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      Início Entrevista "Fui um sortudo por ter estado no campo de concentração quando ainda...

      “Fui um sortudo por ter estado no campo de concentração quando ainda era uma criança”

      Peter Gaspar, sobrevivente do Holocausto, considera-se um sortudo, apesar de ter passado a infância a esconder-se dos nazis e depois no campo de concentração de Theresienstadt, em Praga. Das cerca de 15 mil crianças que ali entraram, só sobreviveram 132 – ele foi uma delas. Agora, em entrevista ao PONTO FINAL, recorda os anos de fome, frio e incerteza que viveu com a família.

       

      Peter Gaspar nasceu em 1937 em Bratislava, na actual Eslováquia. No ano seguinte, os nazis ocupavam a Checoslováquia, obrigando Peter Gaspar e a família a esconderem-se na casa de uma família amiga que correu o risco de os abrigar. Três anos depois, tiveram de se entregar às autoridades nazis. Peter, com oito anos, e a mãe foram levados para o campo de Theresienstadt, em Praga, onde viram milhares de outros judeus a serem levados para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Das cerca de 15 mil crianças que entraram no campo de concentração onde estava, só sobreviveram 132. Em entrevista ao PONTO FINAL, considera-se um sortudo, não só por isso, mas também por ter estado no campo enquanto ainda era criança, não compreendendo todos os medos que os adultos sentiam. Peter Gaspar sentia fome, frio e tédio, conta. A 8 de Maio de 1945, o campo de Theresienstadt foi libertado e Peter Gaspar migrou quatro anos depois para a Austrália onde vive desde então e onde tem partilhado a sua história. Sobreviver ao Holocausto fê-lo aprender a “viver como as coisas são” e não como gostaria que fossem, conta na entrevista, lamentando também a actual onda crescente de movimentos que têm por base o ódio e também o facto de o Holocausto poder tornar-se apenas mais um capítulo dos livros de História num futuro a curto prazo. Peter Gaspar, que deu ontem uma palestra na Universidade de Macau, veio a Macau e Hong Kong partilhar a sua história, a convite do Hong Kong Holocaust and Tolerance Centre.

      FOTOGRAFIA ANDRÉ VINAGRE

       

      Pode contar-nos a sua história, enquanto sobrevivente do Holocausto?

      Eu nasci em 1937, numa altura em que o anti-semitismo na Europa estava a crescer. O anti-semitismo é o ódio mais antigo do mundo. Após a Primeira Guerra Mundial, a Alemanha estava numa situação de depressão económica e havia muito desemprego. Então, o Partido Nacional Socialista – Nazi – explorou isto para impôr a sua agenda de limpeza racial. Eles culpavam os judeus por tudo o que estava errado. Eu nasci em Bratislava, na Eslováquia, e em 1939 começou a Segunda Guerra Mundial. Um ano antes disso, os nazis foram convidados a entrar na Eslováquia, que tinha um Governo fantoche. Foi aí que começou a perseguição aos judeus. A maioria da minha família foi morta num espaço de quatro ou cinco anos em vários campos de concentração. Eu sou filho único; eu, a minha mãe e o meu pai tivemos de nos esconder durante três anos, fomos ajudados por amigos cristãos dos meus pais, que assumiram o risco de nos esconder. Esconder judeus era muito arriscado, a pena para eles seria a morte. Eles tiveram muita coragem. Houve outros problemas, como a falta de comida. Ao esconderem-nos, essa família também partilhava a comida connosco. Nós sobrevivemos assim escondidos, com condições físicas muito difíceis. Estávamos escondidos em cabines no tecto da casa deles.

       

      Que idade tinha, nessa altura?

      Eu tinha cinco anos quando tivemos de nos esconder. Três anos depois, fomos presos e enviados para campos de concentração. Eu fui com a minha mãe e o meu pai foi levado para outro campo de concentração.

       

      Como foi a vida no campo de concentração?

      Em criança, sempre me considerei um sortudo. Não parecia ser assim tão mau. É verdade que eu estava sempre com fome, estava sempre com frio, estava solitário e com medo. Mas eu realmente não sabia o que podia acontecer. Os adultos sabiam que qualquer dia poderia ser o último, mas enquanto criança eu não o sabia. Fui um sortudo por ter estado no campo de concentração quando ainda era uma criança. O campo para onde fomos não era um campo de extermínio, mas era um campo de onde partiam outros transportes para campos de extermínio. A minha mãe vivia com esse medo, mas eu não o sentia.

       

      E o seu pai, o que lhe aconteceu?

      O meu pai foi levado para outro campo, na Alemanha, chamado Sachsenhausen. O meu pai era engenheiro mecânico e, devido às suas aptidões, ele era útil para os esforços de guerra da Alemanha. Ele trabalhava numa fábrica de aviões que fazia bombardeiros. É irónico porque ele ajudava a fazer os aviões bombardeiros que depois nos bombardeavam. Mas foi isso que o manteve vivo.

       

      Mais tarde, o campo foi libertado…

      O campo onde eu e a minha mãe estávamos foi libertado a 8 de Maio de 1945. Pouco depois disso, pudemos ir para casa. Desta vez, num comboio a sério, não num vagão para gado. Felizmente, tínhamos uma casa para onde regressar.

       

      E depois, reuniram-se com o seu pai?

      Nós não sabíamos onde o meu pai estava e, eventualmente, ele acabou por regressar a casa um mês depois. Era um homem diferente daquilo que eu me lembrava.

       

      Qual é a sua memória mais vívida dos anos em que esteve no campo de concentração?

      Fome, frio e tédio. Não havia nada para fazer, não havia qualquer entretenimento, não havia desportos. E, quando estamos entediados e não há nada para fazer, ficamos com mais fome. Não tínhamos mais nada em que pensar a não ser o buraco vazio no estômago. Sentia medo e questionava o que teria acontecido com o meu pai. A minha mãe trabalhava no edifício ao lado e podia vê-la uma vez por semana, ela estava perto. Pelo contrário, não sabia onde estava o meu pai nem mesmo se estava vivo. De 1942 a 1945, 15 mil crianças foram levadas para o campo de concentração onde eu estava com a minha mãe. Só 132 sobreviveram. Quão sortudo sou eu? E foi só sorte. Não teve a ver com coragem ou inteligência, nada. Apenas sorte.

       

      Disse que, por ser uma criança na altura, não se apercebeu realmente do perigo da situação. Mas será que, nalguma parte escondida do cérebro, tinha uma pequena noção daquilo que se passava no campo de concentração? Se sim, como é que lidava com isso?

      Sim, nalguma parte do meu cérebro eu sabia o que se passava. Sabia que os meus avós, tios e tias tinham sido presos mesmo antes de termos de nos esconder – nós tivemos de nos esconder porque eles foram presos. Eles, de repetente, desapareceram da nossa vida. Numa parte escondida do cérebro eu sabia que não os ia ver mais. Senti muita falta de crescer sem avós, porque eu sou avô agora e olho para os meus netos e digo: “Eu nunca tive o que vocês tiveram”.

       

      De que forma é que a infância que teve influenciou o resto da sua vida?

      Aprendemos a viver como as coisas são. Não como queríamos que fossem, não como nos sonhos, não como nas fantasias. Aprendi a viver como as coisas realmente são, é assim que é. Tornamo-nos resilientes, aprendemos a lidar com as coisas. Eu fui para a Austrália enquanto migrante em 1949, tinha 12 anos. Eu sabia falar sete línguas, mas inglês não era uma delas. A vida era muito difícil, sofri ‘bullying’, que era uma coisa normal. E é isso que digo: Aprendi a viver como as coisas são, não como eu gostava que fossem. Aprendi a viver com a realidade.

       

      Quão importante é contar a sua história às gerações mais jovens?

      Eu estou envolvido em dois programas educativos na Austrália, faço-o há 25 anos. Já falei com muitos milhares de alunos. Também o faço com idosos. Eu devo isso às pessoas que não sobreviveram, porque eu tenho uma voz e isso é muito poderoso.

       

      Teme que, no futuro, as pessoas se esqueçam de histórias como a sua, ou do Holocausto em geral?

      Infelizmente, tenho a certeza de que, daqui a duas ou três gerações, o Holocausto irá ser apenas uma parte da história. Aprender história através dos livros é uma coisa, compreender as experiências pessoais é outra. As pessoas que me salvaram foram as pessoas que me esconderam durante dois anos antes de ir para o campo. Se eu ou os meus pais tivéssemos sido presos quando os meus avós foram presos, eu não teria sobrevivido. As pessoas que me esconderam durante dois anos são as responsáveis pelo facto de eu estar vivo. Eles é que são os heróis na minha história. Eles correram riscos enormes. Se eles tivessem sido apanhados a esconderem-nos teriam sido levados para o meio da rua e alvejados logo ali. Eles é que são os heróis e eles têm uma lição para ensinar sobre como se deve viver a vida em relação aos outros, não com ódio. Somos todos humanos. Religião, cor, raça, essas coisas não são nada, são superficiais.

       

      Sente que actualmente há mais movimentos que têm por base o ódio?

      Sim, sim. Há um pequeno grupo de pessoas que querem espalhar o ódio. E há pessoas que estão sempre à procura de alguma causa à qual pertencer. Há um núcleo de pessoas que atrai multidões. Sempre houve pessoas assim na história, Hitler era assim. Há espectadores passivos e há quem se oponha activamente. Os espectadores deixam que as coisas aconteçam, são cúmplices do Holocausto e do ódio de hoje em dia.

       

      Sente-se triste por ver esses movimentos atraírem cada vez mais pessoas?

      Sim. Na Austrália, pela primeira vez em mais de 70 anos, sinto medo. Eu nunca tinha sentido medo na Austrália e hoje sinto medo. Há certos sítios onde não vou porque sei que há manifestações que podem tornar-se violentas.

       

      Fala de grupos anti-semitas?

      Sim. Essas pessoas não conhecem os contextos históricos, mas são atraídas por activistas para os protestos. Fazendo parte daquela multidão, sentem que passam a ser alguém. Há uma necessidade psicológica de pertencer a algo, quer ser uma religião, um grupo cultural, um grupo de amizade. É uma coisa normal. Mas, infelizmente, estas pessoas são atraídas para estes movimentos.

       

      Veio a Macau e Hong Kong contar a sua história a estudantes. Nesta parte do mundo sente que também há interesse em histórias como a sua e no Holocausto em geral?

      Imagino que nesta parte do mundo haja muito pouco anti-semitismo ou até compreensão daquilo que é o anti-semitismo.