O escritor Paul French apresentou os seus dois novos livros, “Destination Macau” e “Her Lotus Year”, perante uma plateia cheia no último dia do 14.º Festival Literário de Macau – Rota das Letras. O primeiro, lançado em 2025, é a terceira entrada na colecção “Destination”, centrada em edições anteriores sobre Xangai e Pequim, e traça um retrato vívido dos planos social, cultural e político da região de Macau dos séculos XIX e XX.
O autor britânico Paul French apresentou ontem, no último dia do 14.º Festival Literário de Macau, o seu mais recente livro, “Destination Macau”, a terceira entrada na série de livros sobre figuras relevantes do mundo Ocidental que visitaram a China. No evento de lançamento, que contou com uma plateia lotada, o escritor e historiador aproveitou ainda para expandir os temas da obra “Her Lotus Years”, editada o ano passado.
Depois das grandes metrópoles de Pequim e Xangai, Paul French teve várias opções em cima da mesa quanto à região a explorar no terceiro volume da colecção “Destination”. Com as restrições da pandemia de Covid-19, em 2020, o autor viu-se forçado a interromper as “viagens habituais à China” e a proceder a uma introspecção solitária sobre o que conhecia do país asiático. Foi Macau – uma região que, reconhece, não ocupa um lugar de tanto destaque nas livrarias mundiais como os destinos anteriormente escolhidos – a desaguar continuamente nas suas reflexões, talvez por ser um destino que sempre encarou como um “refúgio” propício a devaneios e inspiração.
“Macau foi sempre um sítio onde gostava de me sentar, olhar pela janela e sonhar. Para além disso, também já tinha escrito algumas histórias sobre Macau para o South China Morning Post e pensei que poderia expandir alguns tópicos de interesse”, recordou, confessando que outro dos factores que pesou na escolha foi a percepção algo estereotipada e pejorativa dos britânicos sobre a antiga colónia portuguesa. “O jornalismo sensacionalista inglês criou uma imagem de Macau como a representação mediterrânica na Ásia – e, quando os ingleses descrevem algo como ‘mediterrânico’, nunca o entendem como um elogio”, confessou.
Os escritores ingleses do século XIX – e, mais tarde, os norte-americanos – descreveram Macau como uma região “torporosa e retrógrada”, onde as personalidades “bem-sucedidas e estridentes” de Hong Kong ou do Interior da China vinham “libertar a tensão”. Segundo o autor, esta representação negativa da presença portuguesa pretendia estabelecer uma comparação com o domínio britânico em Hong Kong, que os autores ingleses da época auto-proclamavam como “a versão superior e mais bem-sucedida” da ocupação europeia na Ásia.
“Destination Macau” vem desmitificar esta ideia, pintando Macau antiga como um palco dinâmico partilhado por artistas, escritores, combatentes, refugiados de guerra… e, até, piratas. Ao todo, o livro reúne 18 ensaios sobre pessoas “fascinantes” – recorrendo ao adjectivo utilizado na descrição oficial da obra – que viveram ou passaram por Macau nos séculos XVIII e XIX, quando o território ainda se encontrava sob administração portuguesa.
A CHINA DOS ANOS 20, VISTA POR WALLIS SIMSPON
Uma das figuras célebres que viveu temporariamente na China foi Wallis Simpson, socialite norte-americana cujo casamento com Eduardo VIII a tornou uma das mulheres mais comentadas (e controversas) da história da realeza britânica. A sua passagem por Xangai e Pequim aos 28 anos, aquando do primeiro casamento, levou, mais tarde, a mitos sobre o propalado “Dossier Chinês”, uma suposta compilação dos alegados escândalos sexuais e criminais que teria cometido na China “caótica, em risco iminente de explosão” dos anos 20.
O livro “Her Lotus Year”, lançado por Paul French no ano passado e também apresentado na sessão de ontem do Rota das Letras, ajuda a clarear algumas das ideias pré-concebidas que, frisou, continuam a ser perpetuadas pelos tabloides britânicos. Através da lente de Wallis Simpson e das suas infames viagens pelo Oriente, o autor descreve uma região de Hong Kong ainda “bastante aborrecida”; uma cidade de Xangai vibrante, a fervilhar de bares de jazz e vida nocturna; e uma Pequim antiga, com templos e histórias ancestrais em cada pedra, pela qual a futura Duquesa de Windson se “apaixonou esteticamente”.
No evento de apresentação, o autor revelou que o ponto de partida para a criação desta obra não foi Wallis Simpson, mas sim o seu próprio fascínio pelos “loucos anos 20” da China – mais especificamente, sobre os anos fulcrais de 1924 e 1925. “Em 1911, temos o fim da dinastia Qing e o início da primeira República. Depois, em 1937, surge a invasão da China pelo Japão. Pelo meio, temos uma altura completamente caótica”, apontou, citando como exemplos os confrontos entre senhores de guerra, as greves de Hong Kong e os conflitos internos entre as forças revolucionárias de Sun Yat Sen. “Foi quando a China poderia ter explodido e passado a parecer-se com a Ásia Central que conhecemos hoje”.
O nome da duquesa de Windsor foi essencial para impulsionar um livro que, no seu âmago, é uma investigação profunda sobre a China fragmentada da segunda década do século XX. “Imaginemos este livro: ‘Paul French, a China de 1924’. Ninguém o compraria, pois não? Mas a Wallis Simpson é muito conhecida do público; já todos ouviram falar da sua história”, admitiu. Se a interpretam como “a maior história de amor alguma vez contada” ou “o relato de como uma mulher quase destruiu a família real britânica”, depende das perspectivas. Ainda assim, o espaço de tempo em que a socialite permaneceu na China – precisamente entre Setembro de 1924 e Setembro de 2025 – coloca-a “no centro do furacão” socio-político do país e impacta, definitivamente, a sua reputação na Europa.
“O facto de ser americana e divorciada duas vezes não era suficiente: tiveram de inventar algo mais. São os anos 30, em que se conta histórias sobre Fu Manchu e o ‘perigo amarelo’. Diz-se que nenhuma mulher branca deve ir à China, que corre o perigo de perder o seu compasso moral. É neste contexto que surge aquilo a que chamam o “dossier chinês”, que na realidade nunca existiu fisicamente”, explica o autor. Em vez disso, foi orquestrada uma “campanha de sussurros” que sugeria uma série de actividades criminosas supostamente levadas a cabo nas suas passagens por Xangai e Pequim: desde tráfico de ópio a uma sessão de fotografias pornográficas com Victor Sassoon, deixando pelo meio uma série de casamentos arruinados e corações despedaçados. Nenhum destes rumores tinha uma fundação sólida nem foi capaz de cumprir o objectivo de estabilizar a monarquia: Eduardo VIII abdicou do trono, casou-se com a mulher que desejava e o casal acabou exilado em França. A reputação de Wallis Simpson, isso sim, “ficou manchada durante um século”.
Os livros “Destination Macau” e “Her Lotus Year”, da autoria de Paul French, já se encontram disponíveis em Macau e podem ser adquiridos na Livraria Portuguesa. Entre algumas das obras mais célebres do autor, actualmente sediado em Xangai, incluem-se o ‘best-seller’ “Meia-Noite em Pequim”, “City of Devils” e “Carl Crow”.
C.B.












