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      Efemeride

      Efemérides camonianas I – A possível data do nascimento de Camões

      Felipe de Saavedra

      No mês de janeiro passado a Universidade de Coimbra anunciou solenemente o dia do nascimento de Luís de Camões. A revelação teve lugar «a 23 de janeiro na Sala de São Pedro da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra», coincidindo com a data indicada. Carlota Simões, que protagonizou o ato público, baseou-se nas Memórias astrológicas de Luís de Camões, um estudo aliciante de Mário Saa publicado em 1940 e reeditado em 1978.

      O poeta caldense tinha há mais de oitenta anos proposto aquela solução para o enigma que paira sobre o dia natalício do Poeta, mas não obteve grande acolhimento até a Universidade de Coimbra vir por fim consagrar a mencionada conjetura. A tese de Saa partia do soneto de Camões «O dia em que eu nasci morra e pereça», onde ele lobrigava uma alusão do Poeta a um eclipse sobrevindo no dia do próprio aniversário:

      «Não torne mais ao mundo…». Mas, o mesmo dia voltou ao mundo, e logo ao voltar no ano seguinte, houve eclipse de Sol: «Não torne mais ao mundo, e se tornar, / Eclipse nesse passo o Sol padeça». [Saa 1978:19-20].

      Pesquisando os eclipses dos anos vinte do século XVI, Saa encontrou o do dia 23 de janeiro de 1525. Se esse fosse também o dia do primeiro aniversário do lactante Luís, isso significaria que o nascimento dele se dera a 23 de janeiro de 1524.

      Porém aceitar, com ou sem reservas, que aquele soneto contém uma alusão à efeméride genetlíaca do seu autor, não implica anuir à data proposta em Coimbra. Em primeiro lugar, porque a probabilidade de alguém conservar alguma memória, ou sofrer algum impacto duradouro, de um espetáculo presenciado quando ainda mal gatinhava é nula. Mesmo que esse alguém fosse Camões — Manuel Peres, Diretor do Observatório Astronómico de Lisboa, já chamara a atenção de Saa para esta incongruência etária: «ele não fazia observações astronómicas (sobretudo ao nascer)». [Saa 1978:177].

      Por outro lado, as palavras do soneto de Camões não restringem o eclipse a um acontecimento que caiu no dia do primeiro aniversário dele: não seria «o» aniversário, mas «um» aniversário, entre os mais de meia centena possíveis. O que de caminho já desautoriza aquela data proposta.

      A segunda objeção, esta definitiva, é que o eclipse indicado por Saa não foi visível em parte alguma do Reino de Portugal, mas apenas em Espanha e em Marrocos. Algo que Carlota Simões não se deu ao trabalho de verificar nos mapas dos eclipses, ou até ao ler o próprio Saa, que astuciosamente escrevera:

      Efectivamente, no 23 de Janeiro seguinte houve um eclipse do Sol, às três horas da tarde, e que ensombrou o ocidente da Europa e o noroeste de África. [Saa 1978:20].

      Reconhecidamente, o «Ocidente da Europa e noroeste de África» não são, de facto, Portugal. Com esta formulação Saa disfarçou a debilidade da sua tese, sustentando uma data que é, por estas duas razões, insustentável. Induziu em erro o leitor desatento àquelas palavras, ou quem não se desse ao trabalho de examinar os mapas de visibilidade dos eclipses, e nestas duas faltas incorreu Simões.

      Cabe então perguntar se existe um outro eclipse a que Camões pudesse estar a aludir no soneto como sendo aquele que ocorreu em algum dos dias dos seus aniversários. É possível pesquisar nos sites de astronomia as visibilidades de todos os eclipses do passado, e em cada um dos territórios do globo. Basta então fazer uma busca pelos eclipses solares totais e anulares de que Camões foi testemunha, abrangendo todas as localidades camonianas, tanto do Reino como do Índico, Ásia e África. Ou seja, Portugal até 1553 e após 1570, Ceuta nos finais dos anos 40 e, segundo a cronologia respetiva, Goa e Coxim, Abissínia e Arábia, Malásia e Indonésia, Hainan e Macau, Camboja e Vietname, Moçambique e Açores. Após o cruzamento de todos os dados astronómicos, geográficos e biográficos, sobressaem duas possibilidades: o eclipse anular de 14 de fevereiro de 1561, visível ligeiramente acima de Goa, e o de 25 de fevereiro de 1579, com plena visibilidade em Lisboa (como se vê nas imagens da NASA).

      Em termos astronómicos, o último eclipse seria o candidato preferencial, ao incidir plenamente na capital do Reino, onde o poeta vivia em 1579: https://www.solar-eclipse.info/en/eclipse/location/1579-02-25/32459-Lisbon/ Já a zona de visibilidade do eclipse oriental restringe-se à região imediatamente a norte de Goa, passando portanto à tangente do local habitado por Camões em 1561.

      Na próxima entrega desta série dedicada às efemérides camonianas, a publicar na edição online do Ponto Final no âmbito deste ciclo comemorativo, iremos examinar as razões que militam a favor e contra cada uma destas duas datas, que por mero acaso caem ambas no mês de fevereiro.

      Ponto Final
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      Redacção do Ponto Final Macau