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      Homem sem fronteiras

      Depois das duas sessões apresentadas na passada sexta-feira e sábado, o PONTO FINAL falou com os protagonistas de “Projecto D’Homem” sobre o espectáculo e sobre o que é ser homem.

      “Nós continuamos a viver numa sociedade falocrática, nem sempre se ouve falar publicamente dos problemas de ser homem”, afirma Vera Paz. “Os homens escondem os seus sentimentos, não é fácil entrar no coração de homem. Sempre há mais temas de mulheres, e o tema dos homem é mais diluído, os homens de alguma maneira também sofrem com alguns estereótipos, é importante questionar e falar sobre esse problema”, acrescenta Vera Paz, directora artística da Associação Cultural d’As Entranhas Macau, ao PONTO FINAL, justificando o motivo pelo qual quis trazer a peça de teatro “Projecto D’Homens” para Macau.

      O espetáculo trilingue estreou na semana passada, com duas sessões respectivamente na sexta-feira e sábado, no Teatro Caixa Preta do Antigo Edifício de Tribunal, interpretado por três actores masculinos locais, Jorge Vale, Kelsey Wilhelm, e Machi Chon.

       

      Recriação da realidade

      A peça original, com o mesmo título, foi feita em 2017 em Portugal, encenada por outro encenador da D’as Estranhas, Ricardo Moura, porém, Vera Paz ressalva que o espectáculo realizado em Macau não é uma “adaptação”, mas uma “recriação”. “O que foi apresentado em Portugal, foi feito por cinco homens, com 50 anos, não tem rigorosamente nada ver com o que fazemos em Macau, é um universo diferente, o texto e a guião também diferentes, tem uma identidade muito própria. A única coisa que mantive foi a estrutura, com base no mesmo conceito de falar do que é de ser homem,” salienta a dramaturga portuguesa.

      Vera Paz salienta que “uma das mais valias deste espetáculo é que é em três línguas, português, inglês, cantonês, revela a identidade de Macau”. Mesmo sendo uma peça trilingue, a encenadora insiste em não adoptar qualquer forma de intervenção linguística. Ou seja, não tem tradução simultânea, nem legendagem, nem dobragem. Os actores falam nas suas próprias línguas, nem se traduzem uns aos outros. A encenadora defende que, “a tradução nunca é como autêntica e genuína, porque todos nós reflectimos naturalmente na nossa língua materna”.

      Mesmo que os actores falem nas suas línguas próprias, a encenadora admite que, independentemente de o público ser cantonês, inglês ou português, as energias passam, rompem as paredes destes muros. Afinal, “todas as humanidades partilham sentimentos em comum”.

       

      Experiência extraordinária

      Machi Chon fala cantonês, Jorge Vale fala português, Kelsey Wilhelm fala inglês.

      Como os três actores falam línguas diferentes, com distintos antecedentes culturais, representam também diferentes faixas etárias, os três homens no palco concordam que a dificuldade principal é a barreira linguística. Entre eles, a comunicação foi feita em inglês.

      Machi, que tem uma experiência desde 2009 nos palcos de teatro, participa pela primeira vez num grupo de teatro não-chinês. A participação na peça lembrou-o da “paixão” que estava esquecida. Já Jorge Vale e Kelsey Wilhelm são estreantes no teatro e tentaram fazer comparações com o cinema.

      Jorge Vale refere que, diferentemente do cinema, o teatro é mais vivo e real como “recruta da tropa”, cada sessão é única, irrepetível. No início, isto assustou o ex-apresentador português da Rádio Macau. Ao seguirem as direcções da encenadora, o espectáculo ganhava forma a cada ensaio.

      Kelsey confessa: “Isto é um enorme passo de cinema para o teatro. Desaprender tantas coisas e aprender completamente outra coisa. A personagem tem de projectar uma emoção, força e poder que os espetaculares consigam reconhecer.

      O músico e escritor norte-americano acrescenta: “Nesta peça, como criação conjunta, nós escrevemos o guião em conjunto, há tanto de nós no guião, não obstante as personagens serem fictícias. A peça fez perguntas profundas e colocou-nos na situação desconfortável e falar das coisas em que não queremos tocar. Mergulhar dentro de nós próprios e sair algo que podemos transmitir aos espetaculares. Foi intensivo. Muitos de nós ficámos acordados à noite depois do ensaio para reflectir sobre o que nos descobrimos”.

      Ao questionar a timoneira da d’As Estranhas se há algum plano futuro para expandir o projecto ou se há a possibilidade de esta peça estar mais tempo em cena, a directora artística deu uma resposta positiva sem hesitar. Vera Paz mostra também ambição de criar uma companhia de teatro profissional em Macau no futuro próximo, mas também confessa que não é fácil. Vera afirma que, apesar da existência de muitas associações de teatro em Macau, são raras as que se autossustentam.

      Kelsey enfatiza a importância do apoio do Governo para fazer o projectos culturais em Macau que sejam sustentáveis: “Qualquer teatro comercializado, mesmo que financiados por casinos, ainda não são rentáveis o suficiente para a sobrevivência. Precisamos ainda do apoio do Governo”.Depois das duas sessões apresentadas na passada sexta-feira e sábado, o PONTO FINAL falou com os protagonistas de “Projecto D’Homem” sobre o espectáculo e sobre o que é ser homem.