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      InícioEntrevista“A barreira de marca chinesa é um falso problema”
      Francisco Geraldes

      “A barreira de marca chinesa é um falso problema”

      O SUV U5 da Aiways vai tornar-se no primeiro carro eléctrico chinês à venda no mercado português, a partir da Abril. O administrador da distribuidora Astara em Portugal, Francisco Geraldes, reconhece que “os construtores chineses estão tecnicamente mais avançados e têm mais experiência nestes produtos”. Espera a curto prazo vender pelo menos mil destes carros ao ano.

      Hélder Beja, em Lisboa

       

      Primeiro havia os restaurantes e as lojas, quase de todas com produtos baratos vindos da tal “fábrica do mundo” low cost que a China foi por muitos anos. Depois vieram os telemóveis, os computadores e toda a sorte de gadgets (e sim, os grandes investimentos também). As coisas mudaram depressa e agora chega o momento de os primeiros carros eléctricos chineses, da marca Aiways, começarem a circular nas estradas de Portugal.  Cabe à distribuidora Astara lançar o SUV EV5 no mercado português. Em entrevista ao PONTO FINAL, o administrador Francisco Geraldes, põe o SUV U5 “em linha com o que há de melhor no mercado”.

       

      – Como surgiu a oportunidade e depois a decisão de comercializar os veículos eléctricos da Aiways?

      – A Astara é um grupo de distribuição e o que faz é isto: tentar fazer crescer os seus negócios, ou através de marcas tradicionais ou a ajudar marcas novas a estabelecerem-se em mercados novos. A Aiways apareceu-nos por contactos noutros países, começámos a estudar a marca em conjunto e acabámos por demonstrar interesse comum em lançar os seus produtos em Portugal e Espanha, e noutros países da Europa.

       

      – Está previsto que o primeiro carro comece a ser comercializado em Abril. Fale-nos deste SUV U5.

      – Já temos alguns carros cá e até já temos carros encomendados. A nossa expectativa é arrancar nos meses de Abril, Maio e Junho. A marca é uma marca nova, e foi aliás uma das coisas que nos atraiu no projecto da Aiways. Não é um construtor histórico como há outros, quer europeus, americanos ou chineses. É uma empresa nova, constituída em 2017, com pessoas com muito conhecimento do sector, mas uma marca sem história e que está única e exclusivamente focada nos produtos eléctricos, com um mapa em branco, apenas focada naquilo que o mercado quer, que os consumidores querem. Temos gostado bastante do ‘approach’ que têm ao negócio e da ambição que têm. Vão começar com este U5, um SUV bastante grande. Teremos durante este ano a introdução de um segundo carro que se chamará U6, um SUV de dimensões semelhantes mas num formato um bocadinho mais coupé. Depois, há um plano de desenvolvimento de produtos para o futuro que é bastante interessante, com um ciclo de produto com potencial a médio prazo.

       

      – O que destaca deste primeiro carro?

      – É um SUV familiar, com muito espaço interior. Tecnicamente o carro está em linha com o que há de melhor no mercado. Há uma aposta grande na digitalização de toda a utilização do veículo, todos os comandos são digitais, com os benefícios que isso traz; a autonomia e uma performance mais do que em linha com o mercado; a sua insonorização. É preciso experimentar o carro [para perceber as suas características], mas eu diria que é um carro muito em linha ou até bastante avançado para o que há no mercado neste momento.

       

      – Tinham previsto vender 300 carros neste primeiro ano. Mantêm essa expectativa?

      – Mantemos. A ambição a curto prazo, dois anos, é que a marca consiga estar a vender perto de mil carros por ano. Depois, para a frente, conforme o ciclo de desenvolvimento de novos produtos, esses números podem aumentar. Este será um ano atípico, com bastantes constrangimentos que transcendem isto – constrangimentos logísticos, de transportes, de produção. É um ano de lançamento. Se fizermos 200, 300 ou 400 [vendas] não é isso que trará sucesso ou não. Mas acreditamos que rapidamente podemos estar a vender mil carros por ano em Portugal.

       

      – Está prevista a abertura de dez concessionários da Aiways este ano em Portugal. É assim?

      – A ideia não é arrancar num formato tradicional de concessão, mas num formato de agência em que os concessionários serão agentes. Estamos a trabalhar com todos os parceiros em todo o país e nas ilhas, para encontrar a melhor solução. Teremos entre dez a 14 [agências] para cobrir todo o território nacional e ilhas. Em Maio já teremos toda a rede completamente definida e pronta para arrancar.

       

      – Que tipo de iniciativas estão a ser pensadas para lançar este carro?

      – Estamos agora a começar, com os carros que temos, a dar o produto a experimentar à imprensa, a alguns clientes frotistas, às empresas gestoras de frotas, clientes públicos, câmaras [municipais] – uma série de programas para introduzir e dar a conhecer o produto. Nesta primeira fase, é muito importante que toda a imprensa especializada possa conhecer o produto. Embora a empresa Aiways já tenha começado há algum tempo, é difícil falar de uma marca nova, de um produto novo, sem as pessoas verem carro. Estamos agora a fazer esse trabalho e a mostrar os carros a todas as entidades e pessoas.

       

      – Esta não é a primeira marca automóvel chinesa que a Astara traz para Portugal, já acontecera com a Maxus. Os consumidores estão preparados para os carros chineses, no sentido de os receberem bem e sem desconfiança?

      – Os consumidores querem produtos que se adaptem às suas necessidades, que sejam tecnicamente em linha com o que pretendem, mais do que propriamente perceber se o carro tem origem A, B ou C. Hoje em dia vendem-se em Portugal carros americanos, coreanos, europeus… Vendem-se televisões coreanas e chinesas, há 20 anos só se vendiam televisões japonesas. A barreira de que se fala, de o carro ser chinês ou não chinês, é uma barreira que as marcas têm um trabalho a fazer, têm de mostrar que os serviços são competentes. Eu penso que junto dos consumidores, com produtos e marcas que prestem os serviços em linha com o que há no mercado, a barreira país não vai existir, como não existiu com outros países que não vendiam produtos neste sector e passaram a vender. Os coreanos também tinham essa dificuldade, hoje em dia a KIA e a Hyundai são referências na Europa, temos componentes da BMW que são produzidos na China… Penso que o importante é o produto ser em linha com o mercado –  quer em termos de design, quer em termos tecnológicos –, os serviços que se prestam aos consumidores serem em linha com o que mercado oferece; e dar garantias, que o cliente tenha conforto e tranquilidade com os produtos e as marcas que está a comprar. Depois, as marcas competem umas com as outras, os clientes é que vão decidir se compram ou não os produtos e as marcas. Quanto à experiência com a Maxus, tem sido bastante positiva, a barreira de marca nova ou marca chinesa é um falso problema. Obviamente que os clientes querem conhecer os produtos, como com qualquer produto novo, querem experimentar, mas não tem sido uma barreira como se poderia imaginar.

       

      – Há quanto tempo têm a Maxus no mercado português?

      – A Maxus começou aqui no ano passado, já temos a rede construída. A Maxus é um projecto diferente, pertence à SAIC, o maior construtor chinês. A reacção ao produto foi bastante positiva, mas eles tiveram bastantes problemas na produção de carros e problemas logísticos. O projecto está um bocadinho atrasado, diria que só conseguiremos ter um ritmo mais normal de vendas a partir do Verão.

      – Voltando à Aiways, o U5 vai custar 35.000 euros mais IVA. Parece-lhe um preço apelativo ou proibitivo para o consumidor português? E quem é o consumidor-alvo deste tipo de carro?

      – O preço poderá até ser um bocadinho melhor, estamos a ultimar isso. Em relação ao cliente-alvo, em Portugal existe uma fiscalidade verde que tem alguns benefícios quer no imposto de matrícula, quer na tributação autónoma, que é um imposto que as empresas pagam anualmente por ter um carro na sua frota; e um benefício importante para as empresas, que é poderem recuperar o IVA na compra de um carro eléctrico. Portanto, com esta fiscalidade, obviamente que uma grande percentagem das vendas é feita a empresas ou a empresários e não tanto a consumidores privados onde o carro eléctrico ainda tem um custo bastante mais alto do que um carro a combustão. Com este conjunto de benefícios, o esforço que um cliente de empresa tem de fazer para comprar um carro eléctrico é menor. O cliente-alvo é claramente um cliente que goste de espaço, que goste de um ambiente moderno dentro do carro, que avance para a electrificação. Carros desta dimensão, com esta autonomia, com esta performance e com este espaço interior, penso que vai ter na Aiways uma alternativa muito competitiva em relação ao resto do mercado.

       

      – Falava de autonomia. Estes veículos são carregados com que tipo de sistema?

      – Podem ser carregados tanto com carregadores normais como com um carregador rápido, têm as duas opções e estarão adaptados às soluções que há no mercado.

       

      – E em termos de manutenção, tratando-se de mecânica e tecnologia chinesa, como é prestado esse apoio?

      – Vamos ter uma rede de assistência, uma rede de reparadores autorizados totalmente equipada. Penso que é uma das coisas onde nós Astara podemos da um apoio grande a uma marca nova: não fazer o caminho das pedras a criar uma rede mas de um dia para o outro abrir em todo o território nacional uma rede com know-how em veículos eléctricos, como todas as ferramentas e com todos os equipamentos de diagnóstico, com a capacidade logística de entregar peças e de assistir os clientes em todo o país de um dia para o outro. Mas também é preciso falar da electrificação em Portugal, um bocadinho a dois ritmos. Num primeiro momento parece que o país fez um grande esforço em termos de infraestrutura quando não havia carros eléctricos. Depois, um período que – se calhar fruto das diversas crises que houve – se avançou muito pouco na infraestrutura pública e privada, mas em paralelo avançou-se muito na indústria. Há dez anos, quando se começou a criar postos de carregamento, não havia carros. Hoje em dia é o inverso – todos os construtores têm produtos eléctricos, o numero de carros eléctricos começa a ser muito interessante e o país tem de acelerar os desenvolvimentos na infraestrutura pública e privada, porque se não vamos estar limitados, os consumidores que não tenham como carregar um carro, não vão comprar um carro eléctrico.

       

      – A China tem já um papel importante em muitas indústrias ligadas às energias renováveis e os carros eléctricos são disso bom exemplo. Como vê o papel da China hoje em dia nesta indústria?

      – A China é o maior mercado automóvel do mundo. Da mesma maneira que todos os construtores do mundo querem participar no mercado chinês –  e vê-se os construtores europeus a adaptarem-se e a fazerem produtos específicos para o mercado que se adaptem às características do mercado chinês –, também é normal que surjam construtores chineses que queiram participar nos mercados fora da China e é o que se vê acontecer. Seria um bocadinho anormal que o país que tem o maior mercado automóvel do mundo participasse pouco fora do seu próprio mercado. No passado se calhar havia várias barreiras que dificultavam essa participação dos construtores chineses – questões regulamentares que criaram algumas dificuldades quando a estratégia das marcas chinesas era adaptar produtos aos mercados internacionais –, mas hoje em dia há uma combinação de dois factores que vai ajudar a que os construtores chineses tenham mais sucesso: a electrificação abre uma oportunidade para os construtores chineses, que de facto estão tecnicamente mais avançados, têm mais experiência nestes produtos, vendem-nos e utilizam-nos há mais tempo, têm uma indústria mais preparada para construir carros eléctricos. Por outro lado, penso que o tempo em que os construtores chineses tentavam adaptar produtos para vender fora, já não é a realidade actual – hoje o que se vê é os construtores chineses a desenvolver produtos especificamente para se venderem nos mercados europeus, na América Latina ou onde querem participar. A combinação destes factores trará mais construtores e os que tiverem bons produtos e bons serviços vão ter sucesso a vender os seus carros.