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      “Queremos construir uma visão para o IPOR que espelhe uma agenda transformadora e inovadora”

       

      Patrícia Ribeiro iniciou recentemente funções como directora do Instituto Português do Oriente (IPOR) e quer agora identificar as necessidades da instituição de ensino e promoção de língua portuguesa, por forma a estabelecer uma estratégia para o futuro. Em entrevista ao PONTO FINAL, Patrícia Ribeiro assinala, ainda assim, que uma das metas do IPOR é estabelecer uma agenda “transformadora e inovadora” para “reposicionar e reforçar a intervenção do IPOR em Macau e também nesta região do globo”.

       

      Foi no passado dia 10 de Julho que Patrícia Ribeiro tomou posse como nova directora do Instituto Português do Oriente (IPOR), apesar de já estar ligada à instituição desde 2005. De forma a identificar as necessidades da instituição de ensino e promoção de língua portuguesa, Patrícia Ribeiro quer agora dar início a um “momento de reflexão” e auscultar opiniões de trabalhadores, utilizadores e entidades parceiras. “Nós queremos identificar, através de processos de auscultação, quais as necessidades que realmente existem, por forma a o IPOR criar estratégias para ir ao encontro dessas necessidades e poder responder da melhor forma ao que realmente tanto as instituições como os colaboradores e utilizadores do IPOR pretendem”, afirma, em entrevista ao PONTO FINAL. Em traços gerais, a nova directora afirma que quer “construir uma visão para o IPOR que espelhe uma agenda transformadora e inovadora, de forma a reposicionar e reforçar a intervenção do IPOR em Macau e também nesta região do globo”. Um dos focos vai ser a formação de professores, não apenas em Macau mas também nesta região do globo.

       

      Iniciou funções enquanto directora do IPOR há pouco tempo. Que planos já tem para o futuro?

      Esta direcção tomou posse já com um plano de actividades aprovado em assembleia-geral para 2023 e cumpre-nos cumprir este plano de actividades até ao final do ano. Entretanto, vamos começando a fazer uma reflexão e um exercício prospectivo daquilo que poderá ser o próximo ano e as intervenções que poderemos vir a ter. Queremos construir uma visão para o IPOR que espelhe uma agenda transformadora e inovadora, de forma a reposicionar e reforçar a intervenção do IPOR em Macau e também nesta região do globo.

       

      Através de algum projecto concreto?

      Nós vamos criar uma agenda que pretendemos que seja mobilizadora. Queremos alterar a actuação do IPOR. É preciso, para já, fazer uma boa reflexão sobre os últimos anos que tivemos e esta agenda mobilizadora vai procurar, de certa maneira, reforçar a colaboração não só com os nossos funcionários, mas também com as entidades parceiras com quem trabalhamos e também com os utilizadores do IPOR. Nós queremos identificar, através de processos de auscultação, quais as necessidades que realmente existem, por forma a o IPOR criar estratégias para ir ao encontro dessas necessidades e poder responder da melhor forma ao que realmente tanto as instituições como os colaboradores e utilizadores do IPOR pretendem. Só assim o IPOR poderá ter uma intervenção mais reforçada do seu trabalho no dia-a-dia.

       

      Não há nenhum projecto que já esteja pensado? Novidades nos cursos?

      Este momento de reflexão visa exactamente construir um plano de actividades para 2024 que pretendemos que seja inovador, no sentido de poder responder a estas questões das necessidades destes interlocutores. A reflexão que vamos fazer vai implicar a identificação de eixos de actuação em várias áreas. Um deles irá ser na área de formação de professores que queremos reforçar, não apenas aqui em Macau, mas também nesta região, tendo em conta o protocolo que foi assinado com o [Instituto] Camões em que os leitores desta zona da Ásia passam a ser coordenados pelo IPOR. E reforçar um conjunto de actividades em itinerância aqui por esta zona, ou seja, poder trazer um escritor e depois ele ir a Xangai, à Indonésia ou à Tailândia. Fazer este percurso de forma a que possamos também aproveitar melhor os recursos e dar mais oportunidades de dar a conhecer a nossa cultura, os nossos artistas, os nossos escritores.

       

      Nessa vertente de promoção da língua portuguesa não só em Macau mas nesta região, há outros projectos em vista?

      A cultura é indissociável da língua e é uma maneira de reforçar a aprendizagem e de a contextualizar noutros âmbitos, de forma às pessoas poderem não só sentir a língua noutros contextos e não apenas na parte formal das aulas, mas também tendo acesso à língua nesta parte cultural. Isso permite não só perceber que ela é utilizada, como é que ela é utilizada e como é que eles a vêem. Estes mecanismos de utilizar a cultura como reforço da aprendizagem tem sido uma linha do IPOR e vamos continuar a fazer este reforço com outras actividades mais no âmbito das escolas, levando artistas às escolas para fazerem workshops de várias áreas, desde o teatro às áreas performativas até à narração de histórias, e depois proporcionar também espectáculos ou outras formas artísticas para o público em geral, incentivando sempre os nossos formandos a participar.

       

      Como é que está a decorrer essa colaboração com as instituições de ensino locais?

      Tem sido boa. Nos últimos anos temos a possibilidade de ensinar a língua portuguesa em escolas privadas através de programas da DSEDJ [Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude], que sofreram uma pequena alteração mas continua a haver esse incentivo. O ensino do português em algumas escolas tem sido feito pelo IPOR, como actividade curricular ou extracurricular. Além disso, nós também disponibilizamos uma plataforma de leitura online que as escolas podem utilizar como complemento das aulas, as crianças em casa podem utilizar essa ferramenta para praticar e reforçar as suas competências nas línguas. Os próprios professores podem utilizá-la também nas aulas para dinamizar outras actividades. Além disso, para os programas que trazemos tanto de teatro como de narração de histórias, nós convidamos as escolas a ter estes espectáculos e normalmente são bem aceites. Fazemos várias sessões em escolas luso-chinesas de Macau, podendo então estes artistas proporcionar momentos lúdicos em língua portuguesa às crianças.

       

      O IPOR está quase a fazer 35 anos. Como é que avalia o trabalho do instituto ao longo deste tempo?

      O IPOR tem uma história vasta. Já passámos por vários momentos e todas as direcções contribuíram de alguma maneira para aquilo que hoje o IPOR representa em Macau. Faço um balanço muito positivo, tendo em conta tudo o que foi feito até ao momento, todos os actores que pudemos trazer a Macau, nas várias áreas artísticas, nos projectos que já desenvolvemos até hoje em várias áreas, no leque que hoje em dia o IPOR oferece na área da formação em língua portuguesa e também na área de formação de professores, com organização de colóquios e encontros anuais de professores. Faço um balanço muito positivo daquilo que o IPOR até hoje cumpriu na sua missão que é a difusão da língua e da cultura portuguesa, sendo esta uma noção um bocado vasta. Cumprimos os objectivos para os quais a instituição foi criada. Claro que teremos sempre – e é um objectivo desta direcção – de procurar a inovação, procurar chegar mais longe e criar estratégias para que a intervenção do IPOR seja ainda mais reforçada.

       

      Como é que se pode reforçar essa presença do IPOR no futuro?

      A reflexão que estamos a fazer vai ao encontro de procurar ver o que é que se fez nestes últimos anos, porque nos últimos dois anos houve uma atitude reactiva ao momento, tivemos de responder muito rapidamente a muitas questões que foram surgindo e com soluções de momento, sem ter muito tempo para pensar. O objectivo agora é criar uma reflexão, actuar mais proactivamente e criar estratégias para o futuro. Essas vão também responder e vão ter em conta todo o conhecimento adquirido até agora. Será com muita força e empenho que vamos tentar alargar e recriar novas formações e novos instrumentos para continuar a divulgar a língua.

       

      No ano passado, verificou-se uma redução do número de formandos nos vários cursos da oferta do IPOR, de 4.146 em 2021, para 3.458 em 2022. A culpa é só da pandemia, ou tem havido um maior desinteresse na língua portuguesa?

      Tem a ver muito com a pandemia e o desinteresse é decorrente da pandemia. Ou seja, as pessoas deixaram de, nestes últimos anos, sentirem prioridade na aprendizagem porque têm outras coisas em que pensar e outras necessidades para responder, deixando a formação um bocadinho de lado. Claro que a instabilidade que surgiu veio proporcionar algumas desistências de pessoas que se viram perante situações financeiras que não estavam previstas e claro que isto é um reflexo da situação que vivemos. Por outro lado, verificámos que o público que vem das universidades diminuiu bastante porque Macau deixou de ter estudantes vindos de fora que vêm para as universidades fazerem a sua licenciatura em língua e tradução e que vinham ao IPOR fazer um reforço. Por outro lado – também reflexo da pandemia – as pessoas procuram hoje em dia outro tipo de formações que não sejam tão instáveis. Começar um curso e entretanto interromper porque é preciso fazer um ‘lockdown’, suspender aulas, reagendar aulas, tudo isto criou muita instabilidade no nosso curso mais importante, que é o Curso Geral. Procuram, neste momento, formações mais curtas, com certificação, e nós temos tentado responder de melhor forma a esta nova tendência e nós estamos a fazer essa reflexão para o futuro para vermos como é que nos vamos adaptar, tendo em conta os mecanismos que existem em Macau.

       

      Haverá essa preocupação, no futuro, de realizar cursos mais curtos?

      Sim, sendo que a certificação de uma língua tem uma componente de horas mínimas e depois terão exames de certificação que tem requisitos muito próprios, por isso, a formação nunca poderá deixar de ser dada de forma a que permita chegar às competências mínimas para poder ter certificação. O IPOR terá sempre de procurar cursos que correspondam a esses objectivos de obtenção de certificação. Não temos fórmulas mágicas e as pessoas têm de compreender que têm de cumprir aquelas horas, porque senão não conseguem chegar lá. Isso é em relação ao português como em outra língua qualquer.

       

      Há alguma perspectiva sobre quando é que o IPOR poderá começar a recuperar o número de alunos até aos níveis pré-pandemia?

      Eu penso que apenas em 2024 é que vamos conseguir chegar lá. Este ano ainda é muito cedo para fazer esse balanço.

       

      Considera que os formandos que saem do IPOR saem com um bom nível de preparação?

      O curso tem cinco níveis e quando terminam qualquer um dos níveis têm as competências adquiridas. Se têm certificado no final da formação é porque adquiriram e conseguiram chegar lá. Considero que sim, que os nossos cursos continuam a ser uma referência em Macau para quem quer aprender português. As pessoas que nos procuram sabem automaticamente que aqui encontram formação de qualidade e que as competências que adquirirem aqui são aquelas que correspondem ao Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas, portanto, têm a certeza de que uma certificação do IPOR lhes dá as competências exactas da língua. Fico muito contente por várias pessoas se dirigirem ao IPOR e dizerem: “Este é o sítio que me referenciaram para aprender português ou para reforçar o português ou para ter a minha certificação em língua portuguesa”.

       

      Como é que avalia o estado e a preservação da língua portuguesa em Macau?

      Há muitas pessoas que chegam a Macau e dizem que aqui não se fala português. Eu não concordo e uma das coisas que eu costumo dizer a quem chega, principalmente novos professores que vêm para o IPOR, é: Vocês tenham sempre cuidado onde falam e como falam. Isto vê-se pelo trabalho que o IPOR tem feito ao longo destes 35 anos. O número de alunos que já passaram por aqui, todos os funcionários da Função Pública têm de saber português, eles vêm ao IPOR para saber português em várias áreas específicas. Todos os elementos das forças de segurança de Macau fazem formação em língua portuguesa e é o IPOR que assegura essa formação. Damos também formação no Instituto de Formação Turística. Se formos contabilizar os números todos ao longo destes anos temos um número vastíssimo de pessoas que passaram pelo IPOR e aprenderam português. Fala-se mais português em Macau do que se pensa.

       

      Está salvaguardada a presença da língua portuguesa em Macau, no futuro?

      Sim, sim.