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Terça-feira, 25 de Junho, 2024
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      Os olhos na Ásia

       

      A história de Bernardo Pinheiro Correia de Melo, feito Conde de Arnoso por Rei D. Carlos de Portugal e uma monarquia vetusta, tem mais em comum com Macau do que aquilo que o simples nome comprido e o título pomposo possam fazer imaginar. Como tem em comum com o facto de, para muitos e para este vosso escriba, ter-se cristalizado a imagem de Eça, do nosso Eça hoje outra vez tão polémico apesar de morto, enfiado numa cabaia. Gostaria de poder arguir, até, que Eça de Queiroz, de quem o Conde de Arnoso, como já se percebeu, foi próximo e amigo até ao nível do guarda-roupa, tivesse sido responsável pela escrita e de O Mandarim, um desses livrinhos divertidos que Eça nos deixou de herança, mas não disponho de talentos que me permitam prová-lo.
      Certo é que o Conde de Arnoso, homem exacto com as matemáticas que cursou, integrou a delegação que, em 1887, foi a Pequim negociar o tratado sobre a posse e administração de Macau, como tão bem conta Francisco José Viegas no prefácio que acompanha a edição da Quetzal de Jornadas pelo Mundo, livro resultante exactamente dessa longa viagem de Portugal à capital do Império do Meio. O tratado, assinado na presença do Conde de Arnoso e que reconhecia a administração portuguesa de Macau, foi assinado a 1 de Dezembro de 1887. Cem anos depois, em 1997, firmava-se também em Pequim a Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a Questão de Macau, que abriu caminho para o “retorno” de Macau à China.
      Da famigerada fotografia de Eça também dá notícia Francisco José Viegas, revelando que a dita foi tirada à época que o escritor era cônsul em Paris e que a cabaia fora trazida de Pequim pelo amigo Bernardo. O resto e o rastro desta oferenda chinesa na vida e no trabalho de Eça ficam à nossa imaginação.
      Jornadas Pelo Mundo, o livro do Conde de Arnoso, é então o relato pormenorizado desta longa viagem à China. Primeiro, de Marselha a Hong Kong; depois de Hong Kong, a ida para Macau e, finalmente, o império chinês. Em Macau, Bernardo ensaia aquilo a que o editor chama «uma espécie de segunda despedida portuguesa antes de se embrenhar no mapa do desconhecido, ou seja, da China». E é para lá que vamos.
      À distância, o relato dos dias que o nosso conde passou na península de Macau podem parecer – e parecem porque são – carregados de um patriotismo hoje difícil de suportar. Mas, para o caso, vale qualquer coisa aquela verdade universal: o contexto é o contexto é o contexto. «Encontrar terra portuguesa a mais de três mil e seiscentas léguas de distância da nossa querida pátria é tamanha ventura que os cinco dias que estivemos em Macau contarão na nossa vida como para o caminhante no deserto contam as horas de descanso passadas à sombra benfazeja das palmeiras de um oásis», escreve Bernardo nas linhas que abrem a secção dedicada a Macau. Depois, demora-se a nomear os bairros e os serviços à disposição da população e do visitante, com grandes laudas ao trabalho do já retirado governador Tomás Rosa, que chefiaria a delegação a Pequim. A igreja e os seus representantes merecem também várias palavras de apreço, como merecem as escolas. E se é gabada a «qualidade e competência dos mais grados funcionários [de Macau]», também é certo que as polícias locais são alvo do olhar minucioso do viajante para logo concluir que «o sistema de defesa de Macau deixa muito a desejar».
      Da Flora à Praia Grande, dos pagodes aos bairros chineses e às várias colinas do território, os passos do Conde de Arnoso e das suas conhecidas diatribes literárias haveriam de conduzi-lo irremediavelmente ao seu destino: «(…) salta-nos a cada instante aos bicos da pena a gruta de Camões». A gruta de Camões e o Vate são, para Bernardo, lugares obrigatórios do imaginário luso.
      As populações locais, os seus hábitos e tradições, também merecem a atenção do Conde de Arnoso. As casas de ópio despertam a sua curiosidade e aguçam o gosto pelo detalhe, deixando-se levar em longas exposições: «No centro da cama e sobre um tabuleiro de charão dispõem-se os cachimbos, a lâmpada de álcool, a pequenina caixa com o ópio e o estilete metálico com que se carrega o cachimbo. Contra a parede de fundo encostam-se os dois travesseiros chinas, duros como pedra, pois são sempre de madeira. Os cachimbos têm a forma de compridas flautas com o depósito para ópio atarraxado numa das extremidades.» E assim por diante durante várias páginas em que assiste à prática da fumaça.
      Nem sempre esta minúcia nas observações vem acompanhada da mesma dose de humanismo, como quando Bernardo descreve o «vício do jogo» ou, com a maior das naturalidades, dá conta da fábrica de desfiar seda que visitou e onde trabalhavam «quatrocentas e tantas mulheres», não bem mulheres, afinal. «A maior parte são crianças, pois é preciso ter óptima vista para enfiar o fio tenuíssimo da seda que se vai enrolar nas dobraduras movidas a vapor. A paga é proporcional ao trabalho que produzem».
      Nesta viagem pelos confins do império, o Conde de Arnoso revela-se um amante da pátria e daquilo que ela transportava para as partes do mundo onde assentava arraiais. Em Macau como em Hong Kong e na China Continental, numa prosa sóbria onde abundam e por vezes sobram as comparações a cada página, o amigo de Eça pôs os olhos na Ásia num tempo em que olhos e as palavras ainda pintavam a imaginação. É esse o principal mérito do livro. Na capital do império, extasiado e agonizado por tudo o que absorvera em tão pouco tempo, despede-se assim do leitor: «O sol de inverno, baixo e pálido, derretia a custo a geada que estendia como um lençol de linho sobre as nojentas ruas de Pequim.»

      Conde de Arnoso
      Jornadas Pelo Mundo
      Quetzal