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Sexta-feira, 24 de Maio, 2024
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      CRÓNICA

      Dora Gago

      Macau – cheiros, sabores e saberes colados à alma

      Vi Macau, pela primeira vez, em Agosto de 1991 – um prémio de escrita inesperado, ganho num Concurso promovido pela Comissão dos Descobrimentos Portugueses, em parceria com o Instituto Português da Juventude, quando terminara o primeiro ano da minha licenciatura, conduziu-me àquele universo, onde tudo era diferente, e, ao mesmo tempo, embrulhado na breve névoa da familiaridade. Viajei com um grupo de outros cinquenta jovens, deslumbrados, inquietos e incrédulos com aquele remoto recanto do planeta, onde, no seio do exotismo, emergiam marcas de uma qualquer cidade ou vila portuguesa. Contudo, nessa ilusão das semelhanças, irrompia o distinto, o diverso: nesse tempo, nas bancas do Mercado Vermelho de Macau eram vendidas ratazanas e outros animais estranhos. Recordo um grande peixe vivo a contorcer-se amarrado a um poste, uma profusão de cheiros, de cores, de ruídos e de línguas desconhecidas, colava-se à pele, junto com um calor e uma humidade que ameaçavam dissolver-me. Essas imagens unidas à memória suave dos arrozais de Cantão pintados de um verde feito de porcelana, que o voo dos patos bravos rasgava, afluíam-me ao pensamento enquanto colocava as últimas roupas dentro do troley para nova viagem a Macau, vinte anos depois e, desta vez, por motivos profissionais.

      Após comboios atrasados, uma maratona para apanhar o avião, mais de dezasseis horas de voo e uma viagem de ferry, por fim: Macau! Novo reino de arranha-céus, casinos e hotéis, tão diferente do que me habitava a memória. Penso que não vou gostar daquela selva de pedra impregnada de gente. A forte sensação de estranhamento, a dificuldade de comunicação, a neblina densa do profundo cansaço a toldar tudo, a esvaziar o pensamento, os gestos e as palavras. Após ter dito ao taxista, várias vezes, o nome do hotel em inglês, mostro os desenhos e caracteres que o designam – e com os quais vim munida a conselho de um amigo. A seguir, a minha entrada no hotel é assinalada triunfalmente por apitos de alarmes que conquistam a atenção dos seguranças…. Entrei por engano no casino e, além do mais, pelo sítio errado…é que a recepção ficava no 21º andar e o Casino no rés-do-chão!

      Exausta, vou ao restaurante do hotel. O menu é um indecifrável enigma de caracteres acompanhados de fotos esbatidas. Peço algo verde – talvez um bom presságio, cor da esperança –meia hora depois, vem uma tigelinha pequena, dois pauzinhos e uma malga grande cheia de água, onde nada uma “couve-alface” (não cheguei a perceber se era uma ou outra) inteira e de porte atlético. Munida dos dois pauzinhos, luto bravamente contra a integridade e a inteireza inabalável daquele misterioso vegetal. Mas ele continua flutuando, impávido, indiferente aos meus esforços, à minha fome. Começo a atacar o vegetal com os pauzinhos, a tentar desfolhá-lo a qualquer custo…Sou uma “cro-magnon” desesperada a esquartejar o seu alimento, na ávida luta pela sobrevivência. Passado algum tempo, mediante os olhares de diversão dos funcionários, consigo empatar com a “alface-acouvalhada” na luta – fica metade comida e metade intacta – sem outros danos colaterais, para além duma toalha pejada de grandes nódoas.

      Hoje, posso dizer que aquele combate com o estranho vegetal foi apenas o primeiro capítulo de uma nova vida ainda por escrever. Após mais de nove anos vivendo em Macau, muitas outras batalhas, um inesgotável manancial de aprendizagens, sei que tenho línguas, cheiros e sabores colados à pele, tatuados na alma, que há cada dia novos mundos para construir e decifrar para além da casca rugosa do quotidiano.