Frank Lei foi uma figura fundamental na cena artística de Macau, cuja sensibilidade, inovação e compromisso moldaram uma herança cultural de valor inestimável. Como fotógrafo, mentor e impulsionador de espaços de expressão, Frank Lei transcendeu fronteiras e estilos, capturando a essência de uma sociedade em transformação com um olhar humanista e poético, sem a necessidade de muitas palavras. A sua trajectória reflecte um legado de criatividade, resistência e dedicação à arte, que continua a inspirar gerações e a consolidar Macau como um centro vibrante de cultura contemporânea, agora para sempre relembrado na exposição “When the Islands Cast Their Shadows”, na Casa Garden, que apresenta obras inéditas do artista como forma de memória e reflexão.
A trajectória de Frank Lei constitui-se como um dos capítulos mais ilustrativos da cena cultural de Macau, revelando-se como uma narrativa de dedicação, criatividade e uma sensibilidade ímpar que atravessou fronteiras e disciplinas artísticas. Nascido em Pequim, em Dezembro de 1962, e radicado em Macau desde os seus dez anos, Lei consolidou-se como uma figura central do panorama artístico local, não apenas pelo seu talento como fotógrafo, mas também pelo seu papel de mentor, fundador de espaços culturais e impulsionador de uma visão inovadora da arte contemporânea.
A sua formação académica reflectiu uma procura constante por conhecimento e expressão. Licenciado em Jornalismo pela Universidade de Jinan, na China, e posteriormente em Cinema e Vídeo na Universidade de Paris III, Frank aprofundou ainda mais a sua formação na Escola Nacional Superior de Artes Decorativas (ENSAD), em Paris, onde estudou fotografia. Esta combinação de experiências, cruzando a cultura oriental e ocidental, conferiu-lhe uma sensibilidade única, que se reflectiu na sua obra, marcada por uma abordagem poética e humanista.
A sua paixão pela fotografia revelou-se como uma ferramenta de compreensão e interpretação do mundo ao seu redor. Desde cedo, demonstrou um talento natural para capturar a essência do quotidiano, transformando momentos simples em testemunhos visuais de uma sociedade em constante transformação. Em 1991, conquistou o primeiro prémio no Concurso Internacional de Fotografia de Rua, organizado pelo Museu Europeu da Fotografia, reconhecimento que o destacou a nível internacional.
No entanto, foi na sua viagem a Cuba, em 1992, que Frank Lei revelou uma das suas facetas mais marcantes: a de documentar uma sociedade em crise, mas repleta de cultura e esperança. As fotografias captadas neste período, agora objecto de uma exposição no Taipa Village Art Space, sob curadoria de Alan Ieong, oferecem uma janela para uma Cuba de resistência, marcada por tensões políticas e uma riqueza cultural que o fotógrafo soube eternizar com sensibilidade e rigor. Esta primeira homenagem a Frank Lei foi o tapete vermelho de abertura a uma retrospectiva de grande escala agora inaugurada na Casa Garden.
Ilhas de reflexão numa retrospectiva inédita
A nova exposição póstuma de Frank Lei inaugurou ontem na Casa Garden e fica patente até 29 de Junho, sob o título “When the Islands Cast Their Shadows”. Ocupa o espaço da galeria na sua totalidade com mais de 60 fotografias, sem deixar espaço de dúvida quanto ao trabalho e qualidade da organização. Uma das curadoras desta nova retrospectiva é Lam Sio Man, que compartilhou detalhes sobre o processo de elaboração da mostra, destacando o esforço colectivo e a importância dos arquivos na preservação da obra de Frank Lei. Ressaltou a colaboração com a família do artista, especialmente a irmã Jane Lei, que também é uma das curadoras, e o impacto que Frank teve na sua geração.
A montagem da exposição levou mais de um ano e envolveu o apoio de vários elementos que ajudaram a estabelecer as bases do projecto. Com a ajuda de arquivos da Wind Box Association e da sua família, as obras e objectos pessoais de Frank Lei foram bem preservados, apresentados agora na nova mostra. “Foi uma grande honra trabalhar com Jane Lei e a sua família, que foram muito generosos ao abrir o acervo e confiar no nosso trabalho. Visitámos o estúdio de Frank Lei e vimos a sua colecção enorme de música e livros, escolhendo alguns para a exposição”, revelou Lam Sio Man.
A influência de Frank Lei estendeu-se à criação de espaços culturais emblemáticos, que se tornaram verdadeiros polos de criatividade e experimentação. Fundador da Comuna de Pedra em 1996, do Old Ladies House Art Space em 2001, mais tarde conhecido como Armazém do Boi em 2003, Frank Lei foi uma força impulsionadora do desenvolvimento artístico de Macau, promovendo a convivência, o intercâmbio e a inovação. Estes espaços acolheram exposições de grande influência, contribuindo para a afirmação da cidade como um centro de cultura, especialmente na área da arte contemporânea.
“Quando era mais jovem, tive contacto com o trabalho de Frank através do Armazém do Boi, que promovia a arte contemporânea em Macau. Conheci o seu livro ‘The Walking and Watching’, publicado na época na livraria Pin-to. Mesmo sem ter conhecido Frank pessoalmente, a sua obra influenciou muito a minha geração”, afirmou Lam Sio Man.
Frank Lei foi um cidadão do mundo, expondo em França, Cuba, Portugal, Hong Kong e agora em Macau. A sua obra, que inclui séries como “City Sight”, “Sleeping City” e “Cuba Cuba”, revela uma preocupação constante com a cidade, com o espaço urbano e com as pessoas que o habitam. O seu olhar sensível permitiu-lhe captar a essência de Macau em momentos de mudança, reflectindo uma cidade que, embora em transformação, mantém uma identidade humana profundamente enraizada, foco de muitas das obras expostas na nova retrospectiva.
Um mestre de poucas palavras
Para além da sua produção fotográfica, Frank Lei destacou-se como um mentor exemplar. A sua dedicação ao ensino, sobretudo na Escola Superior de Artes do Instituto Politécnico de Macau, moldou gerações de jovens artistas, incutindo neles uma visão crítica, sensível e inovadora. Os testemunhos dos seus antigos alunos, como Alice Kok e Bianca Lei, revelam um educador que estimulava o pensamento profundo, que promovia a reflexão através de conversas calmas e que, acima de tudo, transmitia uma paixão genuína pela arte.
Nas palavras de André Ritchie, arquitecto de Macau que teve um contacto directo com a personalidade de Frank Lei, o fotógrafo era um mestre silencioso, que transcendia as palavras com a qualidade de um artista visual. “Todos os seus alunos diziam que era uma pessoa muito agradável, mas que não dizia nada sobre os trabalhos, não se apoderava dos trabalhos dos alunos. Desenvolvia o trabalho pela imagem, não tanto pelas palavras”, recordou.
Segundo André Ritchie, Frank Lei foi um dos primeiros, senão o primeiro, fotógrafo na comunidade chinesa local a oferecer um espaço de experimentação e uma nova forma de entender a fotografia. A sua postura, mais de orientação do que de prescrição, permitiu que jovens fotógrafos percebessem que o trabalho criativo era seu, e que a fotografia poderia ser muito mais do que uma representação pictórica de paisagens ou objectos.
Francisco Ricarte foi outro elemento da comunidade artística de Macau que deixou recentemente o seu comentário como introdução a uma das publicações de Frank Lei, onde diz que o artista consegue “enfatizar a sua compreensão da fotografia como um acto humanista de ver”.
“A sensibilidade visual de Frank em termos de composição, escala e equilíbrio entre luz e sombra (por vezes transmitindo sombras profundamente dramáticas) para retratar Macau como uma terra de mudança perpétua e de novos tempos por vir, permite-nos compreender melhor esta cidade e a sua identidade humana. Na fotografia de Frank, o espaço é sempre transmitido através de uma escala humana que realça o seu significado e papel”, afirma Ricarte.
Já para Alan Ieong, curador da recente exposição sobre os trabalhos de Frank Lei sobre Cuba, na galeria Taipa Village, o fotógrafo é “um artista importante, mas pouco conhecido, uma vez que não publicou muitos dos seus trabalhos durante a sua vida e é tão humilde que a maioria das pessoas fora de Macau não sabe muito sobre ele”. “Mesmo sendo tão humilde que nunca o admitiria, Frank é, na verdade, uma referência quando falamos sobre fotografia. Por isso, é importante que todos nós saibamos mais sobre ele, uma vez que a arte contemporânea é sobre o presente e também sobre o passado, e sem conhecer o passado não somos capazes de compreender para onde estamos a ir. Penso que essa é a ideia mais importante que podemos transmitir ao público através da recente exposição e publicação sobre Frank” declarou Ieong.
O trabalho de Frank Lei foi muitas vezes despercebido pela comunidade. No que destaca o fotógrafo português António Mil-homens, Frank Lei ainda se “continua por descobrir”. “Infelizmente, penso que os amantes da fotografia, e muitos outros, têm andado de costas voltadas para o trabalho deste artista. Frank tem trabalhos que estão muito fora do que normalmente a comunidade chinesa da fotografia faz. Tem um trabalho mais intimista. É muito importante aparecer para ver esta recente colecção que faz honra a quem tem tanto amor pela arte da fotografia”, afirmou António Mil-Homens.
A passagem de Frank Lei, infelizmente prolongada por uma doença que o levou a ficar em coma por quatro anos, deixou uma marca indelével na comunidade artística de Macau. A sua morte, ocorrida em 18 de Maio de 2022, despertou uma onda de homenagens e reconhecimento pelo seu contributo inestimável. Artistas, académicos e instituições lamentaram a perda de um artista humilde, generoso e inovador, cuja obra e acção deixaram um legado que continuará a inspirar novas gerações.
Hoje, o reconhecimento do seu percurso manifesta-se em exposições como “When the Islands Cast Their Shadows” e no lançamento de obras póstumas, como “Beyond the Gaze”. Assim, o seu legado perdura, inspirado por uma paixão que iluminou o caminho para todos aqueles que acreditam no poder transformador da criatividade, mas também na importância de valorizar e conservar a memória. Frank Lei ficará para sempre como exemplo de como a arte é uma ferramenta poderosa de testemunho social, cultural e humano. “Eu estava lá e foi isso que vi naquele momento da minha vida” – Henri Carrier-Bresson.












