Na passagem do 60º aniversário do assassinato de John F. Kennedy, o PONTO FINAL conta a história da associação que o presidente democrata teve a Macau, através de uma campanha de solidariedade com uma escola católica do território. Em causa estava o papel desempenhado por Macau no apoio a refugiados. Mais uma vez.
Uma crónica publicada no jornal New York Herald Tribune, em Novembro de 1959, esteve na origem desta história. Em visita de trabalho a Macau, o jornalista norte-americano Joseph Alsop visitava a zona dos aterros do Porto Exterior quando se deparou com uma escola que destoava pela sua grandeza dos inúmeros casebres que a rodeavam, que serviam de frágeis abrigos a milhares de refugiados da China Continental. Na fachada do edifício, a instituição apresentava-se, em latim: Stella Matutina.
Não resistindo a uma visita casual às suas instalações, Alsop teve como guia a responsável da escola, Madre Maria Tolmira, que lhe falou das quase 800 crianças, de famílias pobres, que ali estudavam, a quem eram cobradas propinas meramente simbólicas, ou a quem era até dispensado o seu pagamento. “Muitos dos refugiados têm crianças. Muitas das crianças têm fome. Todas precisam de educação”, viria a escrever o jornalista na sua crónica. A escola tinha sido fundada em 1953 pelas Missionárias Franciscanas de Maria, em instalações precárias localizadas na rua do Chunambeiro, na colina da Penha, e a mudança para a Rodrigo Rodrigues, no Porto Exterior, tinha acontecido apenas um ano antes da sua visita.
“Há uns anos, começámos a nossa escola em casebres de bambu”, contou-lhe a Madre Tolmira, com ar grave. “Que mais podíamos fazer? Precisavam de nós. O dr. (Pedro José) Lobo (chefe dos serviços de Economia e à data a mais influente figura política de Macau) disse-nos que iria construir uma escola a sério e pediu-nos que lhe apresentássemos um plano. Receio que não estivesse à espera que lhe apresentasse um projecto tão grande, mas acabou por aprová-lo e aqui estamos com 780 meninas na escola, e sem espaço para aquelas que gostaríamos de ter”.
Maria Tolmira, freira polaca com mais de 20 anos de trabalho missionário na China, tinha vindo no princípio dos anos 50 para Macau, um “exílio inesperado” que via agora como “sinal da graça de Deus”, para que pudesse levar ajuda a todas as crianças de todos os refugiados de Macau. “Alta e esguia”, no seu “hábito de um branco imaculado”, tinha “umas bonitas mãos de trabalhadora” e um rosto “de tamanha beleza ascética que nos interrogamos, desde logo, quem a deveria pintar”, viria a descrever o jornalista, encantado com a graciosidade da freira e com a amabilidade com que tratava os refugiados, que conhecia a todos pelo nome.
As crianças mais pobres tinham ensino e alimentação gratuitos na escola. As restantes, mais remediadas, pagavam apenas o equivalente a 35 cêntimos por mês, com direito a uma refeição diária, de pão, arroz e leite. “Não parece muito, mas é muito dinheiro para nós (em Macau), e todos os meses 50 ou 60 não conseguem pagar”, dizia a Madre Tolmira. “Aí, Deus tem de providenciar. E, de uma forma ou outra, fá-lo sempre”.
A providência, no entanto, não teria de ser apenas divina. Antes das despedidas, a freira pediu ao jornalista que a ajudasse a angariar dinheiro com vista à construção de um terceiro piso no edifício da escola, onde planeava acolher centenas de crianças órfãs. Alsop prometeu ajudar e deixou ali mesmo o seu contributo, um donativo de pouco mais de 200 dólares. “Uma pechincha, na verdade”, diria a fechar a sua crónica. “Quem pode resistir à oportunidade de educar uma criança, e de mantê-la nutrida e saudável, por apenas 7.2 dólares ao ano? Eu agarrei logo ali trinta dessas oportunidades”.
Onda de solidariedade
Depois de publicado no New York Herald Tribune e graças a contratos de partilha de conteúdos, o artigo de Joe Alsop foi parar às páginas de dezenas de outras publicações diárias, um pouco por toda a América. Nos dias imediatos, as redacções desses jornais começaram a receber cartas de leitores que se diziam inspirados pelo exemplo de solidariedade vindo de Macau e pela forma como o jornalista expusera a situação. “Pense na felicidade que vai ser levada a tantas vidas, nos seres humanos cujos passos serão encaminhados na direcção certa, graças a si e ao facto de ter vivido”, exultava um desses leitores, dirigindo-se a Alsop. “É como enviar uma pedra para dentro de água: as ondas de choque jamais se extinguirão”.
Outro leitor, mais sóbrio nos comentários, revelar-se-ia fundamental para o crescimento da campanha de solidariedade. Nathan Newman, um judeu quase septuagenário, residente em Nova Iorque e reformado da indústria da ourivesaria, recebera quatro meses antes uma herança de uma parente afastada, no valor de 30 mil dólares, e decidira empregá-la em acções de caridade. Na primeira de muitas mensagens que viria a trocar com o jornalista, informava: “Li com muito interesse o seu excelente artigo de 16 de Novembro, no Tribune, sobre Macau. (…) Junto um cheque à ordem das Missionárias Franciscanas de Maria, de 7 mil dólares, para que a Madre Tolmira possa erigir um andar destinado a 200 filhas de refugiados sem abrigo”, reclamando apenas, como contrapartida, que o espaço se chamasse Edifício Mildred Levy, em homenagem à autora do testamento.
Uma semana depois, do outro lado do mundo, a responsável da escola de Macau confessava a sua surpresa pela chegada de um grande número de cartas provenientes dos Estados Unidos num único dia, tanto mais que todas elas continham um cheque em nome da instituição. Nos dias seguintes, chegaria correspondência também de Portugal, do Canadá e de Hong Kong, com donativos ou pedidos de adopção. Ao tomar conhecimento pelas cartas de que o nome próprio de Alsop era José (Joseph), viu nisso um sinal, mais um, de “harmonia divina”.
“Caro Sr. Alsop, conseguiu tornar-me famosa com o uso que fez da sua escrita, o que é revelador do quanto é amado em toda a América e para lá das suas fronteiras””, comentou a freira. “O Nosso Senhor enviou-o para me ajudar”.
A Newman, a Madre Tolmira dedicou também palavras de agradecimento pela “grandeza e generosidade do seu coração”, mas não deixou de lhe corrigir a falsa expectativa de que 7 mil dólares seriam suficientes para a construção do piso destinado ao orfanato. “O Sr. Alsop confundiu a moeda americana com a de Hong Kong”, explicou em carta dirigida ao filantropo judeu. “Para todo o andar por cima do edifício já construído serão precisos 25 mil dólares dos Estados Unidos, e não de Hong Kong, como o Sr. Alsop estimou”.
O arquivo onde estão guardados os papéis de Joe Alsop, na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, contém vasta documentação sobre todo o processo que se seguiu, incluindo centenas de cartas e recortes de jornais da época. Ao se aperceberem de que os primeiros donativos não cobriam sequer um terço das despesas previstas para as obras, Newman e Alsop acordaram pôr em marcha uma campanha mais intensa de angariação de fundos, com o primeiro a apelar à solidariedade dos seus pares na indústria da ourivesaria, e o segundo a procurar obter apoios através das suas extensas ligações à classe política de Washington, já concentrada entretanto na campanha eleitoral paras as presidenciais de Novembro de 1960, onde o jovem senador John F. Kennedy despontava como principal candidato à nomeação do Partido Democrata.
Amigos e Confidentes
À entrada dos anos 60, e apesar das suas constantes deambulações pelo mundo, Joseph Alsop era uma das figuras mais influentes nos círculos jornalísticos da capital americana. Temido e admirado por democratas e republicanos, do teor das suas crónicas dependia, com frequência, a carreira política de dirigentes de ambos os partidos.
Licenciado em jornalismo pela Universidade de Harvard, tinha trabalhado como repórter durante alguns anos para o New York Herald Tribune, onde começara a assinar as suas próprias crónicas a partir de 1937. Com a guerra a alastrar pelo mundo, alistou-se na marinha em 1941 e juntou-se nesse mesmo ano ao célebre esquadrão de voluntários dos Tigres Voadores, que sob o comando do General Claire Lee Chennault combatia os japoneses em território chinês.
O ataque a Pearl Harbor surpreendeu-o em visita a Hong Kong, onde foi capturado pelos japoneses. Libertado no ano seguinte do Campo de Internamento de Stanley por via de uma troca de prisioneiros, regressou à China depois de uma curta permanência nos Estados Unidos, voltando a servir como assessor às ordens do General Chennault, integrado agora com a patente de capitão na 14ª Esquadrilha da Força Aérea americana. Antes do fim do conflito, chorou ainda a morte de Franklin D. Roosevelt, com quem mantinha uma ligação familiar através da sua prima Eleanor, viúva do presidente.
John F. Kennedy, por sua vez, tinha passado os anos de guerra ao serviço da marinha norte-americana, por pouco não perdendo a vida em Agosto de 1943, no Pacífico Sul, quando o contratorpedeiro que comandava foi abalroado e destruído por um destroyer japonês. Com outros sobreviventes da tripulação, e apesar de ferido, conseguiu dirigir os destroços do navio até uma ilha próxima, onde foi socorrido por nativos uma semana mais tarde. Já de regresso aos Estados Unidos, condecorado e transformado em herói, chorou um ano depois a morte do seu irmão Joe, cujo avião foi abatido durante uma missão de alto risco na Europa. Tornou-se correspondente de guerra e fez a cobertura da queda de Berlim e da Conferência de Potsdam, de onde sairia a estrutura da nova ordem internacional.
Terminado o conflito, Alsop voltou ao jornalismo e à escrita de opinião em múltiplas publicações, enquanto Kennedy optava por uma carreira política, conseguindo a eleição para o Congresso logo em 1946, em representação do estado de Massachusetts. Depois de três mandatos e seis anos na Câmara dos Representantes, foi eleito para o Senado em 1952.
Um ano depois, já com 36 anos de idade, Jack Kennedy casou com Jacqueline Bouvier, uma jovem jornalista do Washington Times-Herald, 12 anos mais nova. No Senado, JFK viria a conciliar a actividade política com a escrita de um conjunto de perfis de outros senadores de grande notoriedade, que tinham arriscado as suas carreiras na defesa de causas em que acreditavam. O livro daí resultante recebeu o título de Profiles in Courage e valeu-lhe o Prémio Pulitzer para Biografia, em 1957.
A amizade entre os dois homens remonta a 1946, quando Alsop conheceu em Londres Kathleen Kennedy, irmã de Jack. Convidado pouco tempo depois para jantar em casa dos Kennedy, Alsop ficou de JFK com a impressão de ser “um homem de grande charme e de grande, grande inteligência”, como recordaria anos depois numa entrevista. Mas a amizade entre ambos só viria a evoluir para uma grande cumplicidade política, mesmo estando Joe ideologicamente mais próximo dos republicanos, quando Kennedy lançou em 1958 a sua campanha de reeleição para o Senado e, simultaneamente, para a nomeação presidencial do Partido Democrata. “Via-o muitas vezes nessa altura”, explicou o jornalista mais tarde. “Falávamos de todo o tipo de coisas, em especial de coisas práticas da política, sobre as quais era um prazer falar com ele”.
Quando John F. Kennedy venceu por curta margem as eleições presidenciais de 8 de Novembro de 1961, frente ao republicano Richard Nixon, Joe Alsop escreveu-lhe uma carta a felicitá-lo, mas de alguma forma a lamentar também o resultado eleitoral: “Quero dizer-lhe que encaro a sua eleição com sentimentos contraditórios; nunca fiquei tão feliz na minha vida com uma eleição presidencial, mas sempre foi minha convicção de que um Presidente dos Estados Unidos não tem outros amigos que não seja a História; e muito feliz ficará se tiver a História. Não há nada que eu valorize mais nestes últimos anos do que a nossa amizade, e sinto que acabo de perder um amigo, ao mesmo tempo que ganhei um Presidente”.
O tempo encarregar-se-ia, porém, de desmenti-lo. Embora de forma menos intensa, inevitavelmente, a amizade entre os dois homens manteve-se sólida ao longo dos anos. No próprio dia da tomada de posse, JFK passou pela Casa Branca a deixar Jacqueline depois de terminado o baile da investidura presidencial, para acabar a noite numa festa em casa de Alsop, aonde regressaria poucas semanas depois com a mulher para um jantar de celebração do noivado do anfitrião.
Kennedy admirava em Alsop a sua erudição e consultava-o com frequência sobre a política do seu governo. Confiava nele ao ponto de lhe telefonar para o informar de que as forças armadas dos Estados Unidos iriam bombardear o Laos várias horas antes da ocorrência desse ataque-surpresa, já na fase final da sua presidência, o que causou forte controvérsia nos meios políticos e militares de Washington. Nem mesmo as regras extremamente restritivas impostas pelo Pentágono à cobertura jornalística das suas operações militares, que Kennedy aprovou e a que Alsop se opôs com veemência, conseguiram criar problemas incontornáveis no seu relacionamento. Meses depois do assassinato de JFK, o jornalista confessaria: “Nunca me importei com nada tanto quanto como com a sua morte – nem mesmo com a morte do meu pai”.
O donativo de JFK à escola de Macau
Depois de informado por Alsop da campanha de angariação de fundos para a construção de um orfanato em Macau, John F. Kennedy enviou-lhe um cheque de 250 dólares no dia 16 de Março de 1960, altura em percorria o país em campanha pela nomeação do Partido Democrata à presidência. A notícia da recepção do cheque foi rapidamente comunicada pelo jornalista à Madre Tolmira e a Nathan Newman, dando a ambos renovada esperança de que o total financiamento do novo piso da escola acabaria por ser conseguido.
Alsop sugeriu então à freira que escrevesse a Kennedy agradecendo o donativo. Se o fez ou não, desconhece-se. Não existe qualquer registo de uma carta dessa natureza tanto no arquivo pessoal de Joseph Alsop, como na Biblioteca-Museu de John F. Kennedy. Contactos com a Ordem das Franciscanas de Maria revelaram-se também infrutíferos. A única reacção imediata ao donativo que se conhece, da parte de Madre Tolmira, é uma palavra de agradecimento a Alsop e a nota de que Kennedy era já uma figura conhecida em Macau, graças a um artigo de fundo pouco tempo antes publicado no jornal Clarim.
Ao contrário, Nathan Newman não perdeu tempo. Assim que soube do donativo, escreveu a JFK a agradecer o cheque e a deixar palavras de estímulo para a sua campanha eleitoral: “Acredito que conseguirá a nomeação presidencial, pois tenho a certeza de que será um grande Presidente”. Quanto às dúvidas sobre a sua elegibilidade, então muito comuns por ser Kennedy católico num país maioritariamente protestante, Newman comentaria em missiva a Alsop que lhe parecia que “muitos americanos não cresceram ainda desde os tempos de Al Smith (candidato democrata às eleições presidenciais de 1928, derrotado graças ao forte preconceito anti-católico) e ainda acreditam na fantochada de que o Papa mandará no país se um católico for eleito Presidente, sem olharem às suas qualificações”. Esta carta, partilhou-a com Kennedy e deu-a também a conhecer ao Reverendo Martin Luther King Jr., líder da comunidade afro-americana na luta pelos direitos civis. Ambos acabariam tragicamente assassinados.
Embora generoso, o contributo de JFK não chegava, longe disso, para resolver o problema do financiamento. Alsop tinha doado mais 1,000 dólares; a Fundação Lasker, outro tanto; e o Príncipe Stanislaw Radzill, cunhado de Jack Kennedy e representante do governo polaco no exílio, tinha contribuído também com um cheque de 250 dólares. Mas o buraco que estava por preencher rondava ainda 50 por cento do orçamento das obras.
Nathan Newman lamentava a falta de resposta aos seus pedidos de apoio, explicando que o preconceito anti-católico continuava a fazer das suas, embora tivesse agora origem nos seus amigos judeus da indústria da ourivesaria. “Infelizmente, alguns deles disseram-me que não querem doar a instituições de caridade católicas, porque elas não fazem nada pelos judeus”, queixou-se em carta à irmã franciscana. “Graças a Deus, não penso dessa forma, e para mim o importante é o bem que se pode fazer, independentemente da raça, da côr ou do credo”.
A consternação da freira foi rapidamente esquecida. Embora tivesse ainda reagido a 20 de Junho de 1962, sustentando que a Igreja Católica não podia ser acusada de intolerância por fazer “trabalho de caridade na Palestina, na China e um pouco por toda a parte”, Madre Tolmira anunciava nesse mesmo dia uma notícia tão boa quanto inesperada: Godfrey Bird, uma discreta milionária britânica, tinha passado pela escola em Março e enviado agora um cheque, a partir de Londres, no valor de 15,000 dólares. O financiamento do projecto estava, finalmente, assegurado.
Dias felizes
Apesar de alguns atrasos provocados por uma época intensa de tufões, as obras progrediram a tempo de serem concluídas até ao final desse ano de 1960, tinha John F. Kennedy acabado de se tornar o presidente-eleito dos Estados Unidos. A conclusão dos trabalhos deu-se a 8 de Novembro, justamente a data da eleição presidencial americana. Uns dias depois, Madre Tolmira comunicava a Joe Alsop a boa nova, aproveitando para manifestar também a sua alegria pelo resultado eleitoral: “Como o Presidente Kennedy é um dos nossos benfeitores, devemos-lhe orações e votos especiais de felicidade”.
É então que Nathan Newman decide embarcar num avião rumo a Macau, com a sua mulher, para conhecer finalmente o projecto a que dispensara tanto tempo e dedicação no ano anterior. Já com Kennedy empossado, escreve-lhe a felicitá-lo pela eleição e pelo “maravilhoso discurso” da tomada de posse, enviando-lhe também uma cópia da breve alocução que planeava fazer em Macau. Terminava assim:
“Lembrem-se nas vossas orações do nosso novo Presidente Kennedy, assistam-no nos vossos actos e pensamentos levantando alto a ‘Tocha da Liberdade’, para todos os povos amantes da paz no mundo. Gostava que tivessem a consciência de que o vosso futuro, o amanhã de vós e dos vossos filhos, depende de uma simples citação do discurso inaugural do nosso presidente – ‘O que posso fazer pelo meu país, não o que o meu país pode fazer por mim’”.
Não encontrámos registos da visita de Newman a Macau, iniciada em finais de Janeiro de 1961. Por esses dias, Joe Alsop teve também uma curta passagem por Macau, mas só voltou a escrever sobre a escola Stella Matutina já em Abril do ano seguinte, em mais uma visita ao território então ainda sob administração portuguesa. Na crónica que então publicou, adoptou um tom ainda mais pessoal e informal que na anterior:
“Este repórter escreveu um dia uma peça sugerindo que a maior pechincha nesta terra, famosa pelos seus saldos, era um investimento no trabalho que a Madre Tolmira faz aqui com crianças pobres. Isso ajudou a desencadear uma sucessão de eventos em que um ourives reformado de Nova Iorque, Nathan Newman, e Mary Lasker e o Presidente Kennedy, todos contribuíram com uma parte da sua generosidade. Mas esta cadeia de eventos estava ainda a 15,000 dólares de conseguir obter um resultado sólido quando a Sra. Elizabeth Godfrey Bird apareceu do nada, por assim dizer.
‘O que vai fazer com o resto de que precisa?’ – a Sra. Bird perguntou à Madre Reverendíssima, depois de submeter a escola Estrela da Manhã a uma rigorosa inspecção.
‘O Senhor providenciará’, respondeu a Madre Tolmira e, muito sinceramente, pode-se ter a certeza disso, pois o Senhor tem ajudado a Madre Reverendíssima tão frequentemente quanto um mercado em alta ajuda os investidores.
‘Bom, eu dou os restantes 15 mil dólares’, disse a Sra. Bird.
E assim foi. E um orfanato com 145 meninas maravilhosamente limpas, radiantes e inteligentes, foi agora acrescentado a uma escola com outras 750 alunas. Para além da bonita Madre Tolmira – de aparência frágil, mas forte como o ferro –, outras 11 freiras, mais algumas professoras e três cozinheiras fazem o trabalho que as crianças não podem fazer, incluindo a preparação de 2,400 refeições por dia, entre pequenos-almoços, almoços e ceias. Como tudo isto é feito com uma receita monetária de 1,200 dólares por mês, mais o apoio prestado pela assistência social católica, a Estrela da Manhã é ainda a maior pechincha do Extremo Oriente.
Mas em Macau a caça aos saldos é menos importante que a caça à bondade. Entre tantos exemplos de desumanidade entre os homens, são necessárias pessoas como a delicada Madre Reverendíssima polaca, e o seu dinâmico amigo espanhol Padre Ruiz, para restaurar a nossa fé na raça humana”.
Uma dor profunda
Concluído o projecto e realizada a sua divulgação, a comunicação entre os principais envolvidos cessou quase por completo – e irremediavelmente. No dia Setembro de 1963, Nathan Newman faleceu no Hospital Monte Sinai, em Nova Iorque, com 73 anos de idade. Menos de dois meses depois, a 22 de Novembro, o assassinato de John F. Kennedy numa visita a Houston, Texas, chocou a América e o mundo. Milhões de americanos choraram a sua morte, e muitos levaram meses e anos a recomporem-se da tragédia.
Joseph Alsop foi um deles. Em Agosto do ano seguinte, a Madre Tolmira rompeu o silêncio que se estabelecera entre ambos para informar o jornalista de que se haviam graduado pela primeira vez na escola estudantes do ensino secundário, um total de 18, numa cerimónia presidida pelo Bispo D. Paulo José Tavares. A Stella Matutina tinha agora inscritas 950 alunas em todos os graus de ensino e tinha já planos para uma nova expansão das suas instalações. Na carta, datada de 7 de Agosto, a freira lamentava não ter notícias de Alsop desde a morte do Presidente Kennedy.
Na resposta, Alsop mostrou-se grato pelo envio de tão boas notícias, admitindo que bem precisava desse tipo estímulo, por andar “francamente deprimido”. A morte do Presidente, reconheceu, “foi um grande choque para mim”.
Nos anos seguintes, foi havendo correspondência esporádica entre ambos, sempre por iniciativa da Madre Tolmira. Foi dando conta a Alsop das transformações ocorridas em Macau, com o aparecimento das carreiras rápidas de hydrofoils a partir de Hong Kong, o crescimento das receitas dos casinos, o desenvolvimento económico. Ainda assim, a responsável pela escola foi continuando sempre a pedir-lhe ajuda na angariação de fundos para novos projectos de ampliação das instalações, sem que haja notícia de que esses apelos se tenham traduzido em resultados.
Aparentemente, a última carta que Alsop terá recebido da freira tem data de 3 de Fevereiro de 1967, e nela se pedia que a resposta fosse remetida para um endereço em Hong Kong. Por essa altura, Macau estava sob os efeitos da agitação política ligada à Revolução Cultural e, se bem que tivesse já sido assinado, dias antes, um acordo entre o governo e os representantes da comunidade chinesa, com vista ao restabelecimento da normalidade após os incidentes do Um-Dois-Três, a Igreja Católica tinha ainda o seu futuro ameaçado pela campanha anti-religiosa das facções mais revolucionárias.
“Na escola tudo parece normal, mas é só mesmo aparência”, garantia a responsável da Stella Matutina. “Um grande número de pessoas, tomadas pelo pânico, refugiaram-se em Hong Kong. As que o puderam fazer. As restantes continuam aqui sob os cuidados do Senhor. Continuamos por aqui à espera de ver o que vai acontecer, mas o êxodo parece cada vez mais próximo”.
Por uma vez, tinha sido Joe Alsop a tomar a iniciativa de escrever para Macau, preocupado que estava com a situação de Maria Tolmira. A resposta da freira descansou-o, mas não em definitivo. Na última missiva de que temos registo, Alsop procurou animá-la, sugerindo que a situação do orfanato jamais seria posta em causa, e prevendo que a situação política na China não iria “durar muito tempo”.
A Revolução Cultural acabou por durar até à morte de Mao Zedong, em 1976. Um ano antes, a escola Stella Matutina foi incorporada no Colégio Santa Rosa de Lima. Alsop faleceu em Agosto de 1989, quando escrevia as suas memórias. Mas de Maria Tolmira não encontrámos rasto. A menos que tenha entrado para a Ordem das Carmelitas Descalças, caracterizada por uma vida de contemplação e rigoroso isolamento entre as paredes dos conventos. Há notícia de uma freira com esse nome, nascida em Varsóvia em 1923 e falecida em Setembro de 2009, depois de ter ingressado no Mosteiro da Abençoada Virgem Maria, em Dys, na Polónia.











