José Gameiro na Livraria Portuguesa para partilhar uma abordagem mais empática da psiquiatria  

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O psiquiatra deve apenas diagnosticar e medicar, ou será que o tratamento de distúrbios psíquicos também passa pelas conversas que se tem com os doentes? Estas são algumas das questões que José Gameiro, psiquiatra português e fundador da Sociedade Portuguesa da Terapia Familiar, explora no seu livro “Ser Psiquiatra – Uma Vida entre Voos e Famílias”, livro que será apresentado esta quinta-feira, às 18h, na Livraria Portuguesa.

 

“Ser Psiquiatra – Uma Vida entre Voos e Famílias”, de José Gameiro, vai ser apresentado esta quinta-feira, dia 1 de Novembro, na Livraria Portuguesa, numa iniciativa conjunta da Associação dos Médicos de Língua Portuguesa e do jornal PONTO FINAL. O autor do livro está de visita a Macau, excelente pretexto para partilhar histórias da sua carreira profissional de mais de 40 anos ao serviço de doentes psiquiátricos, e famílias e casais com necessidade de apoio psicoterapêutico em Portugal.

Depois do internato em Santa Maria, em psiquiatria, esteve no já extinto hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, onde foi psiquiatra e depois chefe de serviço. Foi durante o internato em 1976 que com um grupo de colegas criou a Sociedade de Terapia Familiar, com vários estágios no estrangeiro, na Itália e nos Estados Unidos. “Na altura não havia em Portugal, e fomos nós que começámos”, contou.

Ao PONTO FINAL, o licenciado em Medicina pela Faculdade de Lisboa transmitiu o seu “diagnóstico” da Psiquiatria: por um lado, há melhorias a nível farmacológico, com menos efeitos secundários, o que permite a supressão dos sintomas, mas por outro perdeu-se a vertente da psiquiatria mais psicológica, de psicoterapeuta. “Quando eu fiz a minha formação quase todos os psiquiatras tinham formação de psicoterapeuta, ou seja, tinham a capacidade de diagnosticar e medicar, porque somos médicos, mas também de acompanhar psicologicamente as pessoas. Eu não mandava doentes para os psicólogos porque eu tinha capacidade de o fazer, achava que não valia a pena as pessoas irem a dois sítios diferentes”, partilhou.

Nos últimos anos, “os colegas mais jovens têm muito pouca formação de psicoterapeuta”, confessou, e agora trabalham em conjunto com psicólogos, enviando os pacientes para acompanhamento psicológico dos pacientes depois de os diagnosticarem e medicarem. Para José Gameiro, não há nada de errado com esta nova forma de trabalhar, contudo, “perdeu-se um bocado esta capacidade de falar com as pessoas”, que para si “é a parte mais interessante da psiquiatria”, já que a psiquiatria, como especialidade médica no estrito senso sem a parte psicológica, “não é muito interessante porque as doenças não são muitas, os diagnósticos são relativamente fáceis de fazer, e, por outro lado, as medicações também não são muitas. Eu costumo dizer a brincar que com seis ou sete medicações diferentes faz-se a psiquiatria toda”, acrescentou.

O profissional criticou também o lado da pressão comercial, já que actualmente muitos dos seus colegas trabalham convencionados com serviços e hospitais privados, “que tratam a psiquiatria como outra especialidade qualquer”, com consultas de 15 minutos, o que faz com que seja “muito difícil falar com as pessoas. Eu, independentemente de medicar ou não, sempre dei 50 minutos a cada doente para conversar”, frisou.

Foi talvez devido a estas lacunas que o médico enveredou para o campo da terapia familiar. “O que me interessa mais a mim é conversar com as pessoas e ajudá-las a resolver o sofrimento ou a doença, seja o que for.” Da terapia familiar foi afunilando pela terapia de casais, que diz ser o que mais gosta de fazer. Perguntámos se esta afinidade tem raízes na sua experiência pessoal, ao que o médico confessou ter mais com a vida dos seus pais, algo que só compreendeu a certa altura da vida. Estes temas são explorados no livro, assim como alguns momentos menos fáceis com outros membros da família. “Os meus pais separaram-se, mas tiveram uma separação muito sui generis, e eu vivi isso desde pequenino. Acho que ao fim de um tempo percebi como são todos os casais, e porque é que ao mesmo tempo eu estava tão à vontade com os casais. Acho que não tenho dificuldade nenhuma em estar a viver com os casais as coisas mais estranhas e diferentes”, confessou. Actualmente, continua a trabalhar em privado, mas apenas fazendo sobretudo consultas online em que acompanha doentes e casais antigos. “Sobretudo agora o que faço é gozar a vida e escrever. E viajar, viajo muito”.

Voltando a pegar nas viagens e em Macau, onde já por diversas vezes fez conferências e apresentou livros, quisemos saber se José Gameiro tem conhecimento da forma como a psiquiatria é praticada em Macau. Este referiu que já conheceu colegas portugueses, e que a ideia com que ficou na altura é que é uma psiquiatria “um pouco tradicional, um bocadinho a psiquiatria de remédios”, mas que pode estar enganado. Aproveitou para usar o caso de Macau como exemplo da psiquiatria a que se referia, “um psiquiatra que diagnostica e medica, e não fala assim muito com as pessoas”.

 

DEPRESSÕES QUE VÊM DO NADA

 

Quisemos ir mais fundo e compreender esta questão da forma como a psiquiatria prescreve um tratamento farmacológico. José Gameiro destacou a depressão, condição que afecta a grande maioria das pessoas que se dirigem a consultas de psiquiatria para falar sobre antidepressivos, fazendo um balanço positivo da forma como estes fármacos funcionam actualmente. “Há muitos antidepressivos e cada vez têm menos efeitos secundários, que era um problema antigo dos medicamentos psiquiátricos em geral. São muito bem tolerados. Hoje em dia as pessoas tomam antidepressivos e trabalham ao mesmo tempo”. Os medicamentos, portanto, suprimem os sintomas, mas José Gameiro voltou a salientar que isto não basta, já que em muitos casos a situação é mais completa. “A pessoa deixa de estar deprimida, ansiosa, a memória e capacidade cognitiva melhoram bastante ao fim de um tempo, mas algumas depressões têm a ver com questões da vida. Depois, é preciso trabalhar essas questões”.

Até mesmo os pacientes que sofrem das chamadas depressões endógenas, que não são produto das circunstâncias da vida e que “vêm do nada, são genéticas e químicas”, essas também necessitam de acompanhamento da parte do profissional, frisou o psiquiatra. É importante falar com as pessoas sobre o que elas estão a viver, “porque as pessoas têm vergonha de dizer que estão deprimidas e depois vão trabalhar e não conseguem. São aspectos que não têm a ver com o passado ou a vida das pessoas, mas com o aspecto profissional, que é preciso lidar com”, partilhou.

E as psicoses, como a esquizofrenia, como será que está o acompanhamento psiquiátrico a estes casos? José Gameiro falou de eficácia dos tratamentos, mas que embora tenha havido uma evolução neste campo, ainda está tudo muito lento. “Tudo na psiquiatria é lento”. Em Portugal, especificamente, falou de problemas, de falta de cuidados básicos de apoio domiciliário, de uma grande falta de psiquiatras infantis, e sobretudo de uma escassez de psiquiatras nos serviços do estado em geral. “Se em Portugal quiser ter apoio do estado vai ter muita dificuldade. Tem de pagar. Há alguns centros de saúde que têm, mas há uma enorme falta de pessoal”, referiu.