Edição do dia

Sábado, 22 de Junho, 2024
Cidade do Santo Nome de Deus de Macau
nuvens dispersas
30.9 ° C
31.9 °
30.9 °
79 %
4.1kmh
40 %
Sáb
31 °
Dom
30 °
Seg
30 °
Ter
30 °
Qua
30 °

Suplementos

PUB
PUB
Mais
    More
      InícioSociedadeReduzir, reciclar, reutilizar: “Governo tem feito mais, mas não chega”, desabafam activistas

      Reduzir, reciclar, reutilizar: “Governo tem feito mais, mas não chega”, desabafam activistas

      Na segunda-feira celebrou-se o Dia Mundial do Ambiente. Há 40 anos que este dia internacional foi criado pelas Nações Unidas para educar as populações sobre questões ambientais e implementar estratégias de colaboração internacionais, com diversos países anfitriões e temas de destaque, da desflorestação e poluição dos oceanos, às alterações climáticas.

      Este ano foi a vez da Costa do Marfim acolher comitivas de todo o mundo, e o tema central, o da poluição do plástico. O Programa Ambiental das Nações Unidas (PANU) estabeleceu no seu relatório como meta que até 2040 se reduza a poluição de plásticos em 80%. Para isto basta que países e empresas unam esforços em medidas concretas, desde uma reformulação das indústrias, à alteração de hábitos de consumo, numa progressiva adopção de uma economia circular.

      Em Macau, para além das campanhas de sensibilização e da criação de postos de recolha de reciclagem, também se proibiu no ano passado a compra de plásticos de uso único, e criou-se a taxa de uma pataca de venda de sacos de plástico para quem não vai à loja com o seu próprio saco de compras reutilizável.

      O PONTO FINAL perguntou a várioseco-activistas” do território se aquilo que o Governo faz é suficiente para acabar com a poluição de plástico. Na opinião de Joe Chan, da “Macau Green Students Union” da Universidade de São José, “a Direcção dos Serviços para os Assuntos Ambientais (DSPA) tem de facto feito mais esforços na redução de plástico ao criar legislações diferentes em processos em curso”, e existem cada vez mais pessoas “com consciência do impacto ambiental na nossa cidade”, mas infelizmente ainda não conseguem ser ouvidas o suficiente no assunto.

      Apontando que, quando comparando com outras cidades vizinhas, “Macau fica de certa forma atrás” na protecção ambiental, Joe Chan recorda que a epidemia veio “criar um uso esmagador de máscaras e de utensílios descartáveis para alimentação, e estes vieram adensar o peso do nosso lixo municipal e sistema de reciclagem”. A China Continental já traçou várias metas e datas para cumprir com os objectivos da redução de carbono, destaca, mas Macau, de acordo com este activista, ainda não correspondeu às expectativas. “Espero que o Governo tenha mais informação e seja mais transparente na forma como comunica com o público, e as ONG, para nos transmitir as mudanças previstas num futuro próximo da nossa cidade” porque, para já, “o ritmo e qualidade” desta educação das populações é insuficiente, declara.

       

      TRABALHO INSUFICIENTE

      Gilberto Camacho, fundador do grupo Macau ECOnscious, que costuma organizar limpezas costeiras, confirma que de facto “o Governo tem feito mais, mas não chega”. Apesar de não possuir os valores, Camacho garante que o consumo de plástico em Macau “não tem parado de aumentar, apenas talvez tenha desacelerado um pouco. Habituado a reciclar, este amigo do ambiente diz que costuma ver os postos de reciclagem cheios, mas que estes são “pequenos” e que muitas vezes as pessoas não sabem reciclar da forma adequada. Será que o Governo não está a conseguir fazer chegar a mensagem correcta às populações? “Falta investir mais na educação, o Governo devia fazer mais, haver mais agressividade” na forma como transmite as informações aos consumidores.

      A título de exemplo Gilberto Camacho recorda a forma como as pessoas consomem bebidas, em que todas as embalagens são pequenas, e de plástico de uso único. “As pessoas estão habituadas, compram, bebem e deitam fora”. Na sua opinião o Governo devia incitar os consumidores a recorrer a “mais empresas de retalho, de venda a avulso, em que trazemos o nosso saco e nos servimos da massa de cotovelo, por exemplo”. Para este eco-activista, a questão é simples: “estamos muito habituados aos supermercados, e tem de haver mais esforço.

      Gilberto Camacho costuma ir a praias em zonas mais recônditas de Macau e, juntamente com outros voluntários, vai-se dedicando a limpar a costa do território, apanhando todo o tipo de lixo, desde sobras de artigos de pesca, a lixo doméstico. Embora não tenha feito tantas iniciativas como fazia anteriormente devido ao calor, nota que em Macau cada vez mais voluntariado”, e estas praias “estão mais limpas”, mas que, na verdade, deveria haver um controlo do lixo que vem das águas da China continental. “Eu reparo pelos rótulos que há muito lixo que vem de lá. Isso seria algo importante de controlar”. Confessando que gostaria de ter um barco para poder ir ver a situação das águas mais acima do Porto Interior, mas que esse projecto ainda está “embrionário”, e o ambientalista exalta-se e pergunta: “será que o Governo controla o lixo que vem através dos barcos da China? Ou será controlar apenas para inglês ver?

       

      LIXO NA COSTA

      No entanto, nem todo o lixo que vem parar à costa deMacau vem de fora de Macau. Quem o garante é a artista Tchusca Songo, que diariamente apanha lixo deixado por banhistas na praia de Hac-Sá em Coloane. Este lixo é composto por restos de utensílios utilizados nos churrascos, mas sobretudo por brinquedos de plástico para crianças. “Tenho em minha casa milhares de brinquedos de plástico que apanho na praia quase todos os dias. São brinquedos que os moradores e turistas deixam para trás largados na areia da praia. Todos os dias os recolho, porque senão, são arrastados pelas ondas do mar”, confessa a artista. Desabafando que sente uma grande “tristeza” quando vê os trabalhadores da limpeza a apanhar e colocar estes brinquedos no lixo “sem dó nem piedade”, acha que se deveria “falar mais sobre este assunto”. Na opinião de Tchusca Songo, uma solução possível seria a de adicionar um sinal de proibição de abandono de brinquedos na praia: “se existem sinais de proibição do tipo proibido fumar, proibido levar cães, proibido pescar, também podia haver um a dizer proibido deixar os brinquedos na praia”.

      Enquanto não consegue mudar a situação, a artista aproveita e faz deste lixo arte. “Num dia posso apanhar mais de cem brinquedos de plástico novos em folha. Levo-os para casa, lavo, seco, separo por cores e guardo-os. Também trabalho as minhas peças de arte em casa por falta de um atelier”. Estas peças de arte feita com lixo já tiveram em exposições no Venetian, no Centro de Toxicodependentes em Ka– Ho, na Escola Internacional de Macau (TIS), e no Instituto Português do Oriente (IPOR). “Não pretendo parar por aqui, gostava de levar o meu trabalho às escolas locais de Macau para sensibilização de alunos e professores”, declara a artista, que também tem colaborado com a Universidade de São José com um workshop de up-cycling para estudantes universitários.  

      Quando questionada sobre a razão possível deste abandono dos brinquedos na praia, a artista diz que as crianças “saem de casa para a escola, e da escola para casa, e por isso não devem perceber o que se passa fora destes dois locais. Não têm noção da gravidade do problema”. De resto, para Tchusca Songo “a reciclagem e a reutilização são assuntos que Macau não está preparado para enfrentar”, e que, por isso mesmo, o trabalho de reaproveitamento deste suposto lixo pode “ajudar na sensibilização deste problema. As minhas peças não são importantes pelo seu valor comercial, mas sim pelo objectivo de sensibilizar os mais novos, porque eles são a nossa esperança”.

      A artista de origem angolana recorda a sua infância em África, “onde nem todas as crianças têm o privilégio de ter um brinquedo na mão”. Revelando que quando chegou a Macau ficou chocada com a “mobília jogada para o lixo, cadeiras, mesas, TVs, frigoríficos, máquinas de lavar”, e que “em África nada disso vai para o lixo” porque “é tudo reparado”, Tchusca Songo diz que não perde a esperança que as mentalidades mudem. Macau é uma cidade pequena e tenho esperança que isso mude. Em miúda nunca tive brinquedos de plástico, agora sou uma adulta com mais brinquedos de plástico que qualquer criança do mundo.