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      Rui Pedro Cunha

      “Hengqin vai claramente ser um pilar muito grande do desenvolvimento futuro de Macau”

      Rui Pedro Cunha iniciou funções como presidente da Câmara de Comércio Europeia em Macau (MECC) e, para já, as atenções estão todas viradas para Hengqin. Em entrevista ao PONTO FINAL, Rui Pedro Cunha sublinhou a importância da Ilha da Montanha para o futuro de Macau e acabou por lamentar as restrições impostas no território, que fazem com que a região desvalorize aos olhos dos investidores estrangeiros.

      Fotografia de Gonçalo Lobo Pinheiro

      Os holofotes da Câmara de Comércio Europeia em Macau (MECC) estão todos virados para Hengqin. Em entrevista ao PONTO FINAL, Rui Pedro Cunha, que assumiu recentemente as funções de presidente do organismo, destacou a importância da Ilha da Montanha, frisando que “vai claramente ser um pilar muito grande do desenvolvimento futuro de Macau”. As autoridades devem, no entanto, agilizar o processo de aquisição de residência para quem quer estabelecer-se em Macau, permitindo assim que também o projecto de Hengqin tenha sucesso, defendeu Rui Pedro Cunha. Na entrevista, o presidente da MECC disse que este período de menor fulgor económico da região pode ser um catalisador para o espírito empreendedor dos residentes. Sobre as restrições à entrada ligadas à pandemia, que, apesar do recente relaxamento das medidas, continuam a ser impostas na região, Rui Pedro Cunha assinalou que estão a fazer de Macau um território “muito menos apelativo”.

       

      Assumiu recentemente as funções de presidente da Câmara de Comércio Europeia em Macau. Como é que têm corrido os primeiros meses? Que projectos têm desenvolvido?

      Penso que tem corrido bem. A Câmara de Comércio Europeia é uma câmara de câmaras, cujos principais membros são outras câmaras de comércio locais – a francesa, a britânica, alemã, italiana, romena, austríaca, irlandesa e luso-chinesa. A direcção é composta por pessoas das várias câmaras, tudo pessoas com muita experiência nas câmaras de comércio e que têm vontade de que a Câmara de Comércio Europeia seja dinâmica. Embora não seja muito visível para o grande público, temos trabalho feito ao longo dos últimos nove anos. O que temos feito mais nos últimos meses é concentrarmo-nos em Hengqin, ver o que é que aí vem. Os membros da direcção da Câmara de Comércio Europeia fizeram recentemente uma visita a Hengqin para visitar o doutor António Lei [director dos Serviços de Desenvolvimento Económico da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin] para perceber o que é que está lá a ser feito. Alguns de nós já temos alguma exposição em Hengqin, alguns com pequenos escritórios, mas é muito importante neste momento dar visibilidade ao que está a acontecer em Hengqin. Hengqin vai claramente ser um pilar muito grande do desenvolvimento futuro de Macau.

       

      Então o que é que Hengqin pode dar à economia de Macau, no futuro?

      Hengqin, na minha opinião, vai ser muito importante para a diversificação económica de Macau. Macau não tem muito espaço, enquanto Hengqin tem muito espaço e infraestruturas muito modernas, desenvolvidas recentemente. Fomos ver um centro de exposições que dá uma visão muito interessante e alargada sobre como é que começou Hengqin, como é que se desenvolveu até agora e a visão para o seu futuro. Toda a infraestrutura foi muito bem pensada, de forma muito moderna. Tem uma zona de condutas subterrâneas onde passam, de forma estruturada, todas as infraestruturas de água, electricidade, comunicações, até a arrumação do lixo, que é feita por vácuo. Está tudo desenvolvido de forma muito moderna. O facto de ter espaço e o apoio do Governo Central para o desenvolvimento de Macau vai ajudar a que Macau se desenvolva e consiga diversificar a economia dessa forma. Pelo menos é essa a intenção.

       

      Essa é a intenção, mas conseguirá atingir os objectivos a curto ou médio prazo?

      A diversificação da economia é um propósito muito antigo e é algo que leva tempo. A economia é algo de muito complexo que tem a ver com a relação entre pessoas e empresas, não se muda de um dia para o outro. Em Macau, o que aconteceu foi que estava toda a gente muito habituada a um determinado ‘status quo’, em que o sector do jogo contribuía com receitas que permitiam que o orçamento do território tivesse ‘superavit’, portanto a preocupação com a diversificação não era elevada. Foram feitas várias tentativas de diversificação, só que quando se está numa altura em que não se sentem dificuldades é mais difícil as pessoas mudarem e saírem da sua zona de conforto.

       

      Esta altura de pandemia e em que a economia não está em tão boas condições é uma oportunidade?

      É uma altura de oportunidade, claramente. O facto de haver esta situação actual de alguma instabilidade e incerteza em relação ao futuro ajudou a criar algum espírito empreendedor e fez com que algumas pessoas tomassem iniciativas que não tomaram até agora porque estavam confortáveis. A diversificação da economia passa muito por aí. Não é algo que vai acontecer de um dia para o outro. Ao falarmos da diversificação da economia estamos a falar da alteração da estrutura da forma como a economia funciona. É algo que não se altera de um dia para o outro. É todo um trabalho e um percurso de aposta em sectores diferentes. E as apostas são isso mesmo, podem dar bons resultados ou podem não dar.

       

      As apostas na saúde, turismo, convenções e exposições, finanças modernas, tecnologia de ponta fazem sentido?

      Macau tem muita experiência na área do turismo. Algumas áreas adjacentes à área do jogo, ainda do turismo, como o turismo cultural ou de saúde, ou o MICE [reuniões, incentivos, exposições e conferências] podem reaproveitar muitas das estruturas que existem em Macau. Agora que as taxas de ocupação dos hotéis estão muito mais baixas porque não há tantas pessoas a virem, existe a possibilidade de apostar mais no MICE, mas para isso é necessário que as pessoas possam entrar com mais alguma facilidade, o que ainda não acontece.

       

      Hengqin poderá atrair investimento estrangeiro, nomeadamente europeu? Há interesse das empresas europeias?

      Eu diria que há claramente interesse da parte da Comissão Executiva de Hengqin que está a fazer um muito bom trabalho nesse sentido. É necessário articular o que está lá a ser feito com as políticas de Macau para permitir que Macau também tire proveito disso. Se houver empresas europeias a virem criar fábricas e centros de serviços em Hengqin era útil para Macau que as empresas abrissem sede aqui em Macau e depois tivessem infraestrutura produtiva em Hengqin. Isso seria bom para Macau, já que o PIB de Macau seria beneficiado se a sede estivesse aqui. Macau tem algumas vantagens que Hengqin ainda não tem, por exemplo, a previsibilidade em relação ao ordenamento jurídico, etc. Em Hengqin ainda está tudo a ser desenvolvido, há uma quantidade de políticas que são muito promissoras, mas até estarem efectivamente implementadas no terreno existe alguma incerteza. Só ultrapassando essa incerteza é que as empresas virão com algum peso.

       

      Hengqin tem sido promovido como uma espécie de oásis económico para Macau. Isso é mesmo assim? No projecto de Hengqin, há alguma coisa que poderia ser diferente?

      O projecto de Hengqin é uma excelente forma de permitir o desenvolvimento de Macau. O sucesso ou menor sucesso vai depender de as pessoas de Macau conseguirem compreender o que está a ser feito em Hengqin e quererem efectivamente tirar proveito disso. Não vejo nenhuma falha no projecto, mas ainda há muita coisa por fazer, nomeadamente na facilitação de entradas de estrangeiros em Macau. Não pensando apenas na questão da pandemia, pensando na questão da aquisição de residência para quem queira vir estabelecer-se em Macau. Isso é algo que tem de ser melhorado no sentido de tornar atractivo. Há que fazer o trabalho de articulação. O Governo de Macau precisa de dar alguns passos no sentido de agilizar a entrada de pessoas para que Hengqin seja efectivamente um sucesso. Hengqin não depende apenas de si, depende muito também de Macau e da China.

       

      Dado o facto de persistirem as restrições ligadas à pandemia no território, tem havido menos interesse das empresas estrangeiras em Macau?

      As restrições à entrada acabam por tornar Macau muito menos apelativo, porque ninguém vai fazer um investimento sem vir ver no que vai investir. É efectivamente um impedimento a dificuldade de entrada em Macau. Esperemos que seja uma dificuldade temporária e que rapidamente se consiga ultrapassar. Até que seja ultrapassado, é efectivamente uma barreira grande ao investimento estrangeiro.

       

      Macau perdeu muitas oportunidades e investimento estrangeiro durante estes três anos?

      Provavelmente, sim. Como Macau não era uma solução, procuraram outras alternativas.

       

      Macau está a perder terreno para outras jurisdições da zona?

      Temporariamente, sim, até serem ultrapassadas essas dificuldades.

       

      No futuro, poderá voltar a ganhar terreno?

      Tem todas as condições para isso. Desde que se materialize a facilitação de entrada de estrangeiros em Macau de uma forma permanente, Macau tem todas as condições. É uma cidade cosmopolita, que, embora não seja muito grande, tem uma comunidade de expatriados – que também já foi maior – que torna o ambiente relativamente cosmopolita. Tem boas infraestruturas, tem um sistema jurídico estável e conhecido e confortável para quem vive em países de língua portuguesa, e tem uma taxa de impostos que é muito baixa em comparação com quase todas as jurisdições do mundo. Tem um conjunto de condições que são propícias a que se torne apelativo a várias indústrias diferentes.

       

      A economia de Macau era vista como livre e aberta. Isso ainda é assim hoje em dia?

      Continua a ser uma economia livre e aberta. O problema é a dificuldade de movimentação das pessoas. Logo que isso esteja resolvido não há razão nenhuma para que não se considere que Macau tem condições de retomar o sucesso que tinha no passado. Houve uma alteração de fundo que tem a ver com a determinação do Governo Central que é que o jogo não é bem visto.

       

      Os índices económicos de Macau têm vindo a cair. Qual é a solução para a situação?

      No curto prazo, há que retomar o sector que serve de base à economia de Macau. Não tenhamos ilusões: no curto prazo, não é possível diversificar a economia. Enquanto o sector do jogo tinha uma taxa de imposto de 39%, as empresas dos outros sectores tinham uma taxa de imposto de 12%. Não há só a questão do volume gigantesco do jogo que é necessário substituir, na perspectiva de diversificação, como há a questão de a taxação ser muito mais baixa nos outros sectores. No curto prazo, só vejo a recuperação de algumas receitas no jogo como uma forma de recuperar a economia de Macau. A médio prazo, o caminho tem de ser a diversificação, porque a China já deixou bem claro que o futuro terá de ser assim.