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      “A comunidade portuguesa em Macau continua a ser muito querida pela maioria da comunidade chinesa”

      Rita Santos, que encabeça a única lista que se apresenta às eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas – Círculo da China, Tóquio, Seul, Banguecoque e Singapura, tem como prioridades a divulgação da língua portuguesa a resolução dos atrasos dos serviços Consulado-Geral de Portugal em Macau. Em entrevista ao PONTO FINAL, a conselheira afirma que “a comunidade portuguesa em Macau continua a ser muito querida pela maioria da comunidade chinesa”. Por outro lado, considera que “Portugal tem de prestar mais atenção” à região.

       

      Texto e fotografias: André Vinagre

       

      A resolução dos atrasos no atendimento do Consulado-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong e a promoção da língua portuguesa no território são duas das prioridades de Rita Santos, que encabeça a única lista que concorre às eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas – Círculo da China, Tóquio, Seul, Banguecoque e Singapura. Em entrevista ao PONTO FINAL, comentou que “a maioria da comunidade chinesa”, bem como as autoridades da República Popular da China, têm valorizado o papel da comunidade portuguesa no território e, por outro lado, considerou que Portugal deve dar mais atenção à região. “Macau é um trampolim importantíssimo, quer nas relações empresariais e comerciais com a República Popular da China, quer no ensino da língua portuguesa e no estreitamento das relações seculares entre as comunidades chinesa e portuguesa”, afirmou. Sobre a limitação dos novos pedidos de residência a cidadãos portugueses por parte das autoridades locais, Rita Santos disse que “não é o fim do mundo”, até porque “os cidadãos portugueses continuam a poder vir e a residir em Macau”. “É uma questão política que esperamos que seja resolvida para bem de todos”, assinalou. As eleições decorrem este domingo, no Consulado-Geral, entre as 8h e as 19h.

       

       

      Apresenta-se como cabeça-de-lista às eleições do Conselho das Comunidades Portuguesas – Círculo da China, Tóquio, Seul, Banguecoque e Singapura. Qual o foco da sua candidatura? Quais as prioridades da sua agenda?

       

      Desta vez resolvemos integrar candidatos de uma forma mais abrangente. Após a minha experiência no Fórum Macau, eu tenho conseguido criar amizades com todas as associações macaenses, de matriz portuguesa e dos países de língua portuguesa. Qual a prioridade? Ao longo dos oito anos e principalmente nos últimos dois anos, tenho estado atenta à falta de pessoal no Consulado-Geral de Portugal, que tem feito com que os portugueses residentes em Macau tenham de esperar seis meses ou até um ano para fazer a marcação online. Tenho recebido muitas queixas. No encontro com o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, entreguei um abaixo-assinado de mais de 400 pessoas que pedem a resolução da questão.

       

      Tirando essa questão, que outras prioridades tem o seu plano de acção?

       

      Outra questão à qual os conselheiros vão dedicar tempo tem a ver com o ensino, divulgação e uso diário de língua portuguesa em Macau. É uma questão à qual os conselheiros têm dedicado algum tempo, entrando em contacto com diversos serviços públicos de Macau no sentido de terem as informações sempre em tempo útil nas duas línguas oficiais, e não é isso que infelizmente acontece. Não podemos deixar de lamentar que algumas instituições universitárias de ensino público misturem e criem sistemas híbridos de línguas nas suas páginas electrónicas. É preciso elevar o nível de utilização da língua portuguesa, uma vez que está consagrado na Lei Básica que, além do chinês, o português também é língua oficial. Os conselheiros têm também recebido queixas de jornalistas portugueses que, nas conferências de imprensa dadas por alguns serviços públicos, não há tradutores para poderem transmitir em simultâneo. Nós, conselheiros, vamos entrar de imediato em contacto com as respectivas tutelas dos serviços. A língua portuguesa será uma língua viva se nós a praticarmos no nosso dia-a-dia. Nas reuniões do Conselho Permanente, muitos dos conselheiros chamam a atenção ao Governo para reforçar o ensino da língua portuguesa no estrangeiro. Há que, da parte de Portugal, dar mais atenção à Escola Portuguesa. Por outro lado, neste último ano, têm vindo poucos governantes de Portugal visitar Macau. Macau é um sítio acarinhado pela República Popular da China como ponto de ligação entre a China e os países de língua portuguesa e Portugal tem de tirar mais-valias desse estatuto. Nós temos uma história muito longa das relações com Portugal e por isso é preciso dar atenção, e também dar atenção às associações de matriz portuguesa que têm estado a lutar e a promover a cultura e economia de Portugal.

       

      Diz que Portugal tem de dar mais atenção a Macau. Acha, então, que Portugal se tem esquecido de Macau e da comunidade portuguesa aqui na região?

       

      Nós temos uma relação bastante estreita com o senhor Presidente da República e também com o senhor primeiro-ministro. O que é importante é quebrar o facto de estarmos longe de Portugal. Ficamos sempre satisfeitos quando importantes membros do Governo estão em Macau. Portugal, por meio do senhor Presidente da República e do senhor primeiro-ministro, sabe que a comunidade portuguesa em Macau continua a ser muito querida pela maioria da comunidade chinesa. Isto reflecte-se pelo número de jovens que querem aprender a língua portuguesa e que não conseguem porque não há vagas suficientes no IPOR.

       

      Em suma, Portugal tem-se esquecido de Macau ou não?

       

      Portugal tem de prestar mais atenção a Macau, porque Macau é um trampolim importantíssimo, quer nas relações empresariais e comerciais com a República Popular da China, quer no ensino da língua portuguesa e no estreitamento das relações seculares entre as comunidades chinesa e portuguesa. A República Popular da China dá muita importância às comunidades portuguesas residentes aqui em Macau para o estreitamento das relações económicas, comerciais e de amizade.

       

      E, ao contrário, acha que as autoridades de Macau se têm esquecido da comunidade portuguesa?

       

      É natural que se tenham debruçado em actividades transfronteiriças, nomeadamente o desenvolvimento da Grande Baía. Mas ultimamente estamos satisfeitos porque, após a visita do senhor Chefe do Executivo a Portugal, vai-se realizar brevemente a reunião da Comissão Mista entre o Governo da RAEM e Portugal e, nessas reuniões, serão trocadas informações, protocolos e memorandos de intenções em diversas áreas, começando pelo intercâmbio comercial, educativa, cultural, desportiva. Portugal pode muito bem aproveitar Macau para entrar no grande mercado desportivo da República Popular da China. Por outro lado, o vice-presidente da República Popular da China esteve em visita a Portugal e houve um acordo para aumentar o número de turistas chineses que entram em Portugal. Esperamos que, no que toca aos postos consulares não só de Macau como de Cantão, Xangai e Pequim, haja um reforço do pessoal para a emissão de um maior número de vistos para que os turistas chineses possam viajar.

       

      Diz que tem sido valorizada a presença da comunidade portuguesa em Macau pela China e pelas autoridades locais, mas recentemente soube-se que estava a ser limitada a atribuição de novos pedidos de residência a cidadãos portugueses…

       

      A comunidade portuguesa é muito querida pela maioria da comunidade chinesa. É evidente que, ao longo dos tempos, houve mudanças e, a nosso ver, não é o fim do mundo. Os cidadãos portugueses continuam a poder vir e residir em Macau. Devido à nossa intervenção, a senhora secretária para os Assuntos Sociais e Cultura, quando esteve em Portugal, envidou todos os seus esforços para contratar dez médicos especialistas. Relativamente ao título de residência dos portugueses, foi estabelecido antes da transição que os portugueses, após o estabelecimento da RAEM, apenas com um contrato de relação de trabalho e um rendimento razoável para subsistência, poderiam obter o BIR provisório. Quanto à alteração da lei, nós, quando tivemos o encontro com o Chefe do Executivo, sensibilizámo-lo para essa situação e agora aguardamos a negociação que o senhor cônsul-geral de Portugal tem estado a fazer junto do Governo da RAEM. É uma questão política que esperamos que seja resolvida para bem de todos. De uma maneira geral, daquilo que nós sentimos, quer das comunidades, quer dos dirigentes, quer do próprio Chefe do Executivo, há uma amizade profunda em relação à comunidade portuguesa residente em Macau.

       

      No geral, acredita que a comunidade portuguesa em Macau continua a ter o mesmo estatuto?

       

      A resposta a essa pergunta demonstra-se na prática com as áreas de especialidade. Temos conhecimento de portugueses que vieram de mochila e que estão a trabalhar na privada, na área de iluminação e sistemas de som, e são muito respeitados pelos colegas e empresas que os contrataram pelo seu profissionalismo e dedicação. Também temos chefs de cozinha nos grandes hotéis. De maneira geral, temos participado em actividades organizadas pelas associações chinesas e eles fazem boa referência dos portugueses que estão aqui em Macau.

       

      Diria, então, que a comunidade portuguesa continua a ser importante para Macau?

       

      É respeitada, acarinhada e dignificada pela sua carreira profissional. É aí que a comunidade portuguesa em Macau é respeitada. A comunidade portuguesa tem sido convidada pelo Gabinete de Ligação do Governo Central para participar nas visitas ao interior da China, o que significa que a comunidade portuguesa é o elo de ligação entre a China e Portugal e, consequentemente, com os outros países de língua portuguesa. Nós, conselheiros, temos tido boas relações e temos sido acarinhados não só pelo Governo de Portugal como pelo Governo Central da República Popular da China.

       

      Esteve recentemente em Portugal, onde se encontrou com o Secretário de Estado para as Comunidades Portuguesas, por exemplo. O que mais saiu desses encontros em Portugal?

       

      Tivemos várias reuniões com diferentes partidos políticos e tivemos também reunião na segunda comissão dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas. Verificámos que, cada vez mais, os partidos políticos têm mais atenção às comunidades, o que significa que, ao longo dos últimos oito anos, o Conselho Permanente tem trabalhado muito nesse aspecto. Eles pediram, então, que se pudesse reforçar o ensino da língua portuguesa no estrangeiro e também houve um aspecto que foi solicitado pelos conselheiros que foi a possibilidade de solicitar a isenção de propinas nas escolas que são administradas pelo Governo de Portugal. O senhor secretário de Estado disse que vai haver alguns países-piloto para isenção de propinas ou isenção do pagamento do certificado. Esperamos que, com o reforço orçamental, se possa também estender à Escola Portuguesa de Macau. Falou-se também no apoio de Portugal aos meios de comunicação em língua portuguesa e gostaria que pudesse haver este apoio. Também tivemos reuniões com a AICEP, porque alguns portugueses residentes em Macau solicitam informações de produtos ou de investimentos. Os empresários da China também querem reforçar essa ligação.