Edição do dia

Sábado, 20 de Abril, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
trovoada com chuva
26.9 ° C
26.9 °
24.9 °
89 %
2.1kmh
40 %
Sáb
27 °
Dom
27 °
Seg
24 °
Ter
24 °
Qua
25 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioEntrevista"O que defendo é levar a guitarra portuguesa para o mundo e...

      “O que defendo é levar a guitarra portuguesa para o mundo e trazer o mundo para o fado”

      Marta Pereira da Costa, a primeira mulher a tocar guitarra portuguesa profissionalmente no fado, vai actuar este sábado, às 21h, no Teatro D. Pedro V. Neste concerto – o seu primeiro em Macau – a guitarrista vai levantar o véu ao álbum que vai ser lançado em Maio, “Sem Palavras”. Em entrevista ao PONTO FINAL, Marta Pereira da Costa assume que, com a sua música, quer criar pontes culturais, levar a guitarra portuguesa ao mundo e incluir o mundo no fado.

      Marta Pereira da Costa, a primeira mulher a tocar guitarra portuguesa a nível profissional no fado, actua este sábado, pelas 21h, no Teatro D. Pedro V, no âmbito do Festival Literário Rota das Letras. Os bilhetes para o concerto de estreia da guitarrista em Macau já estão disponíveis no festival e na Livraria Portuguesa. Em entrevista ao PONTO FINAL, Marta Pereira da Costa recordou o início da carreira e os preconceitos que ultrapassou, salientando que, actualmente, “a história da guitarra portuguesa está a mudar” com o papel mais activo das mulheres. Sobre a junção de outras sonoridades ao fado, a guitarrista defendeu que a música deve criar “pontes culturais”. Em Macau, Marta Pereira da Costa vai desvendar alguns dos temas que vão fazer parte de “Sem Palavras”, o seu segundo disco que será apresentado em Maio.

       

      Aprendeu a tocar guitarra portuguesa aos 18 anos. Como é que surgiu o interesse? Imagino que não seja um instrumento fácil de dominar…

      Não, de todo. O meu pai é um apaixonado por fado e pela guitarra portuguesa e sempre disse que gostava que eu aprendesse. Eu tocava piano desde os quatro anos e comecei a tocar guitarra por sugestão do meu pai. Por mim, não teria tido essa iniciativa. Eu adorei a primeira aula com o Carlos Gonçalves. Ele emprestou-me uma guitarra e, a partir daí, eu pedi para ter mais aulas, para ir com o meu pai às casas de fado, conhecer os fadistas e guitarristas. Ele, todo contente, foi-me proporcionando isso e eu fui cada vez mais tendo vontade de aprender e de tocar melhor.

       

      A dificuldade em dominar o instrumento nunca fez com que se desmotivasse?

      Eu acho que ter tocado guitarra clássica antes ajudou bastante. Já tinha noção do que era tocar um instrumento de cordas. Por isso, na mão esquerda tive facilidade. A mão direita é totalmente diferente, toca-se com duas unhas enquanto na guitarra clássica usa-se os quatro dedos. Mas eu acho que ajudou o facto de já ter o ouvido treinado porque o que nós aprendemos é por tradição oral, imitamos o nosso professor, e também o facto de ter a mão esquerda mais desenvolvida. Ter tido aulas de guitarra clássica ajudou-me no início. É um instrumento difícil. Os primeiros tempos – para tirar um bom som é preciso ter calos nos dedos – são um bocado penosos, é verdade.

       

      Quais as suas inspirações e influências?

      Os guitarristas que me inspiraram e aqueles com quem eu primeiro tive contacto foram o Carlos Gonçalves, o Fontes Rocha, que foi a pessoa mais importante e que mais me deu apoio e confiança, o Mário Pacheco, dono da casa de fado onde eu passava a vida e pedia para ele me ensinar os fados que iam ser ensinados nessa noite. Depois, claro, Carlos Paredes, José Nunes, Carvalhinho, Armandinho. De repente, tinha uma vontade de aprender tudo para ontem, até que me lesionei. Fiz uma tendinite grave porque não parava de tocar e estava sôfrega a tocar, depois tive de ir com mais calma.

       

      Foi a primeira mulher a tocar guitarra portuguesa profissionalmente…

      Nos fados. Nas casas de fado realmente não havia nenhuma mulher a tocar. Mas, antes de mim, a Luísa Amado, mulher do Carlos Paredes, já tocava guitarra de Coimbra.

       

      Foi difícil começar a carreira? Os homens olhavam-na de lado? Ou, por outro lado, isso terá ajudado de alguma forma?

      Tem os dois lados. Quando era novidade e queria aprender, toda a gente achou muita graça e eu sempre me senti muito bem pelas várias casas de fado por onde passei. Em 2012, comecei a assumir isso de forma profissional. Larguei engenharia e quis mesmo arriscar uma carreira como guitarrista. Aí, já ouvi alguns comentários e alguns preconceitos, que diziam que tinha concertos porque era mulher ou porque era bonita. Isso, por um lado, deixava-me triste, mas por outro também me dava uma vontade enorme de trabalhar mais e de lhes mostrar que aquilo que eu estava a fazer não era a brincar e que tinha muita vontade de fazer bem e de mostrar bons concertos. Sim, senti preconceito, mas fui fiel àquilo em que acreditava. Comecei por acompanhar muitos fadistas, tive vários anos em casas de fado a tocar ao máximo para ganhar escola e experiência. Depois, comecei a seguir o caminho que sempre quis desde o início, que foi o caminho instrumental. Eu tanto gostava de acompanhar como de tocar guitarradas, mas depois achei que poderia seguir um papel onde a guitarra tivesse um destaque. A guitarra, quando está a acompanhar fado, tem um determinado papel e tem de o cumprir muito bem – não pode atropelar a voz, tem de servir a voz. Num projecto diferente em que uma guitarra pode ser uma voz, tem um destaque diferente, pode sobressair de forma diferente. Comecei a seguir esse projecto, quis dar uma voz à guitarra.

       

      Porque é que a guitarra portuguesa historicamente tem estado ligada ao universo mais masculino? É uma questão de tradição?

      É uma questão de tradição, foi a história. Às vezes, para mudar a história, é preciso romper alguns preconceitos e, a partir daí, tudo flui mais facilmente. Hoje em dia há muitas mulheres a tocar e a aprender. Já partilhei palco com uma delas que tirou uma licenciatura em guitarra portuguesa, a Mariana Martins. Há a Fernanda Maciel a tocar em casas de fado regularmente, a Luísa Amaro… Acho que a história da guitarra portuguesa já está a mudar.

       

      Tem associado o fado com outras musicalidades, como a música africana, o jazz, por exemplo. São géneros que complementam bem o fado?

      Estão relacionados. O fado também foi evoluindo e bebeu de onde passou. Nos Descobrimentos, nós levávamos as guitarras. Fomos até África e trouxemos riqueza cultural de lá, quando fomos ao Brasil a mesma coisa. O fado foi evoluindo e foi enriquecendo com o tempo, através dos sítios por onde os portugueses passavam. Faz sentido voltar a fazer pontes e levar a guitarra para o mundo. O que defendo é levar a guitarra portuguesa para o mundo e trazer o mundo para o fado. Criar pontes culturais.

       

      Vem a Macau apresentar o mais recente álbum, “Sem Palavras”…

      Eu ainda não o vou apresentar. Ele só vai sair em Maio em Portugal, mas vou já começando a desvendar alguns temas. O disco “Sem Palavras” foi gravado em piano e guitarra, em duo, e eu vou apresentar-me aí em duo mas com guitarra portuguesa e com guitarra clássica. A formatação é diferente. Eu levo o repertório que tenho vindo a tocar em trio, temas do primeiro disco, e vou mostrar alguns dos temas que foram gravados no mais recente disco para ir levantando o véu deste novo trabalho.

       

      E como é que descreveria este novo disco?

      Foi um álbum que fiz com muita calma. Tem quatro composições minhas, tem temas que eu já tinha muita vontade de registar em disco, como “Aranjuez”, de Joaquín Rodrigo, como “Spain”, do Chick Corea, faço uma brincadeira dos “Verdes Anos” e com o “Summertime” do Gershwin. Passa também pelo universo pianístico, que eu transpus para a guitarra portuguesa, são duas linguagens que eu conheço muito bem. Achei que este segundo disco tinha de ser muito familiar para mim, com linguagens que me são naturais e através do qual eu podia afirmar-me mais como compositora e instrumentista. O primeiro álbum foi de apresentação, em que eu quis pôr tudo, muitos instrumentos. Este é mais intimista, mas mais frontal.

       

      Representa melhor aquilo que é enquanto música?

      Sim, sim. Tem também a participação de luxo de um pianista cubano que já ganhou um Grammy latino, o Iván Melon Lewis. Ele elevou o disco para um patamar que eu inicialmente nem estava a contar que fosse chegar. Estou muito feliz com o resultado.

       

      Ao longo da sua carreira tem actuado em vários pontos do mundo. Como é que tem sido a reacção do público internacional à música que faz?

      Tem sido incrível. Surpreendente em todos os sítios. Toquei há uns dias na Austrália pela primeira vez e tinha um mar de gente e a reacção foi incrível. Senti muito apoio por parte do público. Levei para esse concerto 45 discos e eles venderam-se todos, tinha uma fila enorme para autografar e o feedback das pessoas com quem falei foi muito bom. Nos EUA também tem sido assim. Espero que em Macau também me recebam muito bem e que gostem do que tenho para mostrar.

       

      O que é que podemos esperar do concerto do Festival Literário?

      Estou muito feliz por conhecer Macau. A minha mãe nasceu em Macau, o meu avô nasceu em Xangai, tenho muitos primos aí. E eu ainda não tinha tido a oportunidade de conhecer, por isso estou muito feliz e a contar os dias para poder conhecer. O que podem esperar de mim? O que tenho levado para o palco é a minha naturalidade, entrego tudo em palco, adoro a partilha em palco com as pessoas que estão a ouvir e vou ter um espectáculo variado onde vou tentar apresentar o que tenho vindo a tocar e mais coisas novas que também quero partilhar.