A já estafada conversa sobre o valor de uma imagem frente às palavras, ou vice-versa, servirá para arrumar discussões com uma frase feita, mas pouco ou nada diz sobre as relações que estabelecemos com cada uma dessas linguagens, a pictórica e a verbal. Tão pouco acrescenta alguma coisa à complexa teia de operações que permitem criar uma imagem ou um texto e comunicar. Fugindo dessa simplificação e do maniqueísmo que dela deriva, conversámos com João Fazenda a propósito do seu mais recente livro, Arena – Cartoons 2004-2024 (Tinta da China), que reúne uma vasta selecção de cartoons criados nas duas últimas décadas. Essas imagens têm acompanhado as crónicas semanais de Ricardo Araújo Pereira, primeiro na revista Visão, agora na revista do Expresso, e para além de oferecerem um belo palco para a reflexão sobre os muitos modos como as imagens nos interpelam, compõem uma rica panorâmica da actualidade portuguesa e internacional ao longo de vinte anos. Os temas e os problemas que se repetem, os protagonistas que persistem e o modo como vamos reagindo colectivamente a tudo isso fazem deste Arena uma bússula imprescindível para nos orientarmos neste admirável mundo, nem sempre novo, onde vamos existindo.
Nesta edição acolhemos ainda um conjunto de notas de viagem da jornalista Catarina Domingues. E dizer “notas de viagem” é já afunilar um texto que tem outras ramificações e vários cruzamentos, muito para lá do registo das deslocações pela China ou por outras paragens. Entre Dahebei (Guangxi), Wuxi (Jiangsu) e Coreia do Sul, viajar não passa apenas pelos passos que se dão ou pelas águas que se atravessam, mas igualmente pelas leituras que vamos convocando para o caminho e até pelos itinerários que não chegamos a fazer.
Num jornal, não é incomum que as suas secções estabeleçam relações imprevistas, um pouco como acontece nas deambulações por uma qualquer biblioteca. Entre diferentes linguagens que criam e expressam ideias e percursos cruzados que vão definindo itinerários mais ou menos surpreendentes, acrescentamos a esta edição uma leitura do mais recente livro de Djaimilia Pereira de Almeida, o Livro da Doença (Relógio D’Água), onde as contaminações desencadeadas por cada pensamento e cada gesto são matéria para muitas páginas.
A tudo isto se juntam as habituais crónicas que mensalmente habitam as páginas deste suplemento, bem como as diversas sugestões de leitura para todas as idades, cuidadosamente escolhidas entre a avalanche de livros que mensalmente ocupam os escaparates.. Regressamos em Março para mais leituras. Até lá, que o ano da serpente seja auspicioso como uma biblioteca por desvendar, é o que desejamos.








