EDITORIAL #89

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Discutir a ficção ou a realidade dos textos a que chamamos literatura é um engano. Aquilo a que chamamos realidade terá tanta consistência quanto o tempo, que a física quântica há muito confirmou ser uma ilusão. Num dos seus poemas, «Dona Doida», a mais recente laureada com o Prémio Camões, Adélia Prado, escrevia:

«Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,

trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.

A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,

com sombrinha infantil e coxas à mostra.»

Na ânsia de tudo arrumar em tabelas, cronológicas ou classificativas, arriscamos deixar escapar esse mistério maior, o de sermos o que somos porque existe linguagem, essa ferramenta extraordinária que nos coloca perante a consciência da morte, mas que também permite um desafio sólido da finitude a partir das histórias que contamos (aos outros ou a nós, escrevendo-as ou não). Nesta edição, conversamos com Sandro William Junqueira, escritor português que acaba de lançar o seu sexto romance, Emídio e Ermelinda (Caminho), um texto que assume a memória como a maior das ficções, empurrando a realidade para fora do espaço literário.

Também de memória se fazem as crónicas que Dora Nunes Gago reuniu no livro Palavras Nómadas (Húmus), vencedor do Grande Prémio de Literatura de Viagens Maria Ondina Braga. Cronista regular deste suplemento (fica registada a declaração de interesses), a autora partilha em entrevista algumas das reflexões que ajudaram a dar forma aos textos deste livro, muito baseado em viagens e sobretudo no impacto que estas foram tendo sobre uma ideia de identidade e enraizamento, coisas tão plásticas como a própria memória e sempre sujeitas às vivências que se vão acumulando. Parte dessas vivências passam por Macau, onde Dora Nunes Gago viveu quase uma década, experimentando a contradição da familiaridade e do estranhamento, às vezes no mesmo minuto.

Assumindo que o próximo mês será de férias para muitos leitores, deixamos as habituais sugestões de livros recentemente publicados, alguns a pensar nos mais novos, todos óptimas companhias para a merecida pausa laboral. Regressamos em Setembro para dar conta dos livros que hão-de encher as livrarias na sempre animada rentrée editorial.