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      InícioEntrevista “Uma grande lufada de ar fresco”

       “Uma grande lufada de ar fresco”

       

      O 25 de Abril chegou a Macau em pequenas doses, mas não deixou de mudar a sociedade local. Em entrevista ao PONTO FINAL, Jorge Neto Valente recorda as lutas académicas que antecederam a Revolução dos Cravos, o cumprimento do serviço militar e os momentos mais marcantes do processo político de Macau nos meses pós-25 de Abril. Garcia Leandro e Almeida Costa, diz, foram os grandes responsáveis pela modernização de Macau.

       

      No final dos anos 60, Jorge Neto Valente tirou a carta de condução de veículos pesados, um documento de que nunca chegou a fazer uso, mas que continua a guardar no seu arquivo de papéis pessoais. A decisão, um tanto estranha para quem acabara de concluir o curso de Direito, justificava-se no contexto político da época. Opositor do regime do Estado Novo e da guerra colonial, Neto Valente estava na iminência de ser chamado a combater em África e, à semelhança de muitos outros jovens nessa situação, não punha de parte a hipótese de deixar o país, clandestinamente, se necessário fosse. Nesse caso, o curso de Direito português não teria qualquer valor no mercado de emprego de França ou de qualquer outro país europeu para onde fosse viver, como emigrante ou exilado político. A carta de veículos pesados, ao contrário, permitir-lhe-ia encontrar trabalho na florescente indústria de transporte de mercadorias.

      Neto Valente tinha estado preso, no Aljube e em Caxias, por envolvimento nas lutas estudantis contra a ditadura de Salazar. Detido pela polícia política a 21 de Janeiro de 1965, juntamente com Fernando Rosas, Crisóstomo Teixeira, Mário Lino, Fernando Baeta Neves, Alfredo Caldeira e outros dirigentes do movimento académico, foi condenado a 18 meses de prisão, com pena suspensa. À data do julgamento, tinha já cumprido 8 meses de prisão preventiva, em dois dos mais sinistros estabelecimentos prisionais do regime. “O Aljube fechou quando lá estava”, recorda, em entrevista ao PONTO FINAL. “Eram celas individuais, execráveis, onde o isolamento fazia enlouquecer os presos. Aquilo era como curros para animais. As condições eram tão desumanas que a visita de um Lorde Russell que veio de Inglaterra para inspeccionar a situação nas cadeias portuguesas, levou ao seu imediato encerramento, devido ao clamor internacional que se seguiu à apresentação do seu relatório. Fui depois estrear a ala norte da prisão de Caxias”.

      O cadastro político, com ficha na PIDE (a Polícia Internacional de Defesa do Estado), acompanhou-o até à Revolução do 25 de Abril, embora sem as piores das consequências. Chamado a cumprir o serviço militar obrigatório, fez a primeira parte do curso de oficiais milicianos em Mafra, ingressando depois na Escola Prática de Cavalaria, em Santarém, onde o comandante o avisou à chegada que estava a par do seu passado político: “Veio uma informação da PIDE a dizer que você é um tipo desafecto ao regime e, portanto, para termos cuidado consigo, disse-me ele. Mas também me disse que não queria saber disso, desde que eu não criasse problemas no quartel. Era o Coronel Banazol. Fiquei com uma enorme consideração por ele”.

       

      Situação semelhante viveu no Regimento de Cavalaria 8, em Castelo Branco, onde foi colocado depois de terminar o curso de cadetes. Também aí o comandante, dirigente do partido da União Nacional, lhe garantiu que seria bem tratado se não levantasse problemas. Mas é então que um invulgar número de baixas na guerra colonial, em particular na Guiné, faz o governo reforçar a mobilização para África, levantando o espectro da sua transferência para um dos teatros de guerra. Neto Valente oferece-se então para servir em Macau, Cabo Verde e Timor, por esta ordem, acabando por ser enviado para Macau, para aqui cumprir uma comissão de serviço de 4 anos. Em pouco tempo, substitui a farda pela toga e põe de lado a carta de pesados, para sempre.

       

      MACAU NOS ANOS 70:

      “NÃO HAVIA UM CLIMA OPRESSIVO”

       

      Neto Valente desembarcou em Macau no dia 5 de Outubro de 1970. E veio aqui encontrar uma situação política bem diferente da existente em Portugal. “Pode causar alguma estranheza que eu diga isto, mas não se sentia aqui a opressão política que se sentia em Portugal. Não se sentia um clima opressivo. Mas também não é verdade que em Macau não houvesse PIDE”, afirma, contrariando uma ideia tantas vezes repetida que tem sido tomada como facto indiscutível. “Havia PIDE, representada pela secção de Informações da PSP, chefiada pelo lendário comandante de secção Sebastião Voltaire Pinto de Morais, e era uma representação formal: os passaportes especiais eram emitidos pela PIDE e levavam o seu carimbo. Se não havia perseguição política em Macau, era porque não existia abertamente qualquer actividade política contra o regime”.

      Em Macau, ao contrário do que acontecera nas unidades militares por onde passara antes,

      a ficha na PIDE de Neto Valente jamais foi invocada, uma situação reveladora da menor opressão que aqui se sentia, diz. “Acabei por dar assistência jurídica ao Sebastião Voltaire de Morais em situações de rivalidade que havia entre agentes da PSP e da Polícia Judiciária, algo que, aliás, só se resolveu quando as duas instituições ficaram sob a tutela dos Serviços de Polícia Unitários, já depois da transferência de administração para a China. Em todos os contactos que mantive com ele, jamais mencionou que eu tivesse cadastro na PIDE, embora estivesse seguramente informado sobre isso”.

      Neto Valente ilustra, com um caso ocorrido nas eleições para a Assembleia Nacional, o tipo de situações em que o regime fazia sentir a sua natureza anti-democrática: “Havia eleições com a União Nacional como lista única e o comandante militar, Mesquita Borges, telefonou-me a mandar que os soldados do meu esquadrão, baseado na Flora, fossem colocados em camionetas e levados a votar. Recusei-me a fazê-lo e fui ameaçado com um processo disciplinar. Insisti que me limitaria a lembrar aos soldados que havia eleições, sem, no entanto, os obrigar a votar. O comandante militar acabou por desistir do processo. As eleições estavam sempre ganhas, mas eles queriam que houvesse mais gente a votar no candidato da União Nacional, para que a sua eleição parecesse mais legítima”.

      Os encontros entre críticos do regime de Salazar, como Damião Rodrigues e Fernando Batalha da Silva, entre outros, realizavam-se invariavelmente no Café Solmar, onde as discussões eram mantidas com a necessária discrição. Mas “a maioria da comunidade macaense era ultra-conservadora e estava muito ligada ao regime”, recorda. “Em boa parte dos casos, a oposição entre as duas partes resultava sobretudo de inimizades pessoais, mais do que de divergências políticas. Depois, havia uma gente mais nova, recém-chegada, como eu, que era contra a ditadura. Mas era um grupo com pouca expressão e ninguém andava abertamente a criticar o regime”.

      Até que no dia 25 de Abril de 1974, uma quinta-feira, o regime caiu em Lisboa, por acção do Movimento das Forças Armadas. Nesta entrevista ao PONTO FINAL, Neto Valente relembra esse dia histórico e o que mudou em Macau nos meses que se seguiram.

       

      PONTO FINAL – Como teve conhecimento da Revolução em Portugal?

       

      Jorge Neto Valente – Eu estava na Conservatória do Registo Predial, num edifício que havia entre a Sidónio Pais e a Rua do Campo, a tratar de questões profissionais, num dia que até aí tinha corrido com toda a normalidade. Eram aí umas 4 da tarde quando um dos funcionários da Conservatória, que estava com um transístor colocado à orelha, me disse ter ouvido, por uma rádio de Hong Kong, que tinha havido um golpe em Portugal. A minha primeira reacção foi pensar que podia tratar-se de uma acção da extrema-direita. Não havia aqui qualquer conhecimento da existência do Movimento dos Capitães, e depois (da fracassa tentativa de derrube do regime) do Golpe das Caldas, o mais provável era que fosse uma reacção da extrema-direita. Sabia-se aqui das posições de força assumidas pela chamada Brigada do Reumático e de como o regime parecia estar coeso em torno do Presidente do Conselho, Marcello Caetano. Fui para casa e fiquei à espera de ver o que dizia a televisão de Hong Kong, que nessa altura era ainda a preto e branco (Macau só teve a sua própria televisão 10 anos depois). A notícia sobre Portugal era muito curta e não permitia que se percebesse grande coisa sobre o que se estava a passar.

       

      – Quem tenha esperado pelos jornais de Macau do dia seguinte para se informar também terá ficado desiludido. A Gazeta Macaense e o Notícias de Macau não faziam qualquer referência à situação em Portugal.

      JNV – Isso não surpreendeu ninguém. Não nos podemos esquecer que nessa altura os jornais tinham de passar pela censura (os jornais portugueses, porque os chineses tinham deixado de fazê-lo desde o 1-2-3, durante a Revolução Cultural). Mas o facto de não haver notícias sobre Portugal fez-nos pensar que provavelmente o golpe teria sido contra o regime; se fosse a favor, as notícias provavelmente teriam sido logo publicadas. É claro que nessa altura algumas pessoas tinham já conseguido telefonar para Portugal a informar-se do que estava a acontecer. Mas não eram muitas. Nem toda a gente tinha telefone em Macau (ficava-se, por vezes, anos em lista de espera) e as chamadas para Portugal demoravam várias horas até que se conseguisse estabelecer a ligação. E aí começa a sentir-se alguma inquietação, porque se estava a perceber que a evolução dos acontecimentos não agradava ao governo e, como disse, a maioria da comunidade macaense era muito conservadora. Já quanto aos chineses, não se notava a mínima reacção. Naquela altura, as duas comunidades viviam lado a lado, mas de forma muito estanque.

       

      – Logo nesse dia seguinte, 26 de Abril, o líder da comunidade chinesa, Ho Yin, deu uma entrevista aos jornais chineses de Macau garantindo que a situação política não iria conhecer mudanças significativas, alegando que havia uma grande distância política entre Lisboa e Macau e lembrando que o poder económico estava nas mãos da comunidade chinesa. Qual foi o impacto dessa entrevista? Ajudou a combater a inquietação a que se referiu?

       

      JNV – Não me parece que tenha tido grande repercussão na comunidade portuguesa. Na imprensa portuguesa não teve de certeza. Se alguma repercussão houve foi em conversas informais, sem que as pessoas se tivessem necessariamente apercebido do seu significado. Não havia a noção de que o Sr. Ho Yin fosse uma pessoa politicamente muito estruturada. Provavelmente, pensou-se na altura que estava a dizer aquilo por conta própria, apenas para acalmar a população. Mas também é possível que essas declarações tenham sido coordenadas com o Governador Nobre de Carvalho, que entretanto já sabia que iria ser mantido em funções. O Governador foi depois à Assembleia, no dia 29, dizer que ‘Macau continuará a ser Macau, a despeito de tudo e de todos’. Também aí a ideia terá sido sossegar a população em relação ao futuro de Macau.

       

      – No dia seguinte, numa reunião no restaurante Fat Siu Lau, está entre os fundadores do Centro Democrático de Macau.

      JNV – Sim. Juntámo-nos no salão do restaurante, um grupo muito heterogéneo, com militares milicianos e alguns militares de carreira, poucos, vários funcionários públicos, pessoas que tinham vindo de outras colónias, e alguns profissionais liberais, como eu e o Arquitecto José Maneiras.

      – Dessa reunião sai como dirigente do CDM Vivaldo da Rosa, uma figura que é hoje muito pouco conhecida.

      JNV – O Dr. Vivaldo da Rosa era um médico que tinha mais cultura política do que os demais participantes. Dizia pertencer ao Partido Comunista, com o cartão de militante nº 14. Mas só o tornou público depois do 25 de Abril. Antes, ninguém deu por ele como opositor do regime. Era sobretudo um teórico. Julgo que ninguém o terá levado muito a sério.

      O CDM surgiu como um movimento independente, sem ligações ao PS, ao PSD ou ao PCP. O protocolo de cooperação que mais tarde se assinou com o Partido Socialista foi só em 1980, aquando de uma passagem de Mário Soares por Macau. Quando o fundámos, não havia lei sobre a constituição de associações políticas em Macau.  Por isso, não houve papel nenhum que o oficializasse. Era uma amálgama de gente muito diversa, com formações muito distintas e com alguns arrivistas pelo meio, que nem eram tão poucos quanto isso. Tal como em Portugal, também aqui houve muita gente a virar a casaca: pessoas que sempre tinham sido do regime e que, subitamente, diziam ser do 25 de Abril.

       

      – Nessa primeira fase, era intenção do Centro Democrático de Macau trazer para o território as mudanças políticas que entretanto se tinham operado em Portugal. Nomeadamente, o CDM fazia a defesa da realização de eleições por sufrágio directo e universal.

      JNV – Sim. Mas o CDM era, sobretudo, um movimento de pessoas que não eram naturais de Macau. As famílias locais, que tinham poder e influência, não gostaram nada de ouvir falar de democracia, porque receavam perder esse poder. Os seus apoiantes, que eram muitos mais, começaram a agrupar-se e à procura de um líder, que acabou por ser naturalmente o Dr. Carlos d’Assumpção, com quem sempre dialoguei, apesar das divergências que havia entre nós.

      A luta política começou então a criar clivagens grandes na sociedade local e recordo que numa reunião convocada para o teatro D. Pedro V, logo a 8 de Maio, o chefe de gabinete do Governador, Lages Ribeiro, fez um apelo a que se pusessem de parte os insultos e se debatessem ideias em encontros como aquele, que serviriam de tribuna para que todos pudessem, civilizadamente, expor as suas ideias. Fiquei com uma grande admiração por ele. E anos mais tarde, quando decidi lançar um jornal, foi nesse discurso que me inspirei para lhe chamar Tribuna de Macau.

       

      – Em Junho, há uma rebelião militar, contra as condições de vida e a lentidão de reformas políticas em Macau, que coincide com a chegada a Macau de uma delegação da Junta de Salvação Nacional. O caso termina com a demissão do Comandante Militar. Pode daí concluir-se que a reacção contra as forças mais conservadoras se deu primeiro em Macau do que em Portugal, e que de alguma forma o 11 de Setembro chegou primeiro a Macau?

      JNV – Nada mudou verdadeiramente nessa altura. A Administração Pública estava anquilosada e assim se manteve, sem que as pessoas tivessem qualquer poder para mudar a forma como as coisas estavam estruturadas. Para haver mudança, era preciso mudar o Governador. Mas isso não interessava aos poderes instalados. Ho Yin, através de Roque Choi, apressou-se a reunir assinaturas numa petição pública de apoio ao Governador Nobre de Carvalho. O major Garcia Leandro seguiu para Timor, para estudar a situação naquela colónia. Ele já lá tinha estado e dizia-se que seria o futuro Governador de Timor. O major Rebelo Gonçalves, que era casado com uma senhora de Macau, ficou cá e foi ele que demitiu o Comandante Militar antes de regressar a Portugal. Achava-se, na altura, que seria ele a substituir o Governador Nobre de Carvalho quando o momento chegasse. Mas, ao regressar a Portugal, assustou a Junta de Salvação Nacional, presidida pelo General Spínola, ao apresentar um relatório em que defendia que era preciso mudar tudo em Macau. Terá sido aí que deixou de ser candidato a Governador de Macau.

      Meses depois, vem a Macau o Dr. Almeida Santos, que era na altura o ministro da Coordenação Interterritorial. As pequenas histórias jogam às vezes um papel importante na História dos países e das suas instituições. O Almeida Santos era amigo do Carlos Assumpção, dos tempos da Faculdade de Direito, em Coimbra. E deixou-se influenciar por ele nessa visita. Pediu calma às pessoas que reclamavam a substituição do Governador, dizendo que fazia cá falta. Perante a pressão acabou por fazer saber que o Governador seria substituído, mas só depois de inaugurada a Ponte Macau-Taipa (cujas obras tinha lançado e que seria, justamente, baptizada Ponte Nobre de Carvalho). Ou seja, Nobre de Carvalho acabou por sair só em Outubro de 74, e é com o novo Governador, Garcia Leandro, que as coisas começam finalmente a mudar. Mas, ainda assim, pouco.

       

      – É um período de grandes incertezas e de muitos rumores. Por mais de uma vez se especulou que Portugal estaria a tentar entregar Macau à China e que as mudanças poderiam passar pela nacionalização de sectores da economia de Macau.

      JNV – O rumor da entrega de Macau à China foi espalhado por gente da ADIM (Associação para a Defesa dos Interesses de Macau) e eu fui muito prejudicado por isso, porque alguém se lembrou de meter em rodapé no livro do General Spínola que eu faria parte de um grupo de pessoas que teriam tentado entregar Macau, o que era absolutamente falso. Eu conhecia relativamente bem o General Spínola, que era amigo do meu pai, e cortei na altura relações com ele. Nunca me disseram quem teria sido a fonte dessa mentira. Mas sei que partiu de Macau e tenho as minhas suspeitas de quem possa ter sido.

       

      – Esse rumor chegou mesmo às páginas do New York Times e obrigou o Governador a fazer um desmentido formal.

      JNV – Sim, teve uma atitude impecável. Tomou mesmo a iniciativa de escrever ao General Spínola a desmentir esses rumores. Fiquei com uma grande estima por ele, também por isso. A verdade é que a ADIM estava sempre a procurar assustar a comunidade chinesa, dizendo que o governo de Macau estava infiltrado por comunistas pró-União Soviética, para que nada mudasse. Terá sido também essa a fonte dos rumores de que iria haver nacionalizações. E eu pergunto: o que é que havia para nacionalizar? Nada de muito importante. O que eu admito é que esses rumores sobre nacionalizações, nomeadamente do sector do jogo, pudessem ter interessado ao Governador Garcia Leandro, pois terão ajudado à revisão do contrato do jogo, com um aumento muito significativo das contrapartidas oferecidas pela STDM e até com o regresso à faculdade por parte do governo de fiscalização das contas da operadora dos casinos, que tinha sido antes abandonada. O Stanley Ho terá preferido não correr riscos e aceitou essas imposições.

       

      – Macau, a par de Hong Kong, foi durante muitos anos usada pela União Soviética para criticar a República Popular da China, acusando-a de pactuar com regimes imperialistas e colonialistas. E essa pressão manteve-se nos meses que se seguiram ao 25 de Abril, a ponto de o Governador Garcia Leandro admitir que a China tinha legítimas preocupações sobre uma eventual infiltração do PC na Administração de Macau, que poderiam estar na origem da lentidão das negociações entre Lisboa e Pequim para o restabelecimento de relações diplomáticas.

      JNV – Eu duvido que a União Soviética pudesse influenciar de forma significativa o que se passava em Macau. Mas admito que a China tenha ficado preocupada com os governos mais próximos do PC, como o governo de Vasco Gonçalves, sem suspeitar que iriam durar pouco tempo. Nessa altura em que o PC estava ainda a avançar politicamente em Portugal, o Governador Garcia Leandro teve uma jogada política de grande visão: na redacção do Estatuto Orgânico de Macau, em cujas reuniões de comissão participei, optou por colocar a Administração de Macau sob a tutela da Presidência da República e não do Governo de Lisboa, mesmo sabendo-se que era com este que teriam de ser discutidas as grandes e as pequenas questões da governação. A ideia era que os governos seriam sempre mais voláteis, enquanto a Presidência da República dava garantias de maior estabilidade. Isso teve em vista responder às preocupações que a China pudesse ter sobre a influência em Macau do PC, que era descrito como um partido revisionista.

       

      – Tal como em Junho de 74, também em Junho de 75 Macau se terá antecipado, na evolução do processo político, ao que se passava em Portugal. Na sequência de um escândalo ocorrido aquando da Cimeira de Timor, o representante do MFA, Comandante Catarino Salgado, foi expulso de Macau, o mesmo acontecendo com outros oficiais da marinha sob o seu comando. O 25 de Novembro chegou cá mais cedo?

      JNV – O que aconteceu foi uma cena muito triste. Os representantes do governo português na cimeira foram fotografados a dançar num clube nocturno, o Mermaid, no Hotel Lisboa, que tinha características muito degradantes. Aquele clube nocturno era uma coisa horrível, ao nível do distrito da prostituição em Bruxelas. Fiquei escandalizado com a maneira como os delegados vindos de Lisboa se comportaram.

       

      – As fotografias que foram tiradas por oficiais sob o comando de Catarino Salgado, depois confiscadas, destinavam-se, especulou-se na altura, a exercer chantagem sobre os delegados portugueses, Vítor Aves e Jorge Campinos.

      JNV – Não julgo que fosse isso que estivesse em causa. Provavelmente seriam para ser publicadas, e talvez isso fizesse sentido acontecer, porque a cena foi de facto muito triste. Mas não me parece que nada disse justificasse a expulsão do Comandante Catarino Salgado. Creio que esse episódio foi usado como pretexto para afastá-lo de Macau, por quem já há algum tempo andava a envenenar o Governador, inventando falsas conspirações políticas contra ele. O Comandante Catarino Salgado era um homem de princípios e não merecia ter sido expulso como foi, sem ter sequer tempo para fazer as malas. Quando me apercebi do que se estava a passar, tive de ir a correr para o cais para me despedir dele. Era uma pessoa por quem tinha muita estima. Depois de afastado, nunca se pronunciou sobre o que se passara. Manteve-se em silêncio, com grande dignidade. Uns anos mais tarde procurei-o. Infelizmente, tinha morrido pouco tempo antes.

       

      – Essa expulsão de Macau, a forma como esse incidente foi gerido, levou a que Garcia Leandro fosse acusado de autoritarismo, como já antes tinha acontecido com Nobre de Carvalho e como aconteceria com alguns dos seus sucessores. Vê esse caso como uma mancha na sua actuação em Macau?

       

      JNV – Sim, tenho de dizer que sim. Mas também tenho de reconhecer que na altura Garcia Leandro estava muito sozinho, e que não faltava quem inventasse conspirações políticas para que algumas pessoas fossem afastadas de Macau. Nunca cheguei a falar sobre esse caso com o General Garcia Leandro. Talvez um dia o faça.

       

      – Cinquenta anos depois, como vê o impacto que o 25 de Abril teve em Macau?

      JNV – Apesar de tudo, houve muita coisa que mudou, felizmente. Mudou em pequenas doses, mas mudou. Acabou a censura, desde logo. Houve um arejamento político da sociedade. Modernizou-se a Administração. O Governador Garcia Leandro teve uma acção muito importante nesse aspecto. Não tendo grande orçamento, promoveu a vinda para Macau de militares milicianos que fossem, simultaneamente, bons técnicos em diferentes áreas. E promoveu também o regresso de jovens macaenses que viriam a ser muito úteis à modernização de Macau e da sua Administração, como Jorge Rangel, Alfredo e Anabela Ritchie, Ana Perez, entre muitos outros. Fez uma espécie de caça aos talentos, como hoje se diz. E tudo isso representou uma grande lufada de ar fresco.

      Essa política foi depois seguida pelo Governador Almeida e Costa, que terá tido um papel ainda mais importante na modernização de Macau. Era um homem autoritário, mas inteligente. E tinha uma visão de modernização para Macau. Ao dizer isto, tenho consciência de que alguém poderá acusar-me de ter virado a casaca. Mas não, estou apenas a ser objectivo.

       

      – Apesar do autoritarismo de que foi acusado, deu também sinais de abertura política, ao encorajar uma maior participação da comunidade chinesa.

       

      JNV – Ele dissolveu a Assembleia e eu fui um dos afectados. Mas não cortei relações com o Governador Almeida e Costa por causa de questões políticas. Fi-lo por ser uma pessoa intratável. Reconheço, no entanto, que conseguiu que em vez de 4 mil pessoas, passassem a ser 60 mil a votar, ainda que para isso tenha recorrido a um expediente um pouco desonesto ao pôr a correr o rumor de que só teria direito a passaporte português quem estivesse inscrito no recenseamento eleitoral. E também não o fez por amor à democracia e à liberdade. Fê-lo, sobretudo, para destruir a influência da comunidade macaense, nomeadamente procurando virar Ho Yin contra Carlos Assumpção, o que o desaconselhei a fazer, sem resultado. E acabou por perder essa guerra, porque Ho Yin sabia que Assumpção se manteria por cá, enquanto o Governador seria substituído mais cedo ou mais tarde.

      Mas, como disse, não faltaram méritos à sua governação. Deu um golpe muito importante na pequena corrupção, revolucionou as finanças públicas e modernizou Macau em muitas áreas. Isso tem de ser reconhecido.

       

      – Sobre a sua acção política, o que teria mudado?

      JNV – Talvez não tivesse mudado grande coisa. Eventualmente teria sido, num caso ou noutro, mais interventivo. Nunca estive filiado num partido político, embora muita gente pense que eu seja militante do PS, porque apoiei muitas medidas do PS. Sempre tive a preocupação de colocar a minha actividade profissional como advogado acima da minha participação política, pois sempre foi a actividade profissional que me deu garantias de independência financeira, e portanto também política. Em conclusão, embora tenha consciência de que provavelmente podia ter feito melhor muitas coisas, não me arrependo em quase nada de fundamental em que tenha sido chamado a participar.