Edição do dia

Segunda-feira, 8 de Junho, 2026
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
chuva fraca
28.7 ° C
28.7 °
28.7 °
78 %
6.2kmh
34 %
Seg
29 °
Ter
25 °
Qua
25 °
Qui
26 °
Sex
29 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioEntrevista“Macau, para um ocidental, tem sempre um aspecto de surreal”

      “Macau, para um ocidental, tem sempre um aspecto de surreal”

      A premissa de “O desfufador” é cómico-absurda: há uma epidemia de lesbianismo e existe uma personagem principal, que vem combatê-la. À conversa com o PONTO FINAL, o escritor Valério Romão, que tantas vezes tem vindo ao território, fala sobre o seu mais recente livro. Entre comentários sobre a ideia, o tom cómico que teve de engendrar e as várias personagens que povoam este universo surreal, falou-se também sobre Macau e a sua inclusão num dos capítulos.

      É uma história que parte de uma epidemia de lesbianismo. Como surgiu a ideia?

      Uma vez li um artigo sobre uma epidemia de dança, em Estrasburgo, em 1518, e fiquei fascinado com a ideia de poder haver epidemias de comportamento ou de personalidade, e não propriamente virais ou bacteriológicas ou com qualquer tipo de agente patogénico envolvido. Pensei: para levar isto ao absurdo, era uma epidemia de lésbicas.

      Como, a partir desta ideia principal da pandemia, se evolui para estas personagens e enredo cómico-surreal?

      Começou por ser esta ideia e depois tentar arranjar um tom para escrever isto, porque era bastante diferente o tom cómico. Estava habituado, ou achava que já estava mais ou menos praguejado no tom do absurdo, mas o cómico era novidade. Foi arranjar um tom para isto e depois tentar perceber que personagens é que existiam. A partir daí, comecei a empolgar-me e isto devia ser só um livro e, afinal, acabam por ser dois. Um é uma espécie de ‘origin story’ (como se diria na Marvel) — donde vêm as personagens, como ganharam o seu poder ou o que quer que isso seja — e outro que começa quando a epidemia está em curso.

      Quando estará pronto esse segundo livro?

      Idealmente, deveria ser lançado no próximo ano, mas depende. É multifactorial. Depende de muitas coisas, a mais importante das quais é o dinheiro. Isto é uma coisa que leva tempo a fazer.

       

      Mas a escrita já começou?

      Ainda não, estou a descansar deste primeiro.

      O tema e o título escolhidos são algo polémicos e, provavelmente, dão azo a alguns comentários. O que se responde às críticas menos positivos, que possam existir?

      Quando publicas um livro com um título assim, é também uma provocação, mas não é só isso. O que posso dizer às pessoas que têm algum tipo de sensibilidade ao título? Até agora, não me foi posta essa questão, infelizmente. Não sei o que tenho de fazer mais para ser cancelado [ironia], mas obviamente não chegou. As pessoas que não querem ler, não lêem.

      Como se desconstrói essa ideia pré-feita, que as pessoas podem ter, só por ver o título? Basta ler?

      É um bocado isso. Quando vês um título como “Salò ou os 120 dias de Sodoma”, também não é propriamente a coisa mais neutra do mundo. Há muito mais tempo, “As Flores do mal” [de Charles Baudelaire], só pelo título, as pessoas talvez não ficassem tranquilizadas quanto ao conteúdo. A verdade é que, independentemente do valor artístico que possa ter — e isso não hei de ser eu, nem os nossos contemporâneos a ajuizar definitivamente o seu valor, o tempo o fará — se estás num ofício que é a escrita e tens medo do que os outros vão pensar, mais vale não estares. Não dá para agradar a toda a gente.

      O próprio acto da escrita já é uma exposição grande?

      Já é uma exposição grande, porque há a crítica — há pessoas que vão dizer mal, há pessoas que vão pegar por tudo e por mais alguma coisa. Se formos pelo lado do cuidado, não estamos a fazer grande serviço à literatura.

      Voltando ao tom cómico, foi difícil encontrar esse registo?

      Foi muito difícil ao início e tive várias falsas partidas. Mandei muitos documentos para a reciclagem, mas depois, quando o encontrei, foi mais trabalhoso do que difícil, porque aí já sabia o que queria.

      Estas personagens bastante surreais do livro são inspiradas em pessoas reais?

      O Alex fui roubá-lo ao Alface [João Alfacinha da Silva] ao livro “Cá vai Lisboa”, que tem um Alex, que é anão, e que tem várias parecenças com esta personagem. Isso foi claramente roubado ao Alface. De resto, foi mais ou menos inventado, pilhando aqui e ali elementos que eram meus ou de pessoas à minha volta, porque fica mais fácil não inventar tudo e fica mais realista.

      Há um capítulo dedicado a Macau. Como é que o território entra aqui nesta história?

      Não diria para homenagear, porque é bastante curto para ser homenagem, mas, por ir lá tantas vezes, e fazendo, de certa forma, parte da minha vida, e sendo um corpo estranho no imaginário dos portugueses que não foram lá ou que não conhecem, dar uma pequena perspectiva, de quem pudesse ir lá, como a Catarina, a personagem que está em Macau, pela primeira vez, e fazer uma descrição, mais ou menos humorística, ou de um ponto de vista muito distanciado, do que são as ruas, as pessoas, os costumes.

      Macau, considerando o espírito do livro, absurdo-cómico, enquadra-se nesta linha de acção?

      Sim. A Catarina acaba também por passar por Paris e escrever coisas quando está em Paris e o tom é muito mais normal e normalizado. Macau e, sobretudo, grande parte da Ásia e do Sudeste Asiático, para um ocidental, tem sempre um aspecto de absurdo ou surreal, por via da diferença cultural e dos costumes. No caso, quando metes um território chinês e acrescentas a camada dos casinos e do jogo, então fica ainda mais surreal.

      Dos comentários que se têm ouvido das pessoas que têm lido, há alguns que se destacam?

      Fico contente por não estar a ser um bicho de sete cabeças. Com esse título e essa premissa, as pessoas vão para a leitura com menos reservas do que pensava e acabam por, pelo que tenho ouvido, gostar bastante e fico contente com isso. Por outro lado, fico triste, porque também gostava de ter algum ‘hate mail’ ou algumas coisas mais ou menos desavergonhadas, nas mensagens das redes sociais ou do email, mas não tem acontecido. O segundo vai ser mais a abrir.

      Neste, contextualiza-se o leitor. No segundo, o que podemos esperar?

      É um massacre. No segundo, a epidemia de lésbicas concretiza-se e depois é lidar com isso tudo, mais a ideia do desfufador, que é aquela personagem que, só de aparecer, é capaz de reorientar sexualmente qualquer mulher, qualquer que ela seja. Vai ser bastante mais polémico. O primeiro introduz a polémica de pantufas, pelo título e pelo tema, e o segundo entra em BDSM completo.

      Quanto tempo levou a concluir este primeiro livro? Foi escrito à noite, durante o dia?

      Durante o dia, porque já não tenho idade para escrever à noite. É coisa para se fazer, após se alinhavar a estrutura, em talvez uns oito meses.