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      InícioOpiniãoDeus não joga aos dados

      Deus não joga aos dados

      Trinta dias depois do assalto do Hamas a Israel e do assassinato de centenas de israelitas o conflito aprofunda-se com a entrada de forças da IDF na faixa de Gaza e a operação de eliminação difícil de unidades dos terroristas.

      Escondidos em edifícios públicos e nos cerca de 500 km de tuneis subterrâneos que construíram afanosamente com o apoio do Irão a captura e eliminação desses alvos é uma operação difícil, morosa e sangrenta que se confronta com factores políticos relevantes.

      Por um lado a pressão internacional para uma paragem da guerra impulsionada por organizações apoiantes dos palestinianos um pouco por todo o mundo; ainda  pressão das famílias dos sequestrados cujo montante se estima acima das 240 pessoas e que exigem o regresso dos raptados, entre eles idosos, mulheres, crianças e bebés.

      São dois factores externos que condicionam qualquer operação de guerra nos dias de hoje, pela proximidade dos repórteres das televisões e pela eficácia dos serviços de propaganda do Hamas de passarem imagens que são um apelo ao sentido de humanismo dos países ocidentais. Factor esse desconhecido no Médio Oriente onde a lógica que preside é a da afirmação de uma certa mensagem política e religiosa contra quem os fundamentalistas chamam de hereges e apóstatas. Cultura em que a morte dos inimigos é exaltada como castigo em nome de Alá, o Misericordioso, e os mártires caídos bons muçulmanos a quem se abre, por actos de bravura, o caminho para o paraíso.

      Esta é uma guerra de índole religiosa que tem a ver com dois factores históricos: a permanência dos judeus em terras onde estavam há dez mil anos e de onde foram expulsos primeiro por egípcios, depois por babilónios e mais tarde por romanos. Por outro lado a sobrevivência de um estado que de acordo com a mensagem do Antigo Testamento lhes foi prometido por Hashem como a Terra Prometida firmada por Deus com Abraão, o Profeta.

      A lógica do conflito escapa, desde logo, a uma ponderação jurídica estrita em que é admissível a um país soberano, como Israel, se defender desde que não ultrapasse certas balizas, a saber a sobrevivência das comunidades palestinas da margem ocidental e da faixa de Gaza. Comunidades que por responsabilidade dos partidos palestinianos são governadas pela Fatah num território e pelo Hamas integrista e radical em Gaza. É bom lembrar que foi o Hamas – e não Israel – que expulsou o exército e as forças de polícia da Autoridade Palestiniana em 2008, causando-lhe duas dezenas de mortos.

      Aqui reside um dos imbróglios da situação israelo-palestiniana: a ausência de um interlocutor único que possa representar os palestinianos em negociações com Israel mediadas pelos Estados Unidos ou no quadro de uma conferência internacional de paz. Quaisquer que fossem os acordos celebrados com Mahmoud Abbas, o presidente da AP, não haveria garantias que eles fossem respeitados pelas autoridades de Gaza. O boicote seria provável.

      É bom ter presente que na carta constitutiva do Hamas se define o propósito de derrotar Israel, eliminar o estado hebreu, expulsar e eliminar os judeus da região, transformando aquele território numa república islâmica semelhante à que vigora no Irão.

      Por afinidades rácicas e religiosas os países árabes da região não estão interessados na estabilidade de um estado onde árabes, judeus, cristãos e drusos vivam em paz, num quadro democrático, onde os governantes são eleitos em eleições livres e cumprem um mandato de tempo limitado. Os países árabes vizinhos de Israel são monarquias – parte delas teocráticas – onde não existe governo representativo, imprensa livre ou o direito das mulheres terem uma profissão e gerirem autonomamente a sua própria vida.

      Para os manifestantes que encheram as ruas nas cidades europeias e os Estados Unidos essas são coisas de somenos. O que lhes importa é a algazarra contra Israel, a destruição de estabelecimentos comerciais de judeus, a profanação de cemitérios judaicos, o colapso do país. São os mesmos que se manifestaram contra os Estados Unidos e a intervenção no Iraque e no Afeganistão e que pululam em grupos de extrema-esquerda. Ainda migrantes árabes que lograram refugio em cidades europeias beneficiando das liberais leis desses países.

      As Nações Unidas assistem a isto tudo paralisadas, condenando em clamor a intervenção de Israel sobre Gaza e exigindo tréguas incondicionais. Menorizam, ao mesmo tempo, o acto de agressão do Hamas e o assassinato de civis do lado de Israel. Não deixa de ser irónico que o secretário-geral Guterres não tenha tido uma palavra de condenação quanto ao morticínio de jovens que participavam numa festa rave no sul do país. Ao mesmo tempo elogiava o Irão que passa agora a presidir ao Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas. Dois pesos e duas medidas do politico socialista.

      Trinta dias passados do 7 de Outubro cabe ao exército de Israel a responsabilidade de prosseguir a operação contra os terroristas. Terão sido já mortos 1500 membros das Brigadas Izzedine al-Qassam, o ramo militar do Hamas. Observadores do Médio Oriente estimam que o grupo disponha ainda de 10 000 combatentes refugiados nos túneis, aguardando a paragem das investidas do IDF para atingirem com os seus rockets aldeias judaicas.

      Numa pequena luz ao fim do túnel, representantes dos países árabes que se encontraram com o secretário de estado norte-americano Blinken no Qatar expressaram a posição que a manutenção de uma Faixa de Gaza governada pelo Hamas não é já solução para a difícil situação no terreno. O que coloca a questão do que fazer a seguir a guerra.

      A ocupação israelita de Gaza é incomportável do ponto de vista regional e mesmo dos interesses do estado judaico. Agigantaria o clamor árabe contra Israel e ilidiria as razões da operação militar. A solução mais acertada seria repristinar a situação ao quadro pré-2007 devolvendo à Autoridade Palestiniana a administração da Faixa de Gaza. O que poderia assumir com o apoio da comunidade internacional e dos países árabes vizinhos. Mas terá Mahmoud Abbas as condições politicas para desempenhar esta missão? E as forças militares da Autoridade Palestina terão a capacidade de garantirem a ordem pública e conterem actos de instabilização de militantes e apoiantes do Hamas? Mas aceitará o Irão a subalternização dos seus “proxies” na Palestina?

       

      Arnaldo Gonçalves

      Jurista e professor de Ciência Política e Relações Internacionais