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      InícioEntrevista"Há agora uma grande projecção da cultura como factor diferenciador em Macau"

      “Há agora uma grande projecção da cultura como factor diferenciador em Macau”

       Catarina Cottinelli substituiu Ana Paula Cleto como delegada da Fundação Oriente em Macau em Abril. Em entrevista ao PONTO FINAL, a arquitecta admite que ainda está em fase de adaptação às novas funções, mas adianta que uma das prioridades para 2024 é a consolidação da estrutura da Casa Garden. Outro dos focos é abrir as portas à Grande Baía para que haja um “intercâmbio cultural”. “Nós temos a intenção de dar a conhecer a Macau cultural”, sublinha. Catarina Cottinelli diz ainda que quer envolver mais as franjas da sociedade que estão mais esquecidas. Por outro lado, a delegada disse também acreditar que a Fundação Oriente poderá, com a reabertura das fronteiras e com um maior apoio dos casinos, executar projectos de maior envergadura.

      Texto e fotografia: André Vinagre

       

      A nova delegada da Fundação Oriente em Macau, Catarina Cottinelli, entrou em funções em Abril, substituindo Ana Paula Cleto, que estava naquelas funções há 13 anos. Em entrevista ao PONTO FINAL, a arquitecta assume que ainda está a inteirar-se sobre os trabalhos da Fundação Oriente, ao mesmo tempo que cumpre o plano de actividades que já estava preparado até ao fim do ano. Para o próximo ano, a ideia é abrir a Casa Garden às franjas da sociedades mais esquecidas, como os idosos ou pessoas com diminuições cognitivas. Mas a prioridade para 2024 será a consolidação da estrutura da Casa Garden, até porque aquele espaço “é muito apelativo, toda a gente quer vir para aqui – esta casa tem um magnetismo qualquer”, diz. Outra das intenções é seguir a intenção das autoridades de promover a cultura de Macau no exterior como forma de diversificar a economia: “Temos também uma missão que é tentar integrar os objectivos gerais desta nova era. Nós temos a intenção de dar a conhecer a Macau cultural”. “Nós vamos querer estar integrados nas linhas estratégicas do desenvolvimento de Macau. Obviamente seremos parceiros naquilo que for útil”, afirma na entrevista. Catarina Cottinelli também afirma que este ano, com um maior apoio das operadoras de jogo, será possível a Fundação Oriente organizar projectos que impliquem um maior orçamento.

       

      Iniciou funções como delegada da Fundação Oriente em Macau em Abril. Que balanço faz destes primeiros meses?

      Eu já estou em Macau há mais de cinco anos. Vim cá para acompanhar o meu marido e fui-me adaptando a uma cultura diferente. Fui convidada para dar aulas na Universidade de São José porque tinha essa experiência trazida de Portugal, tinha 30 anos de ensino de arquitectura na Faculdade de Arquitectura em Lisboa. Depois também tive outras actividades relacionadas com vários aspectos da vida local e da comunidade, como alguns cursos de pintura e gravura que fiz nas oficinas da Casa de Portugal. Fiz também algum trabalho de voluntariado, para conhecer de forma mais profunda a comunidade chinesa. Cheguei aqui à Fundação depois destes cinco anos por uma razão muito simples: A Paula Cleto [antiga delegada da Fundação Oriente em Macau], que conhecia razoavelmente bem, disse-me que havia um concurso a decorrer em Lisboa para o lugar que ela ia deixar. Era um desafio que estava muito longe da minha realidade, foi uma coisa inesperada. Candidatei-me ao lugar, fui seleccionada entre 30 ou 40 pessoas que estavam interessadas neste posto. No fundo, este é um posto com grande visibilidade, é uma espécie de adido cultural de Portugal com presença forte aqui. Assumi isto depois de várias entrevistas, uma em Lisboa com o doutor João Amorim [administrador da Fundação Oriente] e o doutor Carlos Monjardino [presidente da Fundação Oriente]. Neste momento ainda estou num trabalho de inteirar-me dos assuntos, porque eu venho a meio do plano de actividades que já estava preparado antes de eu chegar aqui. Eu tenciono cumprir e honrar algumas das situações e compromissos que estão mais ou menos alinhavados.

       

      Qual é, então, o programa que vai levar a cabo até Dezembro?

      Temos várias actividades que já estão em curso. Em Julho temos actividades mais ligadas à música: o Zé Eduardo, que foi um dos fundadores do Hot Club, está a fazer um curso e haverá um concerto no dia 22; Também temos aqui a Macau Youth Orchestra que virá fazer aqui concertos nos dias 19 a 25 de Julho. Até Dezembro temos algumas residências, uma exposição que vem agora em Setembro do arquitecto Eduardo Flores, que foi um arquitecto que deixou um legado em Macau, estará cá no mês de Setembro e fará uma exposição, seminários e palestras sobre a sua obra. Depois temos ainda a Clara Brito, que é uma artista local, a quem nós facultámos um espaço para ela poder trabalhar, e neste momento está a preparar a sua exposição individual que decorrerá em Setembro/Outubro. Temos ainda o Festival Literário durante a permanência da exposição da Clara Brito. Há também outros compromissos que escorregaram para mais tarde, há uma exposição muito interessante que ficou para Dezembro, que se chama “400 Anos de Cartografia de Macau”. Ainda vamos ter o festival de curtas com pessoas que vêm cá – porque Macau agora abriu e há uma chuva de pedidos para vir cá.

       

      E para depois de Dezembro, o que é que tem já pensado para o próximo plano de actividades?

      Eu tenho alguns eixos que me vão nortear em termos de calendário das actividades e em termos de gestão da Casa [Garden]. A Casa faz parte da herança do património classificado de Macau. Temos problemas de consolidação da sua estrutura. Sei que a Casa da Bela Vista está a ser remodelada e, por isso, eu tenho aqui albergado o nosso cônsul-geral. Está a viver connosco e tem sido um vizinho fantástico. Para 2024, gostaria de ter como objectivo fundamental consolidar a estrutura desta casa. Depois temos esta vocação das residências, é muito apelativo, toda a gente quer vir para aqui – esta casa tem um magnetismo qualquer. A minha intenção é integrar as comunidades chinesa e macaense e portuguesa. E temos um projecto de abrir para a Grande Baía, trazer artistas da Grande Baía, fazer este intercâmbio cultural. Há agora uma grande projecção da cultura como factor diferenciador em Macau, a tal diversidade que os casinos têm de ter. Nós também temos essa capacidade de vir a fazer projectos maiores, de grande escala. Somos um sítio de prestígio para a comunidade, e temos também uma missão que é tentar integrar os objectivos gerais desta nova era. Nós temos a intenção de dar a conhecer a Macau cultural. Macau tem agora alguns eixos, não só a cultura mas também a saúde. Nós vamos querer estar integrados nas linhas estratégicas do desenvolvimento de Macau. Obviamente seremos parceiros naquilo que for útil.

       

      Esse foi um pedido do Governo ou esse alinhamento com a estratégia do Governo é de iniciativa própria da Fundação?

      Não. É por nossa iniciativa e eu acho que é uma coisa que tem interesse para nós, do ponto de vista cultural. Os casinos agora vão ter mais dinheiro para fazerem coisas mais visíveis e para trazerem artistas mais famosos. Temos de consertar alguns interesses. Nós temos uma missão que não podemos deixar de lado, que é fazer o intercâmbio entre a cultura portuguesa e a cultura chinesa, mas obviamente integrada na estratégia no território onde estamos incluídos, não podemos estar fora dela se não os nossos objectivos não casam.

       

      Em Abril, Carlos Monjardino, presidente da Fundação Oriente, disse, em entrevista ao Jornal Tribuna de Macau, que gostava de apostar na área social. Também tem essa visão?

      Tenho. No fundo, a cultura é inclusiva. Macau tem um problema de densidade populacional. Talvez não nos damos conta de que existem outros problemas sociais porque Macau é uma região rica e muitas pessoas com dificuldades têm muitos apoios do Governo.

       

      E a Fundação Oriente tem algum papel para tentar mitigar os problemas sociais?

      Em tempos, a Fundação Oriente terá tido esse papel de apoiar na construção de bairros sociais. Mas quando houve o ‘handover’ deixámos isso para a Fundação Macau e ligou-se mais à parte cultural. Neste momento, é através destas acções culturais que tentamos integrar essas pessoas. Há também uma função que é tentar trazer pessoas com algum tipo de diminuição cognitiva para dentro destas acções culturais, quer na música, quer na pintura, quer em actividades com crianças. Eu tenho algumas ideias, até já falei com a doutora Patrícia Ribeiro [directora do IPOR] e temos alguns planos em conjunto para fazermos algumas coisas nesse sentido.

       

      Algum projecto em concreto que queira revelar já?

      Não tenho ainda planos concretos, mas a ideia seria chegar a mais pessoas através da inclusão. Não apenas pela visibilidade das grandes exposições, mas também dar paralelo a essas pessoas a oportunidade de partilharem algum conhecimento.

       

      A Fundação Oriente também tem um papel educativo. O que é que poderá ser feito nesse aspecto?

      Temos tido parceiros para fazer essa parte. Nós não temos pessoal especializado na parte educativa, como em Lisboa. Uma das coisas que gostaria de fazer mais no próximo ano seria ter mais workshops e mais partilha directa durante o período das exposições. Ser um pouco mais aberto ao exterior, havendo uma partilha maior com acções que possam trazer mais pessoas aqui. Gostaria também de cobrir a parte mais sénior. Há uma série de comunidades que estão um pouco esquecidas e que eu gostaria de trazer para dentro da Casa, não sei muito bem como, mas acho que é importante.

       

      Como tem sido a relação com as instituições e entidades, quer públicas quer privadas, de Macau?

      Nós temos alguns parceiros com quem trabalhamos directamente e outros mais indirectamente. Obviamente temos os parceiros do costume, a Casa de Portugal, o IPOR, o Albergue. Há uma boa relação com todas as entidades, privadas e públicas. Com o Instituto Cultural também fizemos projectos. Agora, com o apoio dos casinos, vamos ter mais oportunidade de trazer coisas com maior dimensão ou que impliquem maior orçamento.

       

      Na sua opinião, a cultura portuguesa tem sido bem promovida em Macau?

      Esta é uma comunidade bastante forte. Os portugueses têm tido uma presença muito activa aqui. Nós difundimos a nossa cultura através da língua portuguesa, daí estarmos presentes com o IPOR que é o braço armado do Consulado. A presença portuguesa aqui é também difundir a língua e cultura através da formação e da educação.

       

      Há ainda trabalho a fazer para difundir melhor a língua e a cultura portuguesa aqui?

      Sim. As pessoas agora têm mais abertura para isso. A ida a Portugal do Chefe do Executivo teve algum impacto positivo do ponto de vista da cultura portuguesa em Macau. Pode haver mais abertura por parte da comunidade chinesa para aprender a língua e isso pode ser um factor diferenciador no futuro.

       

       

       

       

      DESTAQUES:

       

      “Para 2024, gostaria de ter como objectivo fundamental consolidar a estrutura desta casa”

       

      “Nós temos a intenção de dar a conhecer a Macau cultural”

       

      “Nós vamos querer estar integrados nas linhas estratégicas do desenvolvimento de Macau”

       

      “Nós temos uma missão que não podemos deixar de lado, que é fazer o intercâmbio entre a cultura portuguesa e a cultura chinesa, mas obviamente integrada na estratégia no território onde estamos incluídos”

       

      “Com o apoio dos casinos, vamos ter mais oportunidade de trazer coisas com maior dimensão ou que impliquem maior orçamento”

       

       

      Ponto Final
      Ponto Finalhttps://pontofinal-macau.com
      Redacção do Ponto Final Macau