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      InícioOpiniãoGrandiosas celebrações em épocas de crise – II

      Grandiosas celebrações em épocas de crise – II

      Os cerca de dois meses de festividades para celebrar a restauração da monarquia portuguesa em1642 eram coisa nunca vista em Macau, e que, por muito tempo depois, ficou irrepetível.

      Era a expressão do “gosto por um Rei melhor que Trajano e mais feliz que Augusto, desejado e amado de todos em partes tão remotas e distantes”, como escreveu o padre D. João Marques Moreira na sua “Relação da majestosa, misteriosa, e notável aclamação que se fez a Majestade El-Rei João o IV nosso Senhor da cidade do nome de Deus do grande Império da China, e festas que se fizeram pelos Senhores do Governo Público, e outras pessoas particulares”.

      O casario daquela Macau que estremecia de contentamento iluminou-se todo, a começar pelo Forte de São Paulo, “casa do governo”; “os fogos, e lumes, (…) pareciam competir com o firmamento”. Nem mesmo as chuvadas de Junho conseguiram apagar “o brio, e ânimo de que com desejo insaciável tornava de novo a refazer o que a inclemência do tempo desfazia”.

      Como se tratava de uma demorada e imensa encenação, não podia faltar um “teatro”, que é como quem diz um “palco”. O Conselho Municipal mandou construir um “largo e espaçoso”, adornado de “peçaria de fina seda”.

      Para o juramento de fidelidade e obediência ao novo monarca, ali subiram o Capitão-Geral, Sebastião Lobo da Silveira, o governo da cidade, o governador do bispado e “muitos outros nobres, fidalgos, e cavaleiros das ordens militares moradores nesta cidade”. Todos estavam “vestidos ricamente”, exibindo “ouro com muita jóia, nos quais se via uma cidade de Reis, tão lustrosos se mostraram nesta acção de honras por el-Rei”.

      Seguiram-se corridas de cavalos e corridas de touros, mandados vir de aldeias vizinhas de Macau – “os melhores que se puderam achar”. Tudo na Rua Direita, “à vista da casa da Câmara”, o Senado, “por ser a principal no corpo da cidade, capaz e muito larga para festas”. E, assim, “largaram os touros” perante uma grande multidão “que aplaudia”. Também “não faltaram toureiros”, alguns dos quais “ficaram por baixo das pontas” das enraivecidas bestas, não havendo, todavia, “perigo notável de que se seguisse morte”. A festa continuava. Poucos dias mais tarde, “tornaram a correr touros, que na braveza e ferocidade (…) podiam competir com os bons da Europa”.

      Outras touradas se seguiram, bem como cortejos sem fim, incluindo um de máscaras que juntou mais de uma centena de figurantes nos jeitos de portugueses, chineses, japoneses, persas ou holandeses.

      Em suma, “festejou o cristão, festejou o gentio, o fidalgo, e nobre, o escudeiro, e peão, como quem já se dá por seguro e livre dos agravos e violências, que na Índia e seus estados experimentaram vassalos portugueses, que por lhe faltar Rei vieram a ser cativos e prisioneiros, não só das nações da Europa, mas ainda das de todo este Oriente, perdendo as melhores e mais rendosas praças, que nele sujeitaram aqueles primeiros e famosos conquistadores, sendo que nos tempos mais dourados, em que a Índia floresceu, tiraram dela o melhor e mais precioso com tantas enchentes  de riquezas, que bastavam para fazer Portugal o mais rico de toda a Europa”.

      Estava aqui a causa de toda a exultação, nessa memória de feitos tão grandiosos quanto desfeitos estavam já. Às conquistas sucediam-se as perdas. Tremendas umas e outras. A história de Portugal encontrava o seu padrão, a sua cadência. A de Macau não se fazia excepção.

      Como Marques Moreira assentava, estava bem presente naquela terra “a culpa de nossas misérias, que nos trouxeram arrastados, convertendo-nos de ricos em pobres; e quem considerar o como esta cidade de Macau desceu do auge e ponto de suas bonanças e prosperidades achará que esta falta foi a roda da fortuna que a trocou e fez virar”.

      O nosso cronista assinala, também, como a penúria em que Macau se encontrava parecia maior do que na verdade era, precisamente por causa – a ironia – das riquezas que havia na cidade, “tantos tesouros de diamantes, rubis, pérolas, ouro, sedas e almíscar”. Pena, contudo, “os naturais deste reino da China não fazerem estimação alguma de coisas tão preciosas, senão de prata, que é a de que hoje carecemos com tantas e tão notáveis perdas”.

      Era tal e qual como na malfadada mitologia grega, apontava Marques Moreira: “verifica-se em nós aquela história do fabuloso Midas, que se pondo à mesa com iguarias de pedaços de ouro morria de pura fome, tal nos acontece hoje, que tendo as mesas cheias de ouro, sedas, diamantes, rubis, pérolas e aljôfar perecemos à mingua”.

      Restava depositar um bem que, não sendo de ricas matérias, era de uma preciosidade rara – a esperança. Desse modo, acreditava-se que “as alegres novas da sucessão de um rei descendente do invictíssimo e felicíssimo rei Dom Manuel, cujas virtudes herdou acompanhadas do grande zelo da Fé nas conquistas que descobriu, nos promete não menores felicidades que as daquele século venturoso”.

      Na Cidade do Nome de Deus nunca deixou de se acreditar no futuro desde que se olhasse para o passado. Só cabia ao tempo entrar nos seus próprios eixos.

       

      Hugo Pinto
      Jornalista