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      Ambientalistas entregam petição em nome da salvaguarda dos golfinhos do Rio das Pérolas

      Na sexta-feira, Joe Chan, conhecido activista da cidade, e dois parceiros de Hong Kong da Dolphin Conservation Society, entregaram uma petição de mais de 1.600 assinaturas na sede do Governo. Em causa está a sobrevivência da espécie ameaçada dos golfinhos da região, sobrevivência que está em risco devido aos planos de se construir um aterro de resíduos de construção urbana a sul de Hac Sa.

       

      Reunindo cerca de 1.600 assinaturas, uma petição contra o projecto de construção de um aterro de resíduos de construção urbana foi entregue na passada sexta-feira na sede do Governo. A iniciativa liderada por Joe Chan, ambientalista do território e representante da Green Students Union, contou ainda com a presença de Vivian Mak, vice-presidente da Hong Kong Dolphin Conservation Society, organização que desde 2003 que luta pela defesa da espécie ameaçada do golfinho branco chinês.

      Na petição pode-se ler que “o Governo de Macau tenciona utilizar resíduos de construção para construir aterros nas imediações da praia de Cheok Van e ao largo de Hac Sa, algo que irá definitivamente danificar os ecossistemas marinhos, agravar a poluição, qualidade da água das praias (que é perigosa para a saúde dos banhistas e dos desportistas aquáticos) e destruir o habitat dos raros golfinhos brancos chineses”. A mesma petição acusa ainda as autoridades de não terem apresentado dados científicos que sustentem a necessidade de construção do aterro, nem uma avaliação adequada do impacto ambiental. Também é ainda sublinhado que o projecto “apenas” foi sujeito a 50 dias de consulta pública. Os activistas pretendem assim travar o avanço do projecto da ilha de construção urbana, propondo, inversamente, que a área de reserva marinha seja aumentada.

      Wu Chu Pang, Chefe de Departamento de Gestão das Áreas Marinhas, durante uma das sessões de consulta pública, em resposta a uma crítica da inexistência no plano de uma zona de protecção dos golfinhos, referiu que estes não necessitam de zona marítima protegida, porque os animais marinhos circulam livremente pelas águas. “Sabemos que quando delineamos uma área para os golfinhos, eles não vão ficar ali, eles vão para outros sítios”, comentou.

      Em declarações ao PONTO FINAL, Joe Chan, quanto a esta observação, diz que existe algum mal-entendido relativamente ao conceito do habitat dos golfinhos. “Sim, os golfinhos nadam por todo o lado, mas temos vários estudos e artigos que comprovam que aquela zona, especificamente, é um dos lugares centrais para a sobrevivência deles”. O também professor universitário referiu que este foi um dos assuntos incluídos na carta que acompanha a petição, petição essa que foi intencionalmente feita através de uma plataforma online, “para mais pessoas ficarem a saber do que se passa. Queremos que as autoridades saibam que o público está a par de tudo o que está a ser decidido”, mencionou.

      A mesma carta pede que sejam reabertas mais rondas de consulta pública, e que haja maior transparência. “Por causa de questões de confidencialidade, eles estão a esconder certas informações”, denunciou. “Também pudemos ter acesso a esse relatório, mas não o podemos revelar ao público. O que posso dizer é que aquela zona onde planeiam construir o aterro é uma das zonas com maior biodiversidade”.

       

      CORREDOR DE SOBREVIVÊNCIA

       

      O activista local Kwan Hok In, por iniciativa própria, fez um levantamento da área, descobrindo que existem 32 grupos de golfinhos a circular naquele segmento da zona costeira de Macau. “Entre 2019 e 2024, observei estes 32 grupos no sul de Coloane, exactamente na zona onde eles pretendem construir o aterro. Este tipo de informação não foi tornada pública, porque são apenas as minhas observações pessoais. A minha pesquisa, porque não é oficial, foi descartada pelo Governo. Mas tenho fotos, coordenadas e tudo. São provas concretas”, sustentou.

      Os activistas explicaram que aquela zona é um corredor de vida selvagem. “Os golfinhos viajam entre a zona ocidental e oriental do Rio das Pérolas através daquela zona, que na verdade é um sítio de passagem muito importante. Se se vai construir uma ilha ali, vai-se separar as duas populações que vivem a Oeste e Este do Delta, e isso é péssimo para a espécie”.

      Apesar de tudo, a vice-presidente da Hong Kong Dolphin Conservation Society, Vivian Mak, acredita que a petição pode mudar o curso do projecto. “Sim, estou confiante, porque tornar as informações públicas não só em Macau, como também em Hong Kong, pode fazer a diferença. Eu, que trabalho em Hong Kong, sei que um aterro até mais pequeno do que este vai ter um impacto ambiental enorme nas zonas marinhas. O habitat de socialização, alimentação e de circulação dos animais é afectado”.

      Esclareceu ainda que no caso de Hong Kong, que está na ponta oriental da população de golfinhos, a importância do corredor de passagem não é tão central, mas no caso de Macau é, já que a cidade se localiza no ponto médio entre o este e oeste. “Macau está no centro, por isso o corredor de circulação dos golfinhos aqui é completamente essencial”. Referindo-se a um outro projecto de construção de menor dimensão na costa sul de Hengqin, Vivian Mak partilhou que este foi descartado pelas autoridades locais depois de diferentes ONG locais se terem pronunciado sobre os riscos que isso acarretaria para a espécie ameaçada. Em Hong Kong, outros projectos semelhantes acabaram por ser aprovados. “Vimos o impacto enorme que teve, e é uma lição muito triste que aprendemos, e que não queremos que aconteça em Macau. A campanha está a ter sucesso, agora é continuar e esperar que mais pessoas tomem consciência da situação”.

      A ambientalista acusa a Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) e a Direcção dos Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA) de apresentarem “documentos que estão desactualizados” e “muito atrás” do que se verifica em matéria de conservação ambiental em cidades do interior da China, ou Hong Kong. “Não existe uma política concreta de protecção das espécies marinhas em Macau, e é preciso que as pessoas saibam disso”.

      Recorde-se que as autoridades anunciaram há poucos meses o projecto de construção do aterro de resíduos de construção urbana a sul da praia de Hac Sa, sendo este submetido a várias sessões de consulta pública. A suposta ilha ecológica, para além de vir complementar o actual aterro em Coloane, que está quase saturado, pretende vir auxiliar a cidade a reciclar e tratar os resíduos de construção urbana dos futuros empreendimentos de diversificação económica, e deverá estar pronta em 2040.