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      Ambientalista alarmado com impacto do aterro de resíduos em Hac Sá  

      O plano de construção de uma ilha ecológica na zona costeira marítima a sul de Coloane é extremamente decepcionante, diz Joe Chan da Green Students Union. Frustrado com a forma como as autoridades estão a gerir o problema dos resíduos de construção urbana, acusa-as de estarem há duas décadas a procrastinar, e recorda que o oceano não é um caixote do lixo.

       

      No passado domingo, representantes da Direcção dos Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA) participaram na primeira sessão aberta de consulta pública sobre a regulação da área marítima do território, aproveitando para esclarecer questões sobre o plano actualmente em estudo da construção de uma ilha ecológica a sul da praia de Hac Sá. A ilha, para além de vir complementar o actual aterro em Coloane, que está quase saturado, pretende vir auxiliar a cidade a reciclar e tratar os resíduos de construção urbana dos futuros empreendimentos de diversificação económica.

      Para os representantes do Governo, esta é a solução para uma questão premente que tem de ser rapidamente resolvida, já que o desenvolvimento e a diversificação económica, essas não podem parar, ainda por mais porque esta é uma exigência do Governo Central. “Com a diversificação, temos de construir edifícios, o que vai causar vários resíduos de construção urbana”, argumentou Kuok In, o subdirector da DSAMA, citado pela TDM. “Temos de ponderar e encontrar alguma maneira para tratar estes resíduos”. Contudo, o dirigente prometeu que, apesar das pressões do desenvolvimento urbano, o Governo também não esqueceu a questão ambiental, e que o plano em estudo está a procurar encontrar um equilíbrio entre as duas necessidades.

      Na sessão pública estava presente Joe Chan, presidente da Green Students Union, e conhecido ambientalista do território, que classifica o projecto da ilha ecológica como prova da “irresponsabilidade” e “falta de planeamento atempado” das autoridades. Ao PONTO FINAL, o professor universitário falou dos esforços e petições elaboradas pela sua associação ao longo dos últimos três anos para que se implementem mais políticas de conservação marítima, como a criação de zonas de viveiros de ostras, para promover a resiliência dos ecossistemas naturais dos mares de Macau, mas estas sugestões, refere, esbarram com as acções concretas do Governo, que acusa de estar a ir numa direcção “muito decepcionante”.

      Referindo-se ao plano das áreas marítimas, onde se faz referência às zonas de conservação marítima em frente às praias de Cheoc-van e Hac Sá, Joe Chan diz que a zona ocupa apenas 3% dos mares de Macau, ao passo que a área prevista para o depósito dos resíduos de construção urbana é “bem maior”. Para o ambientalista, esta disparidade é prova de que as autoridades “não estão a conseguir alcançar um equilíbrio entre desenvolvimento e conservação”.

      Wu Chu Pang, Chefe de Departamento de Gestão das Áreas Marinhas, também presente na consulta pública, em resposta a uma crítica da inexistência no plano de uma zona de protecção dos golfinhos cor-de-rosa, referiu que os golfinhos não necessitam de zona marítima protegida, porque os animais marinhos circulam livremente pelas águas. “Sabemos que quando delineamos uma área para os golfinhos, eles não vão ficar ali, eles vão para outros sítios”. Para Joe Chan, a questão vai para além de proteger apenas a espécie autóctone em vias de extinção, já que com a construção do aterro, toda a qualidade da água naquelas áreas vai ficar alterada, com os sedimentos e metais pesados acumulados a destabilizarem o equilíbrio já periclitante das zonas costeiras naturais de Macau, onde, relembra, as pessoas nadam. “Definitivamente, as correntes marítimas vão ser afectadas, e a qualidade da água das zonas costeiras vai deteriorar. Que procedimentos vão ser postos em prática, para que se diversifique e melhore a qualidade dos ecossistemas depois de se construir a ilha?”, questiona.

      Em abono das autoridades, durante a consulta pública, estas garantiram ao representante da ONG que contrariamente ao que tinha sido apresentado em versões anteriores do plano da ilha ecológica, já não vão ser usados materiais de cinzas da central incineradora na construção do aterro. “Esta foi das poucas boas notícias que recebemos no domingo”.

       

      OCEANO, O CAIXOTE DE LIXO

       

      De resto, todo o projecto da ilha ecológica, cujo plano indica que esta será transformada num espaço público multifuncional à beira-mar e num pulmão verde urbano, com funções de protecção ambiental, redução de desastres e educação científica, levantou dúvidas da parte do activista. Com algum sarcasmo na voz, Joe Chan dissecou o termo “Ilha Ecológica”. “Na sessão tentei obter mais informações. Que benefício ecológico concreto traz esta ilha supostamente ecológica, para além de colocarem algumas plantas lá em cima? Não me souberam responder, ainda estão a pesquisar”. Partilhando o seu receio, aliás, de que a longo prazo a ilha será convertida em mais outra zona de urbanização, o ambientalista recusa-se a acreditar que esta seja a única solução possível. “Há quase 20 anos que temos conhecimento do problema. Há dez anos as autoridades já tinham admitido aos meios de comunicação social que estávamos a atingir o limite de armazenamento dos resíduos nos aterros. Dez anos depois, não encontraram nenhuma solução. A única melhoria foi uma alteração na lei levada a cabo pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA) para penalizar quem crie lixo de construção, mas foi só isso”, recordou. “Haverá mais alguma solução para além de ver o oceano como um caixote de lixo? E daqui a 20 anos, como vão fazer, vão construir mais um aterro?”, vociferou.

      A questão dos resíduos de construção urbana, na sua perspectiva, poderia ser encaminhada, por exemplo, para os outros aterros já existentes. “O Governo Central já autorizou cinco outros aterros. Porque é que não se designou nos planos de gestão urbana que um desses aterros fosse destinado aos resíduos urbanos?”, sugeriu. Outra medida seria a de enviar os resíduos de construção urbana para outras províncias no interior da China, e cooperar com essas regiões para, por exemplo, usar esses materiais em projectos inovadores de reciclagem. Mas Joe Chan diz que o Governo não soube antecipar a situação, e tentou encontrar a solução que estava mais à mão, já que “o oceano nunca se queixa. Os golfinhos, o ecossistema, nunca se queixam”. Esta foi a maneira mais fácil de resolver o que classifica como um “problema de procrastinação” a longo prazo. “Há muito que tinham de tomar uma medida, mas não o fizeram, e agora o tempo terminou.  É de uma grande irresponsabilidade. Não sei como o dizer. Macau é pouco civilizado”, concluiu.