Zhejiang: a província que escreve o futuro sem esquecer o passado

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Uma delegação de jornalistas de língua portuguesa e inglesa oriunda de Macau – e da qual o PONTO FINAL fez parte – participou numa visita a três cidades em Zhejiang, região que combina património histórico com inovação tecnológica.

 

No início do mês, uma delegação de jornalistas de língua portuguesa e inglesa participou numa visita à província de Zhejiang, organizada pelo Comissariado do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Macau. Ao longo de quatro dias, os representantes da imprensa da RAEM foram convidados a visitar Wuzhen, Huzhou e a capital Hangzhou, conhecendo de perto alguns dos pontos incontornáveis da região costeira chinesa onde a tradição e o futurismo caminham em paralelo.

Zhejiang é uma terra de contrastes – e de desenvolvimento contínuo. São aqui produzidos em abundância seda, chá e porcelana (mais do que produtos, símbolos culturais chineses), geridas algumas das mais inovadoras empresas a nível mundial e implementadas medidas de protecção ecológica que, em 2018, mereceram o prémio ambiental máximo da Organização das Nações Unidas (ONU), “Campeões da Terra”. São estas contradições que definem Zhejiang: industrial, porém ecológica; tradicional, mas de olhos bem assentes no futuro.

O primeiro ponto no itinerário foi a Conferência Mundial da Internet, na pequena cidade histórica de Wuzhen. A arquitectura exterior, com os típicos telhados de beirais curvados e tijolos negros dispostos num padrão ondulado, torna difícil adivinhar o que se realiza no interior: um dos maiores eventos mundiais no que respeita a tópicos prementes como economia digital, cibersegurança e inteligência artificial.

Desde 2014 que o espaço alberga anualmente milhares de representantes de centenas de países e regiões, numa plataforma de diálogo sem fronteiras sobre as inovações, os riscos e o futuro de uma rede cibernética cada vez mais globalizada. A localização é intencional na sua dicotomia: enquanto a área circundante remonta à Dinastia Tang e inspira escritores e pintores há quase dois mil anos, o amanhã discute-se dentro dos vários pavilhões que compõem a cimeira.

A delegação de jornalistas terminou o dia – o primeiro da viagem – na zona cénica a oeste de Wuzhen, onde o tempo parece ter cristalizado em ruas estreitas de madeira entalhada, canais navegáveis e lanternas cálidas que se acendem ao pôr do sol. Até as turistas contribuem para a encenação do século VII, adornando os cabelos com joias e penteados rebuscados que condizem com os trajes tradicionais chineses disponíveis para aluguer em várias lojas turísticas na zona. Só os ‘QR codes’ e os métodos de pagamento quase exclusivamente electrónicos desmoronam a ilusão e lembram que Wuzhen, apesar de encapsular a magia de tempos idos, é uma cidade chinesa plenamente assente no século XXI.

CERIMÓNIAS DE CHÁ E TRANSFORMAÇÃO ECOLÓGICA

Wuzhen e Huzhou estão a menos de uma hora de distância, apartados por um enorme tapete de vegetação verde-florescente, painéis solares fotovoltaicos na berma da estrada e vislumbres ocasionais do Lago Taihu.

Os membros da imprensa de Macau foram recebidos na Tang Dynasty Tribute Tea House sem palavras, mas com uma dança carregada de simbolismo. O espectáculo “Hundred Leaves Dragon” apresentou uma versão mais primaveril da clássica dança do dragão, repleta de flores de lótus, borboletas e chapéus-de-sol transformados em nenúfares flutuantes.

Como pano de fundo, uma plantação de ‘camellia sinensis’ a perder de vista, encabeçada no topo por uma casa de chá que, acredita-se, terá sido a primeira “fábrica” na história da China a especializar-se no processamento de chá para a corte do imperador. As folhas maduras que se impregnavam na manhã quente acabaram por ser servidas em chávenas de porcelana enquanto, perante uma pequena audiência de jornalistas e turistas, duas actrizes vestidas a rigor com ‘hanfus’ simulavam uma cerimónia de preparação de chá.

Bebida esta experiência cultural, a delegação prosseguiu para o Memorial Hall of the New Fourth Army’s Jiangsu-Zhejiang Military Region, para uma lição de história centrada nos últimos anos da segunda guerra sino-japonesa. A região montanhosa onde estava sediado o quartel-general da New Fourth Army é, agora, um memorial onde mais de 130 artefactos, 35 armas militares e 240 fotografias servem como recordação do conflito – e homenagem a quem o viveu.

O programa para o segundo dia encerrou com uma visita a Yucun Village, um testemunho vivo de transformação ecológica. De uma aldeia enegrecida pelas minas de carvão e a poluição industrial, Yucun conseguiu transformar-se num centro de renovação ecológica cuja maior força económica é o turismo – motivado, precisamente, pelo cenário pitoresco de flores e vegetação abundante que atrai visitantes de todo o mundo, armados de câmara fotográfica na mão.

Num curto documentário exibido perante a equipa de jornalistas, Xi Jinping – em 2005, secretário do Comité Provincial de Zhejiang do Partido Comunista da China (PCC) – proferiu as palavras que viriam a tornar-se o lema das políticas ambientais do país: “águas claras e montanhas verdes são tão valiosas como montanhas de prata e ouro”. A frase foi inscrita em pedra num monólito no centro da aldeia, rodeado pela paisagem que atesta o cumprimento destes objectivos.

HANGZHOU, A CIDADE DO “FUTURO”

O terceiro dia do programa começou com uma viagem ao futuro. Literalmente: a “Future Sci-Tech City”, situada no coração de Hangzhou, é como uma cápsula de tecnologia futurista entre parques, escolas, estações de metros e outros marcos da vida quotidiana dos residentes. Das janelas do autocarro, vislumbravam-se as silhuetas do futuro pelos arranha-céus e o imponente Century Center, que une pela cintura duas torres-gémeas com 303 metros de altura.

É esta a casa de seis titãs da tecnologia vanguardista a nível mundial, conhecidas no interior da China como “seis pequenos dragões”. O adjectivo “pequenos” parece ser um eufemismo – entre os “dragões” nascidos em Hangzhou, destacam-se o modelo de inteligência artificial DeepSeek, o estúdio de videojogos Game Science, as criadoras de robôs Unitree e DeepRobotics, a empresa de neurotecnologia BrainCo e a empresa de inteligência espacial Manycore.

Numa visita guiada ao Hangzhou Future Sci-Tech City Urban Exhibition Center, foi possível ver de perto algumas destas criações inovadoras – como braços biónicos, um aparelho de electroencefalograma (EEC) e ecrãs em que eram projectadas demonstrações dos robôs do futuro, com capacidades que vão desde o cumprimento das lides domésticas a passos de dança.

Terminada a viagem à tecnologia do amanhã, foi altura de regressar à nostalgia contemplativa das paisagens naturais. Mais especificamente, do único corpo de água chinês reconhecido como Património Mundial pela UNESCO: o Lago do Oeste, sobre o qual se debruçam há milénios poetas como Bai Juyi, Su Shi e Xu Zhimo.

O chamamento da poesia – bem como o ditado popular chinês “o céu está lá em cima; em baixo, estão Suzhou e Hangzhou” – ganhou sentido numa viagem de barco crepuscular a bordo de um “barco-fénix”, uma embarcação de madeira trabalhada a tons de vermelho e dourado. Enquanto o barco circundava a torre Leifeng Pagoda, um dos grandes símbolos estéticos de Hangzhou, uma guia contava a lenda da Serpente Branca: uma história de amor condenado entre um homem e uma serpente capaz de assumir a forma de mulher, cujos caminhos se cruzaram pela primeira vez no misterioso lago.

A noite terminou no Lago do Oeste, embora com um cenário diferente. Usando os recortes paisagísticos naturais e o céu nocturno como abóbada, o espectáculo ao livre “Enduring Memories of Hangzhou” propôs-se a cumprir aquilo que o nome prometia com uma fusão de música, artes teatrais e inúmeras fontes de luz. Dividido em dez actos, o espéctaculo coordenado pelo cineasta Zhang Yimou (internacionalmente aclamado pela direcção de filmes como “Red Sorghum” ou “Raise the Red Lantern”) conciliou, durante cerca de uma hora, ópera chinesa, uma interpretação de “O Lago dos Cisnes” de Tchaikovsky e a Nona Sinfonia de Beethoven, que encerrou a sessão num clímax de violinos e holofotes multicolores.

A PRIMEIRA CIDADE DA CHINA

No quarto e último dia de viagem, as horas até ao voo de regresso a Macau foram preenchidas com visitas a vários museus, num dia dedicado inteiramente à história.

“Há milhões de anos, já o ser humano habitava Zhejiang”, lia-se numa nota introdutória do Museu Provincial de Zhejiang, o primeiro a ser visitado. De facto, grande parte dos achados arqueológicos em exibição do museu remontava a mais de dez mil anos, permitindo traçar uma linha contínua de evolução entre os primeiros vestígios civilizacionais dos povos pré-históricos e o actual florescimento da tecnologia futurista.

Depois de grãos de arroz carbonizados do período Neolítico, amuletos de boa-sorte das Dinastias do Sul da China e inscrições em pedra com milhares de anos, seguiu-se o Museu do Património Imaterial de Zhejiang. Aqui, a arte e a tradição não foram escavadas ou desenterradas, mas passadas de geração em geração como testemunho da vida social, da imaginação e dos valores mantidos por civilizações idas. Celebram-se formas artísticas como a poesia e a ópera, mas também tradições partilhadas por toda a comunidade, como festivais e celebrações de Ano Novo Lunar.

O Arquivo Nacional de Publicações e Cultura da China em Hangzhou complementou esta dimensão cultural com uma enorme compilação de utensílios arcaicos e outros relativamente modernos – como livros, cassetes… e até telemóveis Nokia com teclado, já obsoletos ao ponto de merecem lugar num museu.

O dia terminou nas ruínas arqueológicas de Liangzhu, onde se preserva o que resta de uma das sociedades mais antigas do período neolítico na Ásia Oriental. A “primeira cidade da China” – como é habitualmente conhecida no mundo da arqueologia – contém um dos sistemas hidráulicos mais antigos do mundo, composto por um complexo mecanismo de conservação de água, que inclui barragens e funções de controlo de cheias, e uma indústria artesanal desenvolvida sobretudo a partir de jade.

A viagem de regresso fez-se desde o espaço arqueológico até ao aeroporto, passando pelo núcleo de arranha-céus no centro financeiro da cidade e as luzes típicas de uma urbe cosmopolita. Uma viagem desde o passado até ao futuro, portanto, encapsulando em cerca de meia-hora a identidade de Zhejiang, posicionada algures entre a preservação histórica e o desenvolvimento urbano acelerado.