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      Início Parágrafo Parágrafo #85 HOMENAGEM A UM GRANDE

      HOMENAGEM A UM GRANDE

      No centenário do nascimento de Henrique de Senna Fernandes, um livro reúne estudos, análises e algumas abordagens originais à obra deste autor macaense. Nascido no âmbito do ECOAdOR (Grupo de Estudos de Culturas Ocidentais, Africanas e do Oriente), este é um volume de homenagem ao autor de Trança Feiticeira, mas é também uma reflexão a muitas vozes sobre uma obra e um legado que continuam a ser de difícil acesso para a maioria dos leitores. Os livros de Henrique de Senna Fernandes não se encontram facilmente nas livrarias, sendo mais provável dar com eles nalgum alfarrabista e apenas depois de intensas jornadas de procura. Nas bibliotecas portuguesas há alguns exemplares, mas muito menos do que seria de supor para um autor com a importância que este tem no panorama literário do século XX. Essa importância decorre, em parte, da sua identidade macaense, claro, uma vez que não há uma imensidão de escritores escrevendo a partir desse lugar, mas decorre sobretudo do modo como cultivou o trabalho da linguagem, da perspectiva que assumiu perante o ofício literário, da universalidade que alcançou sem nunca se afastar de uma ideia arreigada de identidade que tinha no território físico e emocional de Macau as suas raízes profundas. Seria preciso contrariar essa ausência de Senna Fernandes nos lugares, físicos e institucionais (como os currículos de escolas e universidades), onde a língua portuguesa e a literatura em português ainda se estudam e desbravam e este livro é um contributo para tal.
      O livro de homenagem, então. Com direcção de Lola G. Xavier e coordenação de Pedro D’Alte, Cem Anos de Henrique de Senna Fernandes reúne treze textos que analisam, contextualizam e percorrem de diferentes modos a obra e a biografia do homenageado. Em «Senna Fernandes: O percurso de três macaenses de múltiplas facetas», Maria Teresa Lopes da Silva recupera os dados biográficos conhecidos do autor e dos seus seus pai e avô, construindo um percurso familiar que elucida vários aspectos da história de Macau entre os séculos XIX e XX, bem como as influências e referências que alimentaram a escrita de Senna Fernandes. «Henrique de Senna Fernandes e a construção da memória literária de Macau», de Celina Veiga de Oliveira, propõe uma releitura dos dois livros de contos do autor para nesse corpus encontrar inúmeras referências que, à data da sua primeira publicação como hoje, compõem um retrato complexo de Macau, cruzando hábitos, tradições nascidas nas duas principais comunidades culturais do território, aspectos sociológicos que dão a ver modos de vida, classes sociais, crenças e práticas de toda a espécie. Essas referências não fazem, no entanto, da escrita de Senna Fernandes um mero registo de costumes, antes se integram numa construção literária que tem parte das suas fundações na relação com um território, sem com isso perder a sua universalidade.
      Há abordagens temáticas mais específicas neste livro, como acontece com o texto de Manuel Fernandes Rodrigues, que analisa as referências gastronómicas na obra de Senna Fernandes, das refeições de festa nas casas das famílias macaenses mais abastadas às comidas de rua acessíveis a quase todos os bolsos, ou o texto de Dilar Pereira, que descreve o processo de trabalho da sua autora na composição de um conjunto de ilustrações a partir da obra de Senna Fernandes (uma delas usada na capa do livro) que fez para este volume:
      A estes e outros textos junta-se um ensaio fotográfico, «Rio Interior», de Sara Augusto. As fotografias que o compõem foram captadas no Porto Interior e a sua relação com a obra de Senna Fernandes pode não ser imediata, mas vai-se desvendando à medida que o tempo, a sua passagem e as suas marcas se revelam como linha possível para esta sequência de imagens. Captar o tempo é uma das ilusões frequentemente apontadas ao gesto e ao processo fotográficos, mas a literatura – e provavelmente toda a existência humana nas suas múltiplas possibilidades de expressão – não é alheia a essa ilusão. Nos textos de Senna Fernandes como nas ruas de Macau, a consciência do tempo é coisa em permanente movimento tectónico, com o passado a surgir intimamente, como se nunca tivesse desaparecido, e o presente a revelar-se tantas vezes projecção do que ainda não aconteceu. Esse conflito mudo a que assistimos, fingindo que o seu epicentro não nos apanha, é uma leitura possível para estas imagens, reverberando a um tempo a prosa do autor homenageado e a própria cidade de Macau.
      Cem anos de Henrique de Senna Fernandes é um livro de pendor académico, o que costuma afastar leitores menos comprometidos com uma abordagem analítica ou bio-bibliográfica. Má escolha, esse afastamento. Algum jargão académico e teórico não tem por que comprometer uma leitura prazerosa e este livro acaba por funcionar como aqueles “companion” que as editoras anglófonas disponibilizam para se ler de modo mais suportado a obra de um autor. Sendo este autor simultaneamente pouco conhecido fora de um círculo mais restrito e extraordinariamente inventivo e relevante no panorama da literatura em língua portuguesa, não faltam motivos para usar este volume de homenagem como porta de entrada para os livros e a vida de Henrique de Senna Fernandes.

      Lola G. Xavier (dir.) e Pedro D’Alte (coord.)
      Cem anos de Henrique de Senna Fernandes
      Praiagrande Edições