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      Covid contribuiu para redução drástica do consumo de drogas em Macau, diz Augusto Nogueira  

       

      Durante a epidemia, entrou menos droga, e ela tornou-se muito mais cara em Macau, factores que levaram a que em apenas cinco anos passássemos de 428 para apenas 85 toxicodependentes registados na base de dados dos serviços sociais em 2022. Em declarações ao PONTO FINAL, o responsável da Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau (ARTM) Augusto Nogueira falou sobre estas e outras questões, desde a comercialização da canábis na Tailândia, ao papel central que a ARTM tem no acompanhamento dos toxicodependentes reincidentes.

       

      Em 2022, 284 milhões de pessoas no mundo inteiro consumiram drogas, cerca de 38,6 milhões de pessoas sofreram de doenças, e cerca de 494 mil faleceram devido ao consumo de drogas.  Estes são os últimos números de 2022 revelados no relatório publicado pela ONU, que constata ainda que a produção mundial de canábis registou um recorde nunca antes visto, e que, no geral, a oferta da cocaína e de medicamentos sintéticos têm vindo a aumentar.

      Pelo mundo fora, existe ainda um aumento crescente de consumidores em vários países que não têm acesso ao tratamento da toxicodependência. Na RAEM, frisa o Instituto de Acção Social (IAS), a situação do tratamento e reabilitação de toxicodependentes nos últimos cinco anos é positiva, com 409 casos de pedido de ajuda em 2022, e uma taxa de 80% “de tratamento estável, cuja taxa de teste de urina com resultado positivo foi inferior a 10%”. Desde 2005 que mais de 422 pessoas participaram no programa de tratamento de manutenção com metadona, e “em cooperação com várias instituições particulares, o IAS lançou o programa de seringas limpas, tendo conseguido recolher, entre 2008 e 2022, mais de 370 mil seringas usadas”. Desde 2016 que não houve qualquer registo de toxicodependentes infectados com SIDA em Macau.

      Em declarações ao PONTO FINAL, Augusto Nogueira, presidente da Associação de Reabilitação dos Toxicodependentes de Macau (ARTM), confere que de facto a situação em Macau está sob controlo. “A nível geral, Macau é um sítio que está estável em relação ao consumo, e isso é graças ao trabalho de todos, do Governo e das ONG na área da prevenção e tomada de consciência, do tratamento, mas principalmente na prevenção e na acção judicial, através do trabalho da polícia”.

      Em 2018 havia 428 toxicodependentes em Macau, em 2020 e 2021 o valor desceu para cerca de metade, e em 2022 havia apenas 85 toxicodependentes no território. Quando questionado sobre os dados revelados pelo IAS, Augusto Nogueira vincou que “a Covid ajudou a que houvesse uma redução do tráfico e do consumo durante o confinamento”. Os mesmos dados revelam que a maioria dos consumidores são adultos e consomem heroína e cocaína, algo que, esclarece o dirigente da ARTM, tem vindo a mudar: “o consumo de heroína nas pessoas mais velhas reduziu bastante”. De qualquer das formas, a heroína e cocaína já não estão “na moda como era antes aqui em Macau ou em Hong Kong, e as pessoas mais novas optaram por consumir outro tipo de drogas, como canábis, e nas casas dos 30-40 anos é a metanfetamina”, referiu o responsável, sublinhando que houve “vários casos de tráfico de metanfetamina ao longo dos últimos dois anos”.

       

      PANDEMIA REDUZ CONSUMO

       

      Foi então a epidemia que fez reduzir o consumo? Augusto Nogueira confirma que sim, especialmente porque durante o período de restrições nas fronteiras os preços das drogas nas ruas dispararam, e os valores eram elevados demais para o consumidor habitual. “Normalmente entre os locais, o preço era bastante elevado, um grama de metanfetamina andava à volta de 3 mil patacas, e isso fez com que menos pessoas consumissem. Outra coisa que a Covid fez com que deixasse de existir foi a cocaína, porque a maior parte vinha traficada por jovens menores de Hong Kong e depois com as fronteiras fechadas deixou de haver nestes últimos dois anos”, mencionou. E agora com a reabertura das fronteiras, será que estes consumos vão aumentar? “Já houve dois casos de dois jovens a traficarem, portanto, eventualmente vai haver um acréscimo do tráfico”, sublinha o responsável da ARTM. “Se há um aumento de tráfico, há um aumento de procura, claro, mas tudo depende dos Governos de Macau e de Hong Kong e do trabalho da polícia no controlo dessa situação”, destaca.

      O consumo de canábis em Macau, para além de reduzido, é, como um pouco por todo o mundo, algo que é praticado mais por jovens do que adultos. Na RAEM, no ano passado, dos apenas 4 jovens registados na base de dados do IAS, 3 consumiam canábis. Perguntámos a Augusto Nogueira a sua opinião sobre o caso da Tailândia e da recente legalização e comercialização deste tipo de estupefacientes. Haverá alguma razão para as autoridades de Macau estarem preocupadas com a influência desta nova realidade? Destacando que “a única coisa que temos de fazer é continuar a fazer prevenção e a informar as pessoas das consequências que podem advir tanto a nível da lei, como no caso de trazerem alguma coisa com elas, ou do consumo e suas consequências”, o responsável recorda que “o risco está no comportamento e nas intenções da pessoa: se a pessoa não tem intenção de consumir, se ela viajar para a Tailândia ou Amesterdão ou outro qualquer lado é igual, há muitas partes do mundo que têm uma regulamentação diferente em relação ao canábis, e a população de Macau viaja para todo o lado do mundo, portanto, o risco depende do comportamento e atitude da pessoa que optar”.

      Confessando que está vigilante sobre “o que vai acontecer, principalmente na saúde pública a nível dos jovens, e eventualmente em outros casos de saúde mental”, quanto ao consumo de canábis na Tailândia, o dirigente da ARTM recorda que “as Nações Unidas também não estão de acordo”, mas que a Tailândia “deve ter as suas razões” para ter autorizado o cultivo e comercialização da canábis, algo que de resto, a seu ver, não deve vir a ser adoptado por Macau, ou outro país do sudoeste asiático.

       

      SITUAÇÃO EM MACAU

       

      E em Macau, haverá por contraste cada vez mais penalização dos consumidores? Augusto Nogueira garante que não, e que “basta olhar para os últimos dados para ver que existem poucas pessoas que tenham sido presas devido ao consumo de droga”, recordando que “o número de pessoas que acabam por ir para a prisão e são presas devido a consumo pela primeira vez é bastante reduzido”. Segundo este responsável, em Macau há “um grande apoio judicial e da parte do Governo para encaminhar mais as pessoas para tratamento em vez de irem para a prisão”.

      Reflectindo sobre o papel da ARTM na área do tratamento prestado aos toxicodependentes, em que consumidores decidem pedir ajuda e receber tratamento, Augusto Nogueira garante “que está tudo a correr bem”, com casos de “sucesso”, de pessoas que concluem os programas de tratamento e voltam ao mercado de trabalho, mas também alguns casos de recaídas. “Cada pessoa que sai do centro ao fim de 12 meses, se ela se encontra bem, essa é a nossa maior satisfação, e quando alguém recai, depois estamos aqui prontos para ajudar novamente”, garante.

      O IAS, por seu turno, revela que quanto à reinserção em sociedade, o organismo governamental “e as instituições particulares têm vindo a desenvolver uma série de formações profissionais e planos de serviços de apoio”. No ano passado, o programa de formações profissionais e de estágio contou com a participação de 1.507 pessoas, indo 46 destas a estágio. Eventualmente, 13 ex-toxicodependentes conseguiram ser contratados. O IAS destacou ainda os esforços feitos em 2022 na formação “do pessoal da linha da frente no âmbito de tratamento da toxicodependência”, em que se tenta fazer “face à propagação de drogas sintéticas e de novos tipos de substâncias psicoativas”, melhorando a forma de despiste destas drogas,  e “questões juvenis relacionadas com a internet e droga, no sentido de tomar, precocemente, melhor conhecimento sobre a tendência e mudança da toxicodependência em Macau e ajustar, atempadamente, as respectivas estratégias de prevenção e tratamento”.