Agnes Lam considera que o surgimento de mais conflitos e altercações na internet deve-se ao facto de os cidadãos não terem meios para resolver as disputas interpessoais no local de trabalho. A académica destacou que é necessário um mecanismo para as pessoas apresentarem queixas e resolver eficazmente os ressentimentos e até casos de ‘bullying’.
Quer os serviços públicos, quer as entidades privadas em Macau, devem estabelecer um mecanismo especializado para tratar as disputas ocorridas no local de trabalho, afirmou Agnes Lam, sugerindo que seja criado um canal para receber e acompanhar as queixas e denúncias dos trabalhadores sobre conflitos e até ‘bullying’. A académica disse que um mecanismo de mediação e conciliação vai reduzir os “desabafos online” por parte dos cidadãos, evitando igualmente casos de ‘cyberbullying’.
Agnes Lam, que esteve no “Fórum Macau”, programa matinal da Rádio Macau em língua chinesa, destacou que, em todo o mundo, muitos departamentos governamentais e organizações privadas estão a promover o estabelecimento de comissários de mediação.
“Em caso de conflito ou insatisfação com a empresa ou colegas, as pessoas podem ter medo de recorrer ao patrão ou à direcção, por poder causar algum impacto na sua carreira, e assim podem solicitar ajuda a um agente independente para proceder à mediação”, salientou a académica. Segundo a mesma, o referido agente de mediação não deve ser funcionário da empresa em questão, mas fazer parte de um departamento independente.
A questão foi levantada na sequência de um relato de um cidadão no programa ao revelar que um amigo seu, que trabalha num casino e tem problemas emocionais, é vítima de ‘cyberbullying’, tendo sido caluniado pelos seus colegas na internet com informações falsas. “Foi ameaçado, disseram que sabem onde mora, que vão falar com a família dele. Mas a empresa só lhe diz para pedir ajuda à polícia”, salientou o cidadão, de apelido Chan.
A também professora associada do Departamento de Comunicação da Universidade de Macau reconhece que, em alguns casos, os regulamentos para funcionários podem não chegar a resolver problemas.
“As pessoas, quando encontram problemas, vão falar na internet por vingança para punir as pessoas responsáveis. Isso é porque na realidade não há uma saída para resolver esses problemas, não há uma mediação, nem um mecanismo para resolver os conflitos”, observou.
FENÓMENO “ECHO CHAMBER”
Por outro lado, Agnes Lam alertou para os problemas no uso de internet, sendo que os jovens são utilizadores moderados a pesados da Internet, contudo, o processo da pesquisa para a implementação de políticas para regular os comportamentos online não consegue acompanhar o desenvolvimento do mundo.
A também ex-deputada à Assembleia Legislativa apontou que muitas pessoas querem recuperar a sua autoconfiança na internet. “As redes sociais usam algoritmos para recomendar informações personalizadas, para que os utilizadores possam aceder ao conteúdo de que gostam, mas restringe o acesso a informação abrangente, a opiniões diferentes, tornando mais fácil para os indivíduos serem manipulados por informações online”, observou a académica, referindo o exemplo do fenómeno “Echo Chamber”, em que as pessoas recebem opiniões singulares consoante os seus gostos.
Un Lai Mui, coordenadora do Gabinete Coordenador dos Serviços Sociais Sheng Kung Hui Macau, por sua vez, citou um inquérito sobre a utilização de internet a dizer que os jovens em Macau passam 6,5 horas online por dia e cada jovem tem mais de uma conta nas redes sociais para expressar opiniões em diferentes plataformas. A responsável admitiu ter recebido pedidos de ajuda de ‘cyberbullying’, e a associação também está atenta a possíveis vítimas de ataques pessoais nas redes sociais para prestar aconselhamento emocional.
A coordenadora sublinhou que a literacia da Internet é um tema recente em Macau, acreditando que levará algum tempo para desenvolvê-la em Macau.











