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      CRÍTICA

       

      AAVV

      20 Filmes Fundamentais do Cinema Português

      Universidade da Beira Interior

      Novos olhares sobre o fundamental do cinema português

      Podemos passar – e por vezes passamos mesmo – largas gerações a ler, a ver e a escutar aquilo que nos foi dito ser o cânone, o essencial da literatura deste país ou do cinema daquele continente, da discografia pop britânica ou da filmografia japonesa. Fazemo-lo e, se tivermos um olhar pertinaz, não quer isto dizer que assumamos de imediato como definitivas aquelas listas, cuidando que tudo ali é bom, que tudo ali está vivo para ser pensado e discutido. O que raramente acontece é o passo seguinte: que as novas gerações, acossadas por seja que ordem de razões, decidam sentar-se a escrever o seu próprio discurso sobre esse cânone, a reavaliar o cânone e, também, a trazer para essa torre de cristal novos elementos até então nem sequer considerados. Foi isso que um grupo de cinco jovens investigadores da Universidade da Beira Interior, estimulados pelos seus mentores, decidiu fazer neste 20 Filmes Fundamentais do Cinema Português.

      Um livro desta natureza tem desde logo o condão de todas as listas: fazer-nos apontar que filmes já vimos e, portanto, ler sobre o que conhecemos; renovar a nossa curiosidade ou a nossa vergonha por estarem ainda por ver obras centrais da cinematografia nacional; ou apresentar-nos pela primeira vez textos sobre filmes sobre os quais apenas tínhamos ouvido falar vagamente ou que desconhecemos por completo.

      «Os 20 filmes que o presente livro apresenta como sendo os 20 fundamentais do cinema português podem não ser ou fazer parte de um cânone, nem de nenhuma playlist, ou melhor, de nenhuma filmlist, mas fazem, seguramente, parte da escolha genuína de um conjunto de cinco jovens espectadores que, constantemente, descobrem o cinema português» (p.10), explica-se na introdução desta obra coordenada por Paulo Cunha e Manuela Penafria. E acrescenta-se uma nota importante sobre o caso específico do cânone em Portugal: «Particularmente no cinema português, entendemos que não existe uma efectiva tradição democrática no estabelecimento de quais são as suas obras de referência. No período da ditadura fascista, apesar de algumas tentativas de afirmação de uma crítica de cinema independente, foi essencialmente o Estado, através das suas estruturas de censura e de propaganda, que estabeleceu o cânone cinematográfico nacional, atendendo sobretudo a parâmetros ideológicos» (p.11).

      Com o intuito de refrescar o cânone luso, foi pedido aos bolseiros «que escolhessem os filmes que quisessem e sobre eles elaborassem um texto tendo em consideração a) o enquadramento do filme na história do cinema português e as suas condições de produção; b) a relação do filme com a história mundial do cinema e/ou género a que pertence; c) a inovação estética no âmbito da linguagem cinematográfica e/ou marcas autorais presentes no filme» (p.12). O resultado, como seria mais que provável, é desequilibrado, mas não deixa de ter momentos de interesse.

      Na capa da obra aparece uma imagem de O Movimento das Coisas (1985), de Manuela Serra, obra recuperada para os novos públicos nos últimos anos, tendo passado até pelas salas de cinema portuguesas em 2023. O filme rodado por Serra na aldeia de Lanhezes, Viana do Castelo, recebe a atenção de um dos autores desta colectânea, Diogo Meireles Costa, que nos fala da realizadora, «uma mulher citadina, saturada da vida na cidade, [que] decide que o seu primeiro filme seria filmado no campo» (p.88). O jovem autor considera a obra «uma notável demonstração da sua dedicação pessoal e artística, um olhar meticuloso e atento a todos os movimentos, a todas as pessoas e a maneira como os movimentos das pessoas influenciam as coisas e as movem» (p.89). O breve ensaio foca-se no modo como a cineasta lança o seu olhar etnográfico sobre aquela comunidade rural e arrisca defini-lo: Serra busca as rotinas de cada pessoa que filma para, através delas, encontrar traços da individualidade, afirma o autor, aditando que «(…) cada pessoa, mesmo pertencendo a um lugar, ou a um povo, é o seu próprio ser e tem a sua individualidade e a sua forma de fazer as coisas» (p.90).

      As abordagens e as escolhas dos autores ao longo do livro divergem. Hannah Dias, por exemplo, revela um forte pendor para filmes ligados ao período do fascismo e ao período revolução e pós-revolução, escrevendo longamente sobre o mais recente A Fábrica de Nada, de Pedro Pinho, ou sobre Revolução, a curta-metragem da multifacetada Ana Hatherly, uma obra que não filma o povo mas antes «as paredes do novo Portugal» (p.134). «É uma proposta que não só preserva um aspecto relevante da arte portuguesa, que é por sua natureza efémero, que são os murais e cartazes políticos, como também é uma obra de arte por si só, uma colagem feita a partir de fragmentos visuais e sonoros», nota a autora, para quem Revolução «ajuda, com quase 50 anos de distância, a compreender o sentimento de um evento singular na História portuguesa». Neste artigo, Dias faz um repasso do cinema do período revolucionário e dos seus motivos, nota o parentesco do filme de Hatherly com Paredes Pintadas da Revolução Portuguesa, de António Campos, e de obras como Torre Bela e As Armas e o Povo.

      Noutro texto desta colectânea, a mesma autora discorre sobre Onde Bate o Sol, obra menos conhecida de Joaquim Pinto. Este será porventura um dos melhores momentos do livro, numa análise que toca novamente aspectos como o trabalho, a ruralidade e a oposição cidade-campo como definidora de uma certa «identidade nacional», muito presente num certo Portugal pré e pós-revolução. Mas Dias vai mais além, tocando porventura o aspecto mais fracturante do filme de Pinto, tendo em conta o momento em que foi feito: o facto de tratar «a natureza homossexual» da relação de Nuno e Alberto, protagonistas do filme, «um assunto pouco abordado no cinema português desta altura» (p.113).

      Pousada das Chagas, de Paulo Rocha, é outra das ilustres desconhecidas realizações do cinema português que esta colecção destaca. O filme, uma encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian que João Bénard da Costa decidiu entregar ao realizador de Verdes Anos. O texto de Sofia L. Sequeira é uma boa reflexão sobre esta curta onde brilham intensamente os génios artísticos do actor Luis Miguel Cintra e de Paulo Rocha. «Pousada das Chagas parece perguntar de que modo pode o cinema proteger-se do risco de impostura, preocupação relevante para Rocha no momento de transição em que abandona o “cinema tradicional”, apercebido como aberrante e enganador» (p.124), escreve a autora, preconizando a viagem onírica que Rocha e o seu cinema se preparavam para fazer rumo a Oriente e às ilhas que mudariam a sua vida.

      20 Filmes Fundamentais do Cinema Português viaja ainda por filmes como A Aldeia e as Quatro Estações (texto de Cátia Diogo), a animação Água Mole (Tomás Robalo Maia), os clássicos Ala-Arriba! (1942), de Leitão de Barros, e Capas Negras (1947), de Armando de Miranda, Almada Negreiros Vivo Hoje (1969), de António de Macedo; as periferias de Outros Bairros (1997), de Kiluanje Liberdade, Inês Gonçalves e Vasco Pimentel; Três Irmãos (1994), de Teresa Villaverde, Rosa Negra (1992), de Margarida Gil, Parabéns! (1997), de João Pedro Rodrigues, ou o mais recente Venus Velvet (2001), de Jorge Cramez, entre muitos outros. É uma selecção ecléctica e desempoeirada que propõe uma rica viagem cinéfila.