“Macau, com a sua mistura de culturas, inspira-me a explorar a diversidade de vozes e a criar obras que reflictam essa multiplicidade”. JinJin Xu é uma criadora que desafia o silêncio, usando som, poesia e performance para revelar vozes esquecidas. Entre Macau, Xangai e Nova Iorque, transforma espaços em territórios de redescoberta e pesquisa, convidando-nos a ouvir o invisível e dar voz ao que foi silenciado. As suas obras são uma busca pelo que ainda precisa ser ouvido. Uma missão partilhada em entrevista ao PONTO FINAL.

Imagine-se um espaço onde as vozes silenciadas encontram ecos, onde a escuta atenta revela histórias de resistência e transformação. É nesse universo de emoções e memórias esquecidas que JinJin Xu nos convida a reflectir sobre deslocamento, linguagem e identidade. Como artista e poetisa que transita entre Macau, Xangai e Nova Iorque, tem vindo a utilizar uma abordagem interdisciplinar, documental e poética para dar vida a narrativas muitas vezes invisíveis, especialmente as de mulheres em situação de marginalização. Inspirada pelo antigo idioma Nüshu, uma escrita secreta criada por mulheres na China, JinJin investiga formas silenciosas de resistência e preservação de memórias, criando instalações sonoras, performances participativas e experiências sensoriais que estimulam a empatia e o diálogo. O seu trabalho revela histórias esquecidas e desafia o público a ouvir com atenção, a reconhecer a força que reside na escuta.
Através do seu trabalho, JinJin Xu propõe uma reflexão profunda sobre as várias dimensões do deslocamento e as narrativas paralelas muitas vezes ignoradas. A sua prática artística, que combina poesia, tecnologia e experiências sensoriais, promove uma ligação emocional entre as obras e quem as observa, colocando a escuta no centro do processo de compreensão. Ao envolver o público em acções colectivas, como recitais e instalações sonoras, JinJin reforça a importância de reconhecer e valorizar outras dimensões culturais e tradições. Com uma investigação contínua sobre as vozes femininas em contextos de deslocação, transforma o espaço expositivo num lugar de escuta activa, convidando-nos a questionar as nossas próprias percepções e a valorizar o poder da linguagem. Assim, JinJin Xu demonstra como a arte pode ser uma ferramenta poderosa de reconhecimento e empatia na construção de um universo de diálogo contínuo, com mais consciência e inclusão.

Quem é JinJin Xu, e qual a sua trajectória pessoal e relação com Macau?
Cresci entre Xangai e Macau, e sempre vim aqui com os meus pais porque eles conheceram-se em Macau. Quando era jovem, Macau parecia um destino distante, mais uma história dos meus pais do que algo que fizesse parte de mim. Durante a COVID-19, fiquei meio ano na cidade e, de certa forma, senti-me em casa aqui, porque já tinha estado em Nova Iorque antes. Agora, ao regressar, quis que o meu trabalho fosse ‘site-specific’ e envolvesse a comunidade local, pois toda a minha arte é assim. Estou muito feliz por fazer isto na Butter Room, que é um espaço muito voltado para a comunidade, e a melhor audiência são as pessoas que esperam pelo autocarro e que têm uma vista privilegiada da minha exposição através da janela.
O seu trabalho é descrito como “interdisciplinar” e “docu-poético”, misturando poesia, instalações sonoras e performances. Como é que diferentes meios convergem na sua prática para explorar temas de memória, ausência e representação?
Acredito que é estranho quando as pessoas escolhem definir-se por um meio específico, seja como cineasta, poeta ou artista visual. Para mim, esses meios são fluídos e dependem do que o projecto exige. Não decido fazer um poema, um filme ou uma instalação; tudo surge conforme as necessidades da obra. Eu vejo-me como um recipiente para as vozes das pessoas que conheci, por isso o título do projecto é “O que dirias se pudesses?”. É uma prática que combina elementos documentais e poéticos, onde actuo como uma testemunha que amplifica histórias muitas vezes ignoradas. Para mim, é uma forma de poesia e de testemunho que não separa arte da vida, mas que contém as vozes de quem é silenciado.
O foco central de “O que dirias se pudesses?” é dar voz às mulheres que vivem deslocadas. Qual foi a inspiração para este projecto, e o que aprendeu sobre o poder de ouvir e de compartilhar narrativas ao recolher esses testemunhos?
Este projecto foi inspirado por um livro de poemas de Bhanu Kapil, “The Vertical Interrogation of Strangers”. Ela entrevistou mulheres de toda a Índia e criou um livro com doze perguntas, incluindo “O que dirias se pudesses?”. O que me fascinou foi o facto de que, no livro, não se consegue distinguir quem respondeu o quê, pois parece uma voz colectiva. Essa abordagem radicalizou-me na minha prática artística, pois questiona os limites da empatia e do verdadeiro escutar. Desde 2017, tenho trabalhado com testemunhos de mulheres de diferentes países e contextos, e aprendi que ouvir com empatia é uma prática poderosa, que requer sensibilidade para o que muitas vezes não é dito, para o silêncio e para o que é censurado ou silenciado.
A pesquisa sobre Nüshu, a escrita feminina quase extinta, é um elemento importante do seu trabalho. O contexto histórico do Nüshu, como uma forma de comunicação oculta e resistência, ressoa com as experiências contemporâneas de vozes silenciadas que explora na sua exposição?
Depois de vários anos, durante a COVID, voltei à China e encontrei o Nüshu na província de Hunan, perto de onde a minha mãe cresceu. Falei com os últimos herdeiros dessa escrita secreta, que foi passada de geração em geração por mulheres. Para escrever Nüshu, elas tiveram que apagar-se, destruir-se, para manter a sua mensagem. Essa acção de desaparecimento, de silêncio, é profundamente relacionada com as histórias de mulheres silenciadas e de resistência silenciosa que tento explorar na minha obra. O Nüshu representa uma resistência discreta, uma forma de comunicar e de preservar histórias que o silenciamento tentou apagar.
A exposição enfatiza o sentido da audição como central para a experiência do espectador. De que forma usa intencionalmente o som, incluindo as vozes directas das mulheres com quem trabalhou e a integração de tecnologia sonora, para criar um ambiente imersivo e empático?
Criei várias versões de instalações sonoras. Uma delas foi em Xangai, em 2021, onde coloquei as vozes dentro de uma rede de moscas — uma metáfora visual para várias vozes a acontecer simultaneamente. Os ouvintes tinham que escutar atentamente para distinguir as diferentes vozes, muitas delas em línguas como árabe, farsi, tailandês ou dialectos Hmong, que muitas pessoas podem não entender. Essa barreira linguística, na verdade, permitia que o público focasse mais na emoção das vozes, na sua vulnerabilidade, no momento em que um narrador se emociona ou fica à beira das lágrimas. Assim, a escuta vai além da compreensão linguística e toca o estado emocional, criando empatia através do som.
As suas performances parecem projectadas para promover um sentimento de engajamento colectivo e experiência compartilhada. O que espera que os visitantes ganhem ao participar activamente esses elementos performativos do seu trabalho?
Essa experiência foi muito comovente. Em Xangai, convidei mulheres e pessoas não-binárias a lerem em voz alta as transcrições das vozes que tinha recolhido. No início, foi silencioso e um pouco estranho, mas, ao começarem a ler, outros juntaram-se espontaneamente, criando um coro orgânico. Algumas pessoas repetiam passagens, outras liam passagens diferentes, e algumas apenas escutavam. Essa participação activa faz com que o público não seja apenas um ouvinte, mas também um corpo que incorpora essas histórias. A leitura em voz alta aproxima, cria uma ligação mais profunda com o texto, e transforma a experiência numa partilha colectiva de vozes e emoções.
Trabalha em Macau, Xangai e Nova Iorque. De que forma a sua conexão com Macau influencia a sua perspectiva artística e os temas que escolhe abordar? O que há em Macau que ressoa particularmente consigo criativamente?
Em Macau, a diversidade linguística é muito forte — as pessoas falam inglês, português, cantonês, mandarim. No recital, incentivei que qualquer pessoa pudesse ler na sua língua, e acabámos por ter várias línguas diferentes, com diferentes tons e intenções. A experiência foi mais colectiva, mais ruidosa, e muito bonita por isso. Macau, com a sua mistura de culturas, inspira-me a explorar a diversidade de vozes e a criar obras que reflictam essa multiplicidade. Para o futuro, quero continuar a incorporar vozes locais e a explorar essa riqueza cultural na minha arte.
Olhando para a sua trajectória artística mais ampla, que artistas ou movimentos influenciaram particularmente o seu trabalho e pensamento?
Poderia dar imensos exemplos, mas destacaria a Poética do Testemunho. Sou influenciada por artistas como Doris Salcedo, Mona Hatoum, Bhanu Kapil e Trinh T. Minh-ha. Essas artistas trabalham de uma forma socialmente engajada, que questiona a violência, a perda e a resistência. Por exemplo, Doris Salcedo trabalhou com mães na Colômbia cujos filhos desapareceram, criando monumentos que homenageiam essas vítimas. Acredito que a arte tem uma responsabilidade de reflectir a sua realidade local, de engajar-se com ela de forma profunda e sensível.
Como alguém que trabalha com linguagem e narrativa de forma tão profunda, há livros ou escritores que tenham moldado significativamente a sua perspectiva ou processo criativo?
Sim, mencionei anteriormente Teresa Hak Kyung Cha, que escreveu “Dictee”, uma obra monumental de poesia experimental que aborda a colonização, a guerra e a identidade coreano-americana. Essa obra de descolonização linguística e visual influenciou muito a minha forma de pensar a linguagem. Além dela, recomendo as obras de Bhanu Kapil, cujos livros continuam a inspirar-me na experimentação poética e na escuta sensível.
Que projectos tem para o futuro?
Ainda não posso revelar detalhes específicos, mas estou a preparar uma conversa sobre traduções em Nova Iorque e a explorar novas possibilidades de escuta e narrativa. A minha prática é sempre contínua, uma procura sem fim por novas formas de escutar e representar vozes silenciadas.












