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      Alfredo Cunha: Retratos de um continente em transição em exposição no Rota das Letras

       

      Luz e Luta. Parte do 14º Festival Literário de Macau – Rota das Letras, a nova exposição do fotojornalista Alfredo Cunha celebra 50 anos das independências dos Países Africanos de Língua Portuguesa, nos seus 50 anos de carreira fotográfica. Com imagens de países como Angola e Moçambique, a mostra, curada por João Miguel Barros, é organizada em cinco temas que exploram o processo de independência destas nações em rápido crescimento. A apresentação enriquece o festival através da fotografia, promovendo um diálogo sobre identidade cultural e memória histórica, sem se limitar às palavras.

       

      O 14.º Festival Literário de Macau, que decorre de 21 a 30 de Março, destaca-se pela sua temática centrada na poesia, nas suas diversas formas de expressão e, este ano, pela celebração do 50.º aniversário da independência dos Países Africanos de Língua Portuguesa. A série de eventos proporciona uma plataforma única para a reflexão sobre a literatura e a cultura, e cada vez mais, a poesia que se encontra nos contrastes da fotografia.

      Este ano o festival inclui uma exposição do renomado fotojornalista português Alfredo Cunha. Intitulada “Novas Independências”, a mostra reúne uma selecção de 52 imagens cuidadosamente seleccionadas do seu arquivo, capturadas ao longo de quase cinco décadas e oferecem um testemunho gráfico dos processos de independência em várias nações africanas.

      Imortalizado pela sua fotografia de Salgueiro Maia durante aquela quinta-feira icónica, Alfredo Cunha, natural de Celorico da Beira e nascido em 1953, iniciou a sua carreira na fotografia profissional em 1970. A sua trajectória profissional inclui colaborações com diversos jornais e agências noticiosas, sendo mais notável a sua posição como fotógrafo oficial dos presidentes Mário Soares e António Ramalho Eanes. Ao longo dos anos, Alfredo Cunha tornou-se uma referência no fotojornalismo em Portugal, tendo documentado eventos históricos de relevância ímpar, desde os eventos que deram origem à Revolução dos Cravos, aos conflitos da Guerra Colonial e suas reminiscências. As suas obras são reconhecidas não apenas pela qualidade estética, mas também pela sua capacidade de captar a essência dos momentos cruciais que moldaram a história contemporânea de Portugal e das suas ex-colónias.

      Conforme destacou em declarações ao PONTO FINAL, as fotografias expostas em Macau abarcam uma vasta gama de locais e eventos. “São fotografias de África feitas em Angola, Guiné, Moçambique, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor, fotografadas entre 1973 e 2019”, explicou Alfredo Cunha. Esta selecção não seria apenas um exercício fotográfico, mas uma viagem através da memória colectiva, um registo das complexidades e desafios das transições políticas e sociais vividas pelos vários povos e nações envolvidos, destacando a sua trajetória em busca da autonomia e de uma identidade cultural, após 500 anos de colonização.

      O curador da exposição, João Miguel Barros, enfatizou a magnitude deste trabalho. “Esta exposição é um desafio que eu acho que vai ser fabuloso, e é um projecto que estou a trabalhar já há algum tempo com o fotógrafo também”, comentou Barros. A ideia inicial era realizar uma grande exposição, que foi adiada devido a questões logísticas, mas esta versão sectorial oferece uma perspectiva nova sobre um tema que é contemporâneo e atemporal, além de ser uma selecção de imagens especial. “Alfredo é um dos grandes fotógrafos portugueses, com mais de 50 anos de carreira celebrada… e o ponto de partida foi, basicamente, o 50.º aniversário das independências”, destacou o curador.

      João Miguel Barros dividiu a exposição em cinco temas: “Lugares”, “Armas”, “Partidas e Novas Chegadas”, “Pessoas” e “Rituais”. Esta estrutura não apenas categoriza as fotografias, mas também oferece uma narrativa que interliga as diversas dimensões da experiência colonial e pós-colonial. “É um pouco mais conceptual e foi baseado nesta subdivisão que se construiu esta exposição das novas independências”, disse, ressaltando a intenção de proporcionar aos visitantes uma compreensão profunda dos contextos e significados por detrás das imagens, no estilo já reconhecido de Cunha, com alto contraste e todas a preto e branco.

      A importância de apresentar esta exposição em Macau é ressalvada por Alfredo Cunha, que mencionou: “Macau é uma parte da China onde ainda se fala português, e a importância da China em todas as áreas, nomeadamente a cultural, não pode ser ignorada”. Esta conexão linguística e cultural torna a exposição particularmente relevante para o território, oferecendo um espaço para reflexão sobre as histórias não contadas das independências africanas e a sua relação directa com a presença portuguesa.

      A exposição será inaugurada no dia 21 de Março, em sintonia com a abertura oficial do festival, no Antigo Matadouro da Barra, e ficará exposta ao longo do evento, permitindo que os visitantes se imerjam nas narrativas visuais propostas por Cunha.

      Alfredo Cunha não estará presente durante a abertura, mas este diálogo necessário sobre a história, o colonialismo e as novas independências, terá a presença do curador, João Miguel Barros, durante a abertura. Uma oportunidade ímpar para o público de Macau se conectar com a narrativa visual de um dos mais significativos fotojornalistas portugueses, enquanto se celebra a literatura e a poesia como formas de resistência e expressão cultural.