Edição do dia

Domingo, 21 de Abril, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
aguaceiros fracos
23.9 ° C
23.9 °
22.9 °
88 %
5.1kmh
40 %
Sáb
26 °
Dom
27 °
Seg
26 °
Ter
26 °
Qua
27 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioEntrevista“Mantenho uma preferência inabalável pela fotografia a preto e branco, mas feliz...

      “Mantenho uma preferência inabalável pela fotografia a preto e branco, mas feliz por ver o mundo a cores”

      Prestes a ser lançado na próxima edição do Festival Literário de Macau, em Março, “Incidental Moments”, o mais recente livro de fotografia de João Miguel Barros, é visivelmente um projecto do qual este se orgulha. Produzido pela editora Hamah, o pequeno livro de 21 centímetros propõe uma viagem conceptual e intimista por instantes capturados pela sua lente entre Portugal, China e Gana. Abordando ainda outros projectos em curso, o fotógrafo falou-nos sobre a sua preferência pela fotografia a preto e branco, e também reflectiu sobre a necessidade de uma melhor estrutura de apoio à fotografia que se faz em Macau.

       

      Em conversa com o PONTO FINAL, João Miguel Barros revelou-nos que acaba de publicar um livro de fotografia num formato de dimensões menores que se distancia dos seus registos anteriores. A fotografia documental, com os seus retratos e paisagens urbanas, foi temporariamente posta de lado, criando-se espaço para outra linguagem e outro formato, num exercício que estabelece possivelmente o precedente para outras futuras edições que possam ser lançadas pelo Ochre Space, galeria em Lisboa que dinamiza.

      Depois de concluída a 12.ª e última edição da revista Zine Photo, foi entre outros projectos que surgiu este “Incidental Moments”: um pequeno livro de 21 centímetros com imagens quadradas sob enquadramento branco, que se desdobram revelando ‘snapshots’ e outros instantes capturados pelo fotógrafo. A estética a preto e branco, ferramenta de eleição e imagem de marca do também advogado, é neste pequeno livro explorada através de detalhes de um edifício, do céu, ou dos contornos de uma chama de uma vela, e sem qualquer presença de figuras humanas.

       

      Como surgiu a ideia do livro, e como foi o processo de selecção das imagens que figuram no livro?

      Depois de concluído o projecto de Zine Photo comecei a trabalhar num projecto de grande dimensão em Portugal que ainda está em curso. O trabalho de campo só terminará provavelmente neste Verão. Mas até à conclusão desse projecto, que se irá chamar “Esquilas” (não digo mais, mas vai ser polémico), havia um hiato que precisava de preencher para acalmar as minhas inquietações. E foi aí que me surgiu a ideia de fazer um trabalho diferente daquele que habitualmente tenho feito. Nasceu de um impulso. Comecei a rever algumas ‘snapshots’ ocasionais, umas atrás de outras, e o material foi-se avolumando. No final, acabei por ir buscar diversos “momentos incidentais” que juntei numa viagem interior. Este livro é, na verdade, um livro especial que junta algumas dezenas de imagens, na sua esmagadora maioria inéditas, e que eu nunca tinha pensado publicar, porque estão desligadas de um projecto específico. Foram tiradas ocasionalmente e foram ficando guardadas nos meus arquivos.

       

      Descreve o projecto como sendo mais íntimo, e mais reflectivo do que o trabalho documental que tem desenvolvido. Pode-nos explicar porquê?

      A Zine Photo é muito documental, muito vocacionada para contar histórias que as pessoas podem apreender com mais facilidade. Este novo livro é mais conceptual. E tem uma sistematização diferente. Com excepção das três fotografias iniciais que foram a imagem de marca da minha primeira exposição individual na Creative Macau, e um dos capítulos da Photo Metragens que mais impacto teve no Museu Berardo em Lisboa, a que eu, neste roteiro sentimental, quis prestar homenagem, a narrativa que se segue começa com a simbologia da viagem, através de várias imagens tiradas de aviões. Depois, fica o registo do que fui encontrando de significativo nos diversos sítios por onde fui chegando. Paisagens urbanas. Detalhes. Arquitectura. E deliberadamente não há em todo o livro uma única figura humana porque, como disse, quis dar a este projecto uma estrutura mais contemplativa e conceptual. Gostava de assinalar a especial qualidade de produção deste livro. Sou muito exigente em relação à qualidade das peças que publico. Tinha curiosidade em fazer uma contraprova e mostrei este livro ao dono de uma das grandes gráficas em Portugal, com quem já trabalhei antes, e que tem critérios de grande exigência na produção de livros de autor, que me confirmou que o livro está superiormente bem feito. E o grau de dificuldade era muito grande devido à necessidade de fazer o alinhamento das diversas páginas duplas com as páginas simples. Tenho uma enorme satisfação com este trabalho, que vai funcionar como um novo standard nas edições que a Ochre Space irá fazer no futuro. Modéstias à parte, estou muito orgulhoso com o resultado conseguido.

       

      As fotografias destes “momentos incidentais” foram tiradas em que locais? 

      Em Portugal, China, Gana.

       

      Qual é a mais valia da fotografia a preto e branco? 

      Bem, eu sou um claro adepto da fotografia a preto e branco e nunca me aventurei pela fotografia a cores. Pode ser redutor pôr as coisas nestes termos, mas na fotografia a preto e branco consegue-se uma maior pureza na forma e no acesso à substância do que se pretende mostrar. Na fotografia a cores há um obstáculo a ultrapassar, por vezes difícil de ultrapassar, que é alucinação da cor. Eu tenho feito esse exercício em relação a certas fotografias a cores que vejo nas exposições. Fico completamente ancorado no jogo cromático que o fotógrafo consegue obter, e primeiro que consiga sair daquela sedução da cor e passar para o conteúdo da imagem, é um passo difícil. Nas imagens a preto e branco não existe este problema.

       

      Porquê a preferência por este tipo de fotografia? Como descobriu que era a preto e branco que se queria exprimir artisticamente?

      Não sei se consigo responder. Ou parte da resposta talvez esteja expressa na resposta à pergunta anterior. Acho que se fosse artista plástico, seguramente que era através da cor que eu procuraria exprimir-me. Em todo o caso, eu já levo décadas a ver exposições de fotografia. Logo no início tive um sentimento de adesão intuitiva, mesmo que não consciencializado a determinadas correntes estéticas, a determinados artistas. Gosta-se, ponto final. Depois, continuei a ver e a aprofundar o gosto. Com o tempo, além de ver, comecei a ler sobre fotografia e a construir o meu próprio percurso reflexivo. E chegamos aqui, numa altura em que tenho já um percurso próprio de trabalho feito como autor e como curador, em que mantenho uma preferência inabalável pela fotografia a preto e branco, mas feliz por ver o mundo a cores.

       

       As suas fotografias recorrem a contrastes muito acentuados. Como é que consegue este efeito, é através da máquina e do momento de fotografar, ou recorre a pós-edição digital?

      Não sou um tecnicista. Se bem que goste imenso das máquinas fotográficas como gadgets, depois uso-as quase como máquinas descartáveis. Não programo nada na máquina. Faço os acertos, e não são muitos, na edição das imagens.

       

      A propósito, qual é a sua posição em relação ao digital, à manipulação digital da fotografia?

      Costumo fazer uma distinção estrutural entre o fotojornalista e o foto-artista. Ao primeiro, a manipulação digital está vedada. Ao segundo, é permitida. Mas devo esclarecer que detesto a palavra “manipulação” porque sinto que vai muito para além da edição. Mas acho necessária a “edição”.  No meu caso, faço a edição das imagens com o respeito ético de um fotojornalista, no sentido de não tirar da cena o que lá está, ou de lá colocar o que não está, mas com alguma liberdade própria do foto-artista, no sentido de me permitir acentuar os contrastes, evidenciar partes das imagens através dos ‘crops’, ou carregar os tons. Fora isso não manipulo imagens.

       

      Voltando ao projecto: as páginas que funcionam como duetos contam uma história, transmitem uma mensagem. Pode-nos falar um pouco sobre alguns desses “momentos incidentais” que escolheu destacar?

      O livro tem cinco grandes planos desdobráveis composto por páginas duplas. Cada um desses planos tem uma sequência de seis fotografias. São mini-narrativas com sequências de imagens. São registos diferentes, e que deixo a quem veja o livro o gosto da descoberta e interpretação.

       

      A escolha de enquadramento das páginas, as páginas que se desdobram, e outros detalhes do livro, como referiu, são de um livro de edição limitada, para coleccionadores. Está a considerar pegar neste tipo de formato e criar outras edições semelhantes?

      Este formato é uma excepção nos meus trabalhos, porque prefiro sempre formatos grandes. Nunca tinha publicado um livro neste formato, nem sequer usado o formato quadrado nas minhas fotografias, mas admito que pode ser uma opção para uma colecção de livros de fotografias da Ochre Space, se bem que eu, para o projecto que tenho em curso, prefira voltar a um formato maior.

       

      Como vê o estado actual da fotografia enquanto expressão artística em Macau?

      A fotografia não é uma prioridade pelos programadores culturais em Macau. O panorama em Macau é pobre. Há poucas exposições, e são raras as exposições de qualidade. O Instituto Cultural podia ter um papel importante para alterar este estado de coisas. Bastava alocar um dos seus espaços com o objectivo de ser usado apenas para exposições de fotografia, dando-lhe alguns meios (as exposições de fotografia não são muito caras) e um corpo curatorial. Uma galeria especificamente dedicada à fotografia apoiada pelo Instituto Cultural seria a chave para desbravar o caminho. A nível privado, a associação Halftone tem vindo a prestar um papel relevante na divulgação da fotografia, em especial com a publicação da sua revista, que é um produto de qualidade. Mas há muito trabalho a fazer. E muita inércia para vencer.

       

      Que outros projectos está a preparar, depois de terminado o ciclo da Zine Photo?

      Bem, para além da minha prática profissional como advogado, que tenho de manter para ganhar a vida, neste momento ando a trabalhar num projecto altamente desafiador relacionado com uma das fotografias mais famosas da arte chinesa conhecida por “Add One Meter to the Anonymous Mountain”, tirada em Maio de 1995, e que está em diversos importantes museus do mundo. Para o ano faz 30 anos que essa fotografia foi tirada. Para trás, há uma história ainda não totalmente contada que envolve grandes artistas chineses, a Bienal de Veneza de 1999, um galerista nos Estados Unidos, curadores famosos, etc. Eu tenho andado a entrevistar os dez participantes na performance que deu origem a essa fotografia e todos os intervenientes com ela relacionados, na esperança de conseguir escrever um livro a tempo da celebração dos 30 anos. Este projecto tornou-se quase uma obsessão para mim neste momento.