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      “Família Feliz”, ou nem por isso? Valério Romão explora relações familiares em palestra na Casa Garden

       

      A intensidade das relações familiares, e os mal-entendidos que por vezes se criam, com “o absurdo que por vezes desencadeiam”, são temáticas que levaram Valério Romão a escrever a trilogia “Paternidades Falhadas”. O autor franco-português vai estar este sábado na Casa Garden à conversa sobre as suas obras “Autismo”, “O Da Joana” e “Cair Para Dentro”, que reflectem sobre a experiência humana de viver em família.

       

      Depois do cancelamento da sessão do Festival Rota das Letras devido ao sinal de tufão nº. 8, este sábado, dia 14, às 16h30 na Casa Garden, o escritor Valério Romão vai finalmente poder falar sobre a sua trilogia “Paternidades Falhadas” que explora as dinâmicas familiares, experiências que, na perspectiva do autor, continuam a ser uma das mais marcantes que o ser humano pode ter na sua vida. Ao PONTO FINAL, o escritor nascido em França confessou que lhe atrai esta ideia “da família como centro da nossa vida, e que pode comportar uma série de experiências diferentes, sendo que pode ser uma coisa muito boa, e um refúgio, como pode ser a pior coisa do mundo”.

      A palestra, que conta a orientação de Sara Figueiredo Costa, vai centrar-se nas três obras da trilogia, “O Autismo”, “O Da Joana”, e “Cair para Dentro”, e em mais um livro de contos, “Da Família”. Sobre a primeira obra, de 2012, o autor licenciado em Filosofia revelou que é pai de uma criança autista, mas que a obra não é autobiográfica, já que muito do romance é ficcionado. Contudo, “embora este seja um texto literário e não propriamente um diário, está perto de uma realidade que eu vivia”, admitiu.

      Ao PONTO FINAL, o autor confessou que o tema paternidade foi durante algum tempo “um bocado uma obsessão, trabalhar esse caleidoscópio de relações que existem dentro da família, e de configurações diferentes”. Para Valério Romão, estas questões são tão velhas como a humanidade, e são temas “universais e perenes” que são sempre interessantes de abordar. “São daquelas questões que vêm desde que o homem é homem, e a mulher é mulher, e constituem de facto uma família através de terem filhos, e de haver uma espécie de continuidade através da família”.

      Perguntámos ao autor, que tem desenvolvido também algum trabalho na área do teatro, e traduziu Virginia Woolf e Samuel Becket, se as suas obras têm algum nível de reflexão sobre diferentes formas de se ser pai ou mãe. “Não muito, tenho algum distanciamento em relação ao que poderia ser uma escrita política”, esclareceu. “Nestes livros interessou-me mais a intensidade das relações, e o absurdo que elas por vezes desencadeiam. Não me interessa muito ter uma perspectiva sociológica ou pedagógica das relações”.

      Quisemos insistir, e perguntar ao autor o que pensa das últimas tendências da educação infantil, da dita “parentalidade consciente” em que se procura escutar e considerar mais os sentimentos e opiniões dos mais novos do que se fazia antigamente. “Acho que passamos de um oposto para o oposto do outro lado”, admitiu Valério Romão. “Não sei se a nossa educação foi a melhor, provavelmente na nossa altura a nossa opinião enquanto crianças contava muito pouco”. No entanto, olhando para a sua volta, o escritor confessa que tem alguns amigos para quem a opinião dos seus filhos “conta em demasia”. “Espero que as pessoas tenham uma dose de bom senso para que as coisas sejam mais equilibradas”, lançou.

      E ser pai, é algo que rouba tempo à escrita? Para Valério Romão, a ideia “é um disparate”. Aliás, a experiência da paternidade, frisou, “é uma experiência que no limite, acrescenta à escrita, porque é mais uma experiência que o escritor junta ao seu portefólio de coisas vividas”.

      Valério Romão foi três vezes seleccionado no concurso nacional Jovens criadores (2000, 2001, 2002), duas em prosa, uma em poesia. Foi o representante português da área de literatura na Bienal de Jovens Criadores da Europa e do Mediterrâneo, em 2001, na Bósnia-Herzegovina. Ao lado de Gonçalo M. Tavares, foi finalista em 2016 do Prémio Femina, para o melhor romance estrangeiro publicado em francês.