Jason Wordie, historiador, escritor e jornalista de Hong Kong, tem-se debruçado sobre Macau. Lançou há 11 anos uma obra “Macao, People and Places, Past and Present”, tendo apresentado a segunda edição do livro recentemente na Livraria Portuguesa. Em entrevista ao PONTO FINAL, Wordie destaca o que há de especial em Macau, apontando que é a diferença que dá ao território a sua força.

Jason Wordie é jornalista, historiador e escritor sediado em Hong Kong. Licenciado em História pela Universidade de Hong Kong, tem focado o seu trabalho na região vizinha, em Cantão e também em Macau. Há 11 anos, lançou “Macao, People and Places, Past and Present”, um guia sobre o território focado na vertente histórica. Recentemente, Wordie esteve na Livraria Portuguesa a apresentar a segunda edição da obra. Em entrevista ao PONTO FINAL, o historiador recorda as primeiras visitas a Macau, no final da década de 1980, e conta o que é que encontra na região que faz com que continue a querer voltar. “Há algo de especial em Macau”, afirma.
A primeira vez que visitou Macau foi em 1988 e desde então tem voltado cá muitas vezes. O que é que, para si, é tão fascinante e relação a Macau?
O que achei fascinante desde o início foi a riqueza, a profundidade, a amplitude e a extensão de tantas vertentes da história que podem ser encontradas num lugar tão pequeno. É possível, dentro de metros, encontrar ligações ao Japão do século XVI, a Goa do século XVII, a Malaca e, ao mesmo tempo, a várias vertentes da China, desde a época Ming até à época republicana e daí em diante. Há tanta coisa e é tão multifacetada. Tanto património edificado, como as pessoas, como a comida, todo o tipo de coisas. Por isso, nunca deixei de estar interessado e intrigado. A impressão geral que as pessoas de Hong Kong tinham sobre Macau era que havia apenas jogo e coisas associadas. Por isso, as pessoas não achavam possível que eu fosse a Macau e não frequentasse casinos, era isso que toda a gente fazia. E quando eu falava nas igrejas, nas fortalezas e nos templos, por exemplo, as pessoas olhavam para mim como se eu fosse um pouco louco e estivesse a falar de um lugar diferente. Por isso, guardei-o para mim durante muito tempo. E isso foi bom porque significava que era um prazer privado. Ia a Macau sozinho e lia o que queria, vagueava e passava uma ou duas noites ou, dependendo da disponibilidade, talvez mais tempo. E voltava sempre com algo diferente.
Recuando a 1988, quais foram as primeiras impressões de Macau?
Reconheci imediatamente que havia muito mais para ser explorado e que não era como muitas pessoas diziam em Hong Kong, que podia ver-se tudo num dia e não era preciso voltar. Apercebi-me de que isso era completamente falso. Portanto, a minha primeira impressão foi que havia, sim, muito mais para descobrir. Como em qualquer relação que valha a pena, era preciso tempo para a cultivar, desenvolver, explorar e descobrir o caminho. A primeira noite que passei em Macau foi no antigo Hotel Bela Vista. Isso fica-me sempre na memória como uma experiência mágica, porque a zona ribeirinha lá em baixo ainda não tinha sido recuperada. Nem sequer se falava desse projecto. Ainda estava escuro ao olhar para fora e ainda havia peixes a chapinhar ao longe. O hotel em si estava encantadoramente degradado. Não era nada de especial, mas era especial porque tinha uma atmosfera sedutora, tal como grande parte do sítio. Isso dizia-me muito e continua a dizer.
Comparando com a Macau actual, quais são as principais diferenças na cidade?
Durante a pandemia, não pude ir a Macau. Macau esteve fechado durante três anos e meio. Quando lá voltei, o que me chamou a atenção foi o facto de muitas mudanças terem sido, de facto, melhorias positivas. Assim, alguns edifícios antigos, que estavam a ficar muito degradados, tinham recebido um novo sopro de vida. O Hotel Central é um exemplo, o Grand Hotel é outro. Houve melhorias positivas e também muitas das coisas que eu sempre adorei, como os recantos tranquilos à volta dos fortes ou o antigo cemitério protestante, etc., estavam exactamente na mesma. Nada tinha mudado três anos e meio depois. As mesmas cores, as mesmas árvores, tudo igual. Fiquei muito contente com essa continuidade. Sim, claro que há todos os novos empreendimentos de casino e outras coisas relacionadas, mas eu ignoro isso. É uma escolha consciente porque não me interessa. Nunca me interessou. Por isso, o que sempre descobri em Macau é que, se virarmos a cara, podemos eliminar grande parte desse lado, não temos de o ver. Acho que nos podíamos concentrar nesse tipo de mudanças. À medida que envelheço, opto por ignorar aquilo com que não me quero envolver e não posso mudar. Então, o que é que eu posso fazer? Bem, simplesmente não lhe dou a energia que não quero dar. Prefiro concentrar-me nas coisas que quero.
Notam-se poucas alterações, a nível social, arquitectónico ou no património, por exemplo?
É óbvio que agora há muito mais consciencialização. E também há muito mais dinheiro para gastar porque a consciencialização e os recursos estão intimamente ligados. É muito bom que as pessoas estejam interessadas. Mas, se não houver investigação e publicações e melhorias nos edifícios e na acessibilidade geral do conhecimento, então não se pode realmente saber mais. Assim, a par do aumento das receitas públicas e da prosperidade geral, tem havido mais dinheiro para gastar em publicações sobre conservação e todo esse tipo de coisas. Portanto, isso melhorou. E isso, por sua vez, levou a uma maior e mais profunda consciencialização do público para o facto de que há algo de especial em Macau. Porque quando comecei a ir a Macau, parecia que muitas pessoas não sabiam ou não queriam saber. E penso que muitos não se importavam porque não sabiam. Mas, como agora sabem, importam-se.
No seu livro, “Macau: People and Places, Past and Present”, foca-se na história e no património cultural da cidade…
Concentro-me em tudo. Falo sobre a história, os edifícios, as pessoas, como o nome indica, os lugares do passado e do presente, a comida, o património cultural, os edifícios, as origens. De uma Macau como lugar internacional, muito antes de os lugares internacionais terem esse nome. As ligações à China, como era a China, os vários tipos de China que havia no Sudeste Asiático ao longo da mudança. É uma história social, cultural e, nalguns casos, política, com várias camadas. Também é uma história económica. No que diz respeito à história económica, não me furto a dizer que, durante a maior parte da história de Macau, havia tráfico de droga, prostituição, tráfico de seres humanos, trabalho infantil e todas essas outras coisas que não ignoro. Acho que é demasiado fácil olhar para estes belos edifícios antigos e dizer: Oh, que maravilha, o passado deve ter sido bom. Não é bem assim.
No que toca ao património cultural, acha que esse aspecto tem sido bem protegido pelas autoridades locais nos últimos anos?
Sem dúvida. É evidente que se gastou dinheiro e que se está a gastar mais dinheiro. E é evidente que estas iniciativas são motivadas por outras iniciativas vindas de fora de Macau. Quando o Governo Central mencionou a necessidade de diversificar as actividades económicas, deixando de depender apenas da indústria do jogo, isso está a ser levado a sério. Por isso, há alguns elementos de conversa fiada, mas também há, ao que me parece, como pessoa de fora, uma tentativa honesta de pensar: “Muito bem, o que é que isto significa? E como é que isto pode ser implementado? E como é que isso pode ser usado para benefício geral e melhoria do local?”. Por isso, sim, parece estar a ir nessa direcção.
Qual é, na sua opinião, a coisa mais importante a ser preservada em Macau?
O que parece estar a ganhar força é um sentido de distinção. Macau é diferente e a diferença é a sua força e o seu valor, tanto para si próprio, como lugar, como para o país de que faz parte. Por isso, a sua importância reside nessa diferença. E reconhecer essas diferenças é uma coisa boa que pode e deve ser uma força. É essa que parece ser a questão principal que está a ganhar atenção. Isso é bastante positivo.
E como é que vê esse foco do Governo Central para integrar Macau no desenvolvimento do país, através de projectos como o da Grande Baía e de Hengqin, por exemplo? Poderá fazer, eventualmente, com que a cidade perca a sua essência?
Não. Absolutamente não. Macau pode manter a sua distinção e, ao mesmo tempo, haver uma maior integração. O que se passa com Hengqin é que, de facto, faz de Macau um lugar maior. Aumenta a dimensão e a posição de Macau no mundo lusófono e isso é considerado muito importante pelo continente. Isso é que é um factor de distinção. Portanto, não, eu não vejo isso como uma questão de “nós ganhamos e vocês perdem”. Muito pelo contrário.
Este ano que passou marcou o 25.º aniversário do estabelecimento da RAEM. Como é que vê a evolução do território ao longo deste tempo, de uma forma geral?
Dentro deste período de tempo, houve desafios e passos em frente. O que é que pode ser um passo atrás? Ficar parado durante algum tempo. Poucos passos em frente. Parece ser um processo de encontrar o caminho, porque com uma região administrativa especial – e o mesmo se passa em Hong Kong – trata-se de novas experiências. Por isso, é claro que, em qualquer nova experiência, algumas coisas funcionam, outras não. Em alguns casos, é como experimentar uma receita pela primeira vez. Algumas coisas vão saber bem. Outras acabam no caixote do lixo. É assim mesmo que funciona. Alguns ingredientes estragam-se. Algumas coisas não funcionam bem na cozinha. É um processo de tentativa e erro. É um processo contínuo.
Como é que imagina Macau em 2049?
Nem consigo imaginar como poderá ser. Poder-se-ia prever com confiança que certas coisas não mudariam nos últimos 25 anos, como alguns dos sítios históricos e a sua conservação? Essas coisas não vão mudar. Não vão mudar de forma significativa. Não consigo prever, porque fisicamente está tão diferente do que era há 25 anos. Para mim, a ideia de, nos Novos Territórios, em Hong Kong, entrar num autocarro e ir para uma ilha artificial e depois entrar numa ponte e passar para o outro lado para ir para Macau, seria uma loucura há 25 anos, porque Macau era um sítio onde se ia de barco. E agora, eu não apanho um ‘ferry’ desde então. É difícil prever essa forma de mudança.
E depois de 2049? As autoridades centrais irão respeitar a forma de vida de Macau e a língua portuguesa, por exemplo?
Tudo o que posso dizer é que 25 anos é muito tempo na política de qualquer país. E quando se fala em Governo Central em 2049, como será o Governo Central? Será o mesmo de hoje? Será muito diferente? Quer dizer, não é possível prever. Está tudo um pouco dependente de uma suposição em relação a um futuro que não se pode sequer começar a prever.












