Rodrigo Leão já passou pelo território com os Sétima Legião e com os Madredeus, bandas de que é co-fundador, além de duas vezes a solo. Desta vez, vai integrar a programação do Festival Literário de Macau e actuar no dia 11 de Março, no Centro Cultural de Macau, com um grupo de vários músicos, para apresentar o último trabalho O Rapaz da Montanha. Em entrevista ao PONTO FINAL, falou sobre a portugalidade que é visível nas suas músicas, o amor pelo cinema e pela música, além da passagem pelo Oriente e o reconhecimento internacional, que o tem levado além-fronteiras.
É a terceira vez a solo, em Macau, mas a quinta vez, no total, se incluirmos os concertos com os Sétima Legião e os Madredeus. Quais são as expectativas para este regresso?
Já fui muitas vezes a Macau. No Oriente, estive no Japão, na Coreia do Norte com os Madredeus e na Coreia do Sul, já com o meu grupo, a solo, duas vezes, de há 15 anos para cá.
Não é comum conseguir actuar-se na Coreia da Norte. Como foi esse concerto?
Estive em Pyongyang e foi das viagens mais incríveis que fizemos com os Madredeus, há quase 40 anos. Quando fui tocar à Coreia do Sul, claro que ninguém acreditava que tinha estado a tocar na Coreia do Norte.
Quais são as impressões que tem do público de Macau?
É, talvez, um público mais espiritual e suponho que haja ainda alguns portugueses. Temos feito este espectáculo [O rapaz da Montanha], essencialmente, em Portugal. Já o apresentámos em Espanha no ano passado, em três ou quatro sítios. Estivemos também na Suíça e em Buenos Aires também, no ano passado. É o concerto que temos estado a fazer, de há um ano para cá. O disco saiu no dia 25 de Abril do ano passado e temos sempre a expectativa de apanhar um público caloroso. Vamos com a banda e somos oito músicos. Toco piano e sintetizadores e também canto em cinco ou seis temas, quase pela primeira vez, mas cantamos todos. Temos o trio de cordas, a Celina da Piedade, que toca acordeão e também canta, o Frederico Assis na bateria, o João Eleutério no baixo e a Ana Vieira na voz. O concerto é muito focado em O Rapaz da Montanha, mas também tocamos temas de outros discos, como Cinema ou Mãe. Tocamos temas antigos. Apesar de usar muitas línguas diferentes nos meus discos, do inglês ao francês ao castelhano, este disco é, essencialmente, em português. Talvez haja um tema que vou tocar, o Pássion, que é em castelhano. Vamos ter, em Macau, um músico chinês [Yueru Zhang] a tocar erhu connosco. É um concerto onde nos divertimos bastante, porque tocamos percussões, adufes e tambores. Cantamos juntos em muitos temas e tem partes mais calmas e outras mais alegres.
O último trabalho, O Rapaz da Montanha, tem esgotado salas de concertos. Estava à espera deste sucesso?
Estamos contentes com a aceitação do público. Já fizemos o Coliseu de Lisboa, o Coliseu do Porto, duas vezes o Centro Cultural de Belém, uma Casa da Música e depois demos concertos em alguns teatros. Apresentámos também em Madrid e mais uns sítios em Espanha e estamos contentes. Não tenho aquela preocupação de que, as coisas ao vivo, sejam exactamente como nos discos, mas, neste trabalho, e, especialmente, estas músicas de O Rapaz da Montanha, estão bastante fiéis às versões do disco. Utilizamos também alguma tecnologia. Há músicas em que lançamos uns ritmos e umas vozes para ajudar a que as nossas próprias vozes soem mais afinadas.
É, actualmente, um dos músicos portugueses com maior projecção internacional. Considerando a dificuldade que muitos têm em passar fronteiras, o que acha que ajuda a consegui-lo?
Tenho tido alguma sorte, ao longo destes anos, em poder gravar as músicas que quero e fazer concertos. Muitas vezes, é sorte ou oportunidade, mas há pessoas que trabalham com os músicos, que são muito importantes, como as agências. Tenho a sorte de trabalhar com o António Cunha, que é um amigo de longa data, há quase 30 anos, e essa parte é muito importante: alguém que envie discos e vídeos de concertos. Agora, acima de tudo, não gosto de criar muita expectativa quando um disco sai e pensar: ai, isto vai ser muito bom e vamos tocar no mundo inteiro. Prefiro pensar quase o contrário. Não há nenhum truque. Um grupo que canta em inglês tem mais concorrência com outros grupos que existem fora de Portugal. Apesar de este disco, em particular, ser todo em português, tenho muita música instrumental e muitas músicas cantadas noutras línguas, mas há alguma portugalidade na música que tenho feito. Há alguma melancolia que existe em Portugal, que não tem necessariamente de ser triste. Pode, até, transmitir esperança ou saudade. Não deixa de haver a ligação a Portugal com a música que tento fazer, também pelas viagens todas que fazemos em Portugal, pelos sítios e pelas pessoas que vamos conhecendo.
Essa portugalidade é intencional?
É inconsciente. Este disco, curiosamente, foi feito a partir de uma música com a minha mulher, a Ana Carolina, que fez grande parte das letras deste trabalho e já tinha feito letras noutros discos. Foi a partir de uma música que se chama Cadeira Preta. No dia seguinte a fazê-la, tive uma ideia muito clara do disco que podia fazer. Na altura, senti logo uma ligação a alguma música que ouvi na minha adolescência, do universo musical em Portugal, de compositores como José Mário Branco, Zeca Afonso, Fausto e Sérgio Godinho — génios! — e, de facto, é uma influência que está presente neste disco. Vê-se ainda na utilização dos coros e nos temas em que cantamos todos juntos, as percussões também são tradicionais portuguesas e o facto de ter convidado o José Peixoto, um músico com quem partilhei, durante dois anos, os palcos dos Madredeus, há muitos anos. Um dos filhos do Jorge Palma, o Francisco [Palma], canta um tema, que se chama Andava Eu. Temos um acordeonista, de quem gosto muito, que é o Carlos Poeiras, que vive em Avis, onde temos uma casa, a dois quilómetros da vila, no meio das oliveiras — onde, aliás, grande parte destas músicas foram compostas. O Gabriel Gomes, com quem toco há mais de 40 anos, nos Sétima Legião, Madredeus e em Os Poetas, também colabora.
Ao longo da carreira, tem produzido também muita música para teatro e cinema. É um ambiente onde navega com algum à-vontade?
Sempre fui um apaixonado pelo cinema, mais até do que pelo teatro. Éramos miúdos e tínhamos 13 ou 14 anos. Na Avenida de Roma, havia o cinema Quarteto, onde íamos às sextas-feiras, ver filmes, da meia-noite às 5h. Andávamos de sala em sala, mas a verdade é que os meus primeiros projectos, os Sétima Legião e depois os Madredeus, também tinham já uma componente de música instrumental, que, de certa forma, era muito cinematográfica. Sempre mostrei que me interessava fazer música para filmes e, se nos primeiros dez anos, praticamente não houve convites, de há uns 15 ou 20 anos para cá, tive oportunidade de fazer música para filmes, como O Mordomo ou a A Gaiola Dourada, e para os documentários da Petra Costa, uma realizadora brasileira. Isso dá-me muito prazer.

O processo de criação é diferente?
É diferente nos primeiros momentos, porque temos uma imagem e um texto, mas depois acaba por ser muito semelhante ao processo normal. Para este disco, sabia o caminho que queria encontrar e o disco acabou por ser composto durante 2024, quando celebrávamos os 50 anos da liberdade que conseguimos em Portugal, mas, em muitos dos outros trabalhos, começo por procurar melodias e harmonias. Não faço a mínima ideia para onde é que vai seguir aquele disco e se há músicas que vão ser cantadas. Muitas vezes, as músicas cantadas, quase todas, começam por ser um esboço de uma música instrumental. Quando começo a trabalhar, mais com o João Eleutério ou o Pedro Oliveira, amigos de longa data, todos participam. O Carlos Tony Gomes toca violoncelo e acaba por ajudar muito nos arranjos para cordas. Há um trabalho de equipa. Vamos para o estúdio gravar ideias, maquetas e experimentar vozes. Isso é muito importante.
Estes trabalhos começam com uma ideia, mas depois o resto é improviso?
Sim… Eu sou autodidacta. Comecei a tocar sozinho com 12/13 anos uma guitarra clássica e depois um sintetizador. Fui aprendendo, a tocar com os amigos. Claro que vais ganhando alguma experiência. Com a ajuda do computador, consigo escrever uma parte de piano, uma parte de violoncelo. É um universo em que consegues construir camadas de instrumentos.
Os dois primeiros projectos, os Sétima Legião e os Madredeus, são registos muito diferentes do Rodrigo Leão, a solo. Qual foi a importância destes, na carreira?
Sem estes projectos, não teria feito estes discos que fiz posteriormente, mesmo quando saí dos Sétima Legião e dos Madredeus. Os Sétima Legião são um grupo de amigos, da infância, do Bairro das Estacas [Alvalade], na altura, e estávamos a viver aquele início dos anos 80. Ouvíamos muito grupos como New Order, Echo and the Bunnymen, Joy Division, mas misturávamos isso com algumas percussões tradicionais, como a gaita de foles. Havia também esse lado mais cinematográfico e instrumental. Madredeus foi um projecto que eu e o Pedro Ayres Magalhães começámos. O Pedro tocava nos Heróis do Mar e eu nos Sétima Legião. Queríamos que fosse diferente dos projectos em que tocávamos na altura, mais acústico, sem bateria nem guitarradas eléctricas. Foi uma surpresa muito grande o êxito que o grupo teve depois, uns anos mais tarde. Quando saiu o nosso primeiro disco, estávamos em 1987, e os Madredeus dão um salto muito grande. Esse projecto era mais português do que os Sétima Legião. Sem ser fado, com as letras do Pedro Ayres e com a direcção que ele fazia, foi uma aprendizagem muito grande para fazer coisas que não cabiam nem num projecto nem noutro. Assim comecei a fazer as minhas músicas.
Entretanto, os Sétima Legião voltaram a dar concertos. Porquê a paragem e depois o regresso aos palcos?
Estivemos um período sem tocar, mas celebrámos os 30 anos há 14 anos e fizemos nove ou dez concertos. Depois, parámos. Infelizmente, o Ricardo Camacho morreu e nós assinalámos os 40 anos na Culturgest, com dois concertos dedicados a ele. Houve aí um clique qualquer, que fez com que quiséssemos continuar. Nestes últimos três anos — vamos agora entrar no quarto ano — temos feito sete, oito ou nove concertos por ano. Temos muitas ideias, os concertos têm corrido muito bem e somos muito amigos há muitos anos. Estamos até a pensar na hipótese de gravar um disco novo.
Actuou em Macau em diferentes décadas. Nota uma grande diferença no território, do primeiro concerto ao último?
Sim, da última vez que fui lá, já havia aqueles casinos com sete andares. mas há aquele clima que gosto. Aquela humidade, aquele cheiro da comida nas ruas. Macau tem um lado encantador. Lembro-me de uma rua com alguns alfaiates com uns fatos que eu gostava. Lembro-me de ter comprado lá um fato para os concertos. A última vez que lá estive foi há uns 14 anos, e estará, com certeza, mais diferente, mas estou entusiasmado.












