então, aí eu acho que eu entro na tua pergunta. Qual é o limite da fotografia e da arte? Eu acho que tem várias formas de responder. Porque se a gente for pensar em mercado de arte, tem fotojornalistas que fotografavam guerra no século passado e que as fotos deles acabaram virando fotografias comercializáveis, coleccionáveis, foram para galerias, museus, livros, e deixou de ser uma coisa simplesmente histórica para virar um produto de arte. Eu acho que muito é da intenção. Eu sempre falo que não existe na arte uma receita. Alguns tentam vender a receita, mas o que dá certo para mim não dá certo para o outro. São carreiras muito distintas no mundo da fotografia.

Sim, e a fotografia tem uma assinatura artística muito específica, que varia de fotógrafo para fotógrafo. Por exemplo, prefere fotografias a preto-e-branco…
Eu já fotografei com cor, mas faz um tempo que o meu trabalho é todo preto e branco. Eu acho que a gente vive num mundo de muita confusão de informação. Tudo é colorido. Tudo você enxerga em cores: é um livro, um filme… a vida é colorida, as redes sociais são coloridas.
É tudo até demasiado estimulante, às vezes.
Exactamente. Então, acho que essa é uma das coisas que me faz enxergar a preto-e-branco o tempo inteiro e querer mostrar de uma forma mais simples, para que a pessoa consiga caminhar pelos tons de cinza, entre preto e branco, e ler mais facilmente a fotografia, que às vezes é muito complexa de fazer uma leitura. Às vezes pode ser muito simples; às vezes a pessoa se depara na frente da fotografia e pode ficar um tempo olhando para fazer a leitura do resultado.
E também gosta muito de retratos. Mas o novo livro é diferente…
Sim, este livro tem menos retratos, mas eu amo retratos. Eu sempre gostei de retratos, mas a obsessão pelo retrato veio com a morte da minha mãe. Quando a minha mãe faleceu em 2017, eu me dei conta que ela não tinha um grande retrato feito por mim. E ela nos deixou um retrato que ela tinha de quando ela se formou, que é um retrato incrível, a preto-e-branco. E acho que isso também tem a ver com o preto-e-branco na minha fotografia. Eu tenho certa obsessão pelo retrato, sim. Inclusive eu tenho uma série que são retratos de fotógrafos. Começou por ser de fotógrafos brasileiros, mas eu internacionalizei essa série em 2023, e hoje eu tenho mais de 115 retratos de fotógrafos no mundo. Ao total, não sei se tem quase 700 entradas de fotógrafos… Tudo fotógrafos, pessoas que trabalham com fotografia, curadores, editores, coleccionadores.
E retratos de outras pessoas?
Nossa, muito mais. De pessoas anónimas pelo mundo eu tenho cerca de dois mil. Eu devo ter da Alyssa mais de mil retratos para fazer um livro.
Pensa fazer um livro dedicado à sua companheira?
Penso, penso sempre. Uma das minhas ideias, inclusive, era fazer um livro quando voltasse dessa viagem. Porque um dos motivos dessa viagem é ir para o Japão, ir para o lugar onde ela nasceu. Então, eu quero fotografar lá… Mas eu faço foto dela em todo o lado onde a gente vai. Em todo o lado. Quando eu conheci a Alyssa, ela era modelo. Eu conheci-a fotografando ela, na verdade. E agora que ela foi transicionando a carreira dela, acho que isso está muito nítido nas minhas fotos. As fotos que eu faço dela hoje, embora ela seja super fotogénica, não são fotos de uma modelo. São fotos de uma mulher, de uma companheira. Está muito nítido no meu trabalho.
Dá também para acompanhar a evolução da vossa relação pelas fotografias…
Com certeza. Esse livro, que eu espero lançar em algum momento da vida, é uma declaração de amor.
E aqui em Macau, já encontrou motivos de inspiração? Algo que lhe tenha chamado a atenção?
Sim, já fiz bastantes fotos aqui de ontem para cá. Eu estou encantado com a China, na realidade, em geral. Tenho me encantado por essa coisa dos becos, das vielas. Não imaginava que tinha tanto turista aqui… Você anda numa rua e está lotada de turistas. Anda noutra rua e não tem nenhum turista, nenhuma pessoa. Acho que isso é uma das coisas que mais me chamou a atenção, por enquanto, aqui. Essa relação de uma concentração de turismo num lugar e outro lugar vazio.
E deve ter reparado nos elementos portugueses em Macau, como os nomes das ruas…
Eu reparei nisso, mas eu imaginava que tivesse uma influência maior da língua portuguesa aqui. Ninguém fala. A língua aqui é o cantonês, todo mundo fala cantonês. Mas para mim está tudo certo. Eu acho que quanto menos eu me comunico, melhor é a minha fotografia. Principalmente quando você vai fotografar alguém e a pessoa fica irritada, daí você não consegue comunicar com ela…

E qual é a expectativa para os eventos na Livraria Portuguesa?
Não tenho muita expectativa das coisas. Eu fico sempre muito grato pelas coisas que acontecem. Só que eu venho de um mundo tão distante… Eu sou de uma região do extremo sul do Brasil. Tenho 49 anos e, na época que não tinha Internet, eu pegava um avião e ia até São Paulo. Eram duas horas de voo para estudar, porque não se tinha acesso à cultura. As pessoas da minha família achavam que era tudo muito impossível. Quando eu falava que eu queria um dia publicar um livro, as pessoas diziam que eu era louco. Eu acabei focando muito na minha carreira, abri mão de muita coisa, e estou exactamente no momento da vida de entender que a gente é capaz de conseguir tudo o que a gente quer. Então eu não fico imaginando “vai ter tantas pessoas, vai ser um sucesso”. Porque o sucesso é uma sequência de coisas, não é um lugar cheio de gente. O sucesso está na qualidade e em estar presente: estou aqui, não estou pensando noutra coisa. E eu vou estar ali, falando para o público. Eu trabalho muito para que essas coisas aconteçam, eu escrevo para as pessoas, eu faço um trabalho bem feito, e não tenho uma agência de comunicação que me ajude nisso. A Alyssa é designer especializada em livro de fotografia, então ela faz o design do livro, ela faz os convites, me ajuda no que ela pode. E é isso. Eu acho que o sucesso desses eventos acontece porque eu sou comunicativo, porque eu prestigio as pessoas. Só que aqui não conheço ninguém, não é? Por isso que eu não tenho expectativa. Já dei palestra para 400 pessoas e já dei palestra para duas pessoas. Eu não posso estar sonhando que vai lotar o lugar. Se estiver uma pessoa no lançamento, eu tenho que atender bem essa pessoa. Eu estou feliz demais de estar aqui, de ter sido convidado, de ter sido recebido, de estar aqui sendo entrevistado. Então, é isso. Eu sou feliz pelas coisas que acontecem. O que não acontece, eu não tenho poder ainda sobre isso.












