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      InícioEntrevista “A história de Li Bai nunca acaba”

       “A história de Li Bai nunca acaba”

      Xu Peiwu, fotógrafo chinês, dedicou mais de dez anos da sua vida a seguir os caminhos do poeta chinês Li Bai, procurando captar paisagens por toda a China que Li Bai assistiu há 1.300 anos, inspirando-se na sua poesia. Na exposição “Li Bai: Peregrinação de um Nómada Imortal”, inaugurada hoje na Casa Garden no âmbito do Festival Literário de Macau, Xu Peiwu vai apresentar ao público de Macau 41 obras fotográficas. Ao PONTO FINAL, o fotógrafo falou sobre a sua relação artística com Li Bai e detalhou a sua viagem de uma década, destacando que o projecto exigiu-lhe muito trabalho, e que foi “encantador” reencarnar os poemas do ‘Imortal de Poesia’.

       

      Toda a viagem fotográfica de Xu Peiwu sobre o poeta Li Bai começou num livro encontrado numa livraria de um antiquário de Cantão, tendo sido aí que o fotógrafo se apaixonou pela sua poesia e decidiu dedicar-se a percorrer o caminho do poeta. Xu Peiwu viajou durante dez anos por mais de 40 locais e cidades no interior da China para encontrar as paisagens registadas nos poemas de Li Bai na dinastia Tang. No âmbito do Festival Literário Rota das Letras e respectiva exposição “Li Bai: Peregrinação de um Nómada Imortal”, e em entrevista ao PONTO FINAL, Xu Peiwu salientou a importância de Li Bai na história literária da China, considerando ser “interessante” ver o panorama inspirador após mais de mil anos da escrita do poeta. O fotógrafo explicou ainda que todas as imagens foram feitas em rolo de filme a preto e branco, sendo uma forma de representação, com toque da tradicionalidade, da poesia de Li Bai.

       

      Como surgiu a ideia de fazer um projecto fotográfico com os poemas de Li Bai?

      Foi uma história interessante. Há 40 anos, em 1984, comprei numa livraria de um antiquário de Cantão um livro sobre Li Bai publicado por um académico do Japão. Estava muito interessado pelo livro, o académico fez um estudo muito profundo, com uma linguagem simples e clara para explicar os poemas. Gostei muito, recito às vezes os poemas e leio as anotações. Em 2013, fui viajar pela zona do Rio Yangzte, como Chongqing e Yichang, e nesta viagem descobri que o Rio Yangzte deixou muitos traços dos poemas de Li Bai. Em 2014, fiz uma viagem semelhante com amigos. Fiz algumas fotografias durante as viagens e achei inspirador, tendo realizado uma exposição com o tema de Li Bai. Comecei a ter mais interesse neste projecto, e tomei assim a decisão de dedicar mais tempo para visitar os lugares que Li Bai tinha visitado. Em 2015, visitei a Torre do Grou Amarelo em Wuhan, e em 2016 fui mais longe, a Gaochang, em Xinjiang. Os sítios que viajei ao longo do tempo abrangem basicamente todo o percurso dos poemas de Li Bai. Realizei mais exposições e comecei a pensar que algumas fotos não representavam bem o sentimento. Fui ainda a mais cidades e tirei mais fotos nos anos seguintes. As obras apresentadas agora foram principalmente feitas em dez anos. E até agora ainda continuo a fazer colecção. Na dinastia Tang não houve muitas pessoas que conseguiram passear em tantos lugares como Li Bai. O que é importante também é que na cultura chinesa, na poesia, Li Bai é um poeta de grande renome. Se puder dedicar o meu tempo a visitar os sítios onde esteve o poeta, dedicar o meu tempo a seguir o percurso de Li Bai há 1.300 anos é mesmo encantador.

       

      Todo o projecto durou dez anos. Quais foram as maiores dificuldades na sua realização?

      De facto, a prioridade de fazer este projecto relacionado com Li Bai foi trabalhar nos seus poemas, fazer a pesquisa dos lugares onde o poeta esteve e escreveu. Muitos dos poemas de Li Bai foram inspirados em sítios concretos, como o Lago das Flores de Pessegueiro, a Montanha Hua e a passagem Jianmen. Mas antes de ir a um lugar é preciso ler muitos dos seus poemas para saber as paisagens concretas, que contêm muitos conhecimentos sobre história e geografia. Também através dos poemas compreendi muitas alusões literárias e culturais, e aprendi com Sanxingdui, um sítio arqueológico e uma importante cultura da Idade do Bronze em Sichuan, na China. É bastante relacionado com a geografia e a história, até decidi criar uma página nas redes sociais intitulada “Viajar com o Imortal da Poesia” para fazer promoção do projecto e dos poemas clássicos junto ao público, para falar da história de Li Bai.

       

      O que o impressionou mais nesta viagem de uma década?

      Sendo um projecto contínuo, não tenho de decidir quando tenho de o terminar. É todo do meu o interesse, e está ao meu dispor. Por exemplo, fui passear pela zona do Rio Yangzte por cinco vezes. Todo o processo dá-me alegria de viajar, a alegria de estar num caminho, e posso investir muito tempo a fotografar. Uma imagem foi captada em Xiling Gorge, do Rio Yangtze. Não tinha encontrado nuvens nem nevoeiro nas minhas viagens anteriores, mas uma vez, quando ali cheguei, depois das chuvas e quando as nuvens se afastaram, vi uma paisagem muito poética. Além disso, fiz uma exposição no Aeroporto de Baiyun de Cantão. Devido a Baiyun (nuvens brancas, na tradução literal), usei uma foto com nuvens de Wushan como cartaz principal, é sempre uma história interessante. Fui também em 2016 à Montanha TianMu, da província de Xinchang, que inspirou um poema conhecido, para captar umas fotografias. E fui ali novamente em 2000 à montanha. Quando subi a montanha, estava a chover, apesar de o sol ainda estar a brilhar durante a manhã, e depois da chuva as nuvens abriram-se de novo, mas passados dez minutos quase já não se via nada, por isso voltei a tirar uma fotografia, era muito cativante. Na verdade, se não houvesse esta nuvem, a paisagem não seria poética. Portanto, durante a viagem posso sempre encontrar coisas novas e interessantes. É como uma geografia dos poemas de Li Bai: o poeta escreveu há mais de mil anos, e agora, mil anos depois, vamos ver como é o panorama e a concepção artística.

       

      Porque é que escolheu usar rolo de filme e tirar fotografias a preto e branco para apresentar as paisagens dos poemas de Li Bai?

      A minha máquina fotográfica é muito especial, é uma máquina de médio formato, com rolo de filme, pelo que não é possível ter a certeza sobre a apresentação da foto quando esta é tirada, é preciso revelá-la para saber. A revelação de todas as minhas fotografias é feita à mão. Acho que é um regresso à tradição, a poesia de Li Bai é uma cultura muito tradicional, por isso vou usar este ofício tradicional para a representar, com uma realização mais lenta. O processo exige muito trabalho, mas é um hábito meu, fiel ao filme a preto e branco. Mas também tiro fotografias a cores, mas é para a página online “Viajar com o Imortal da Poesia”, que tem mais leitores que exigem uma narrativa que seja fácil de entender para contar a história. As fotografias a preto e branco são mais clássicas, um momento é um poema, e uma fotografia conta a história. E quando olhamos para as fotografias, é uma grelha muito holística. Isso tem muito a ver com os hábitos das pessoas, a máquina digital desenvolve-se muito e pode ter alta resolução. O rolo de filme é mais difícil do que o digital, mas ao mesmo tempo é uma exploração interessante.

       

      O que podemos esperar desta exposição?

      A exposição está basicamente dividida em três secções. A primeira é a rota de Sichuan e passa ao longo das zonas do Rio Yangtze. A segunda parte vai da extremidade do país ao vale do Rio Amarelo e chega até Shandong. A terceira parte foca-se na zona do Sul do Rio Amarelo. Podemos ver com clareza o percurso de Li Bai e as histórias dos seus poemas. Aproveito as imagens e a poesia para contar a história da vida de Li Bai, É importante mencionar também que são exibidas aqui 41 fotografias. Inicialmente eram 40, e no meio desta galeria há uma mesa para pôr as minhas colecções de fotografias, onde decidi colocar mais uma foto tirada em Anhui. A foto é sobre o último poema de Li Bai, que passou os seus últimos tempos em Anhui. Quando tirei a fotografia, usei uma velocidade muito lenta para ter uma exposição longa do meu filme a preto e branco, esperando o vento soprar e o movimento da árvore. Só quando o vento está a soprar é que se consegue criar este sentimento de abertura, que tem tanto de realidade como de ilusão, para ser um ponto final da exposição.

       

      Quais são as suas expectativas para esta exposição?

      É a primeira exposição das minhas obras em Macau. Acho que esta exposição no Festival Literário é muito significativa. É a primeira vez que um projecto sobre Li Bai saiu do interior da China, pelo que estou ansioso por partilhar as minhas fotografias de Li Bai com o público de Macau, nesta instalação da Fundação Oriente, um bem imóvel classificado. É um resumo dos meus sentimentos em relação à poesia de Li Bai nestes dez anos, através do qual espero haver um intercâmbio com o público de Macau. A primeira exposição do projecto de Li Bai foi em Pequim, no Museu Gong Prince, e a exposição anterior foi em Wuhan, num festival literário sobre Li Bai, e agora é a décima primeira exposição, aqui em Macau. Entre vários poetas chineses ao longo da história, é impossível não mencionar Li Bai, e é impossível retirar Li Bai de um festival de literatura.

       

      Tem alguns projectos planeados para o futuro sobre Li Bai?

      A história de Li Bai nunca acaba. Ao contrário do que acontecia antes, agora já se fez um projecto com uma história mais completa, mas penso que, no futuro, ainda vou tirar mais fotografias semelhantes, como em Nanjing e Hubei. Quando tiver a oportunidade de visitar esses locais no futuro, prestarei mais atenção, e se calhar vou acrescentar mais obras relacionadas. No futuro também é provável adoptar uma forma diferente para apresentar Li Bai, como através da pintura.