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Quarta-feira, 5 de Outubro, 2022
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      Início Entrevista "Este é o pior momento nas relações China-EUA desde o estabelecimento das...

      “Este é o pior momento nas relações China-EUA desde o estabelecimento das relações diplomáticas”  

      As relações entre os EUA e a China estão no seu pior momento desde 1979, ano em que foram estabelecidas relações diplomáticas entre os dois países. A opinião é de Jianwei Wang, professor universitário especialista nas relações entre as duas potências. Em entrevista ao PONTO FINAL, o académico diz, no entanto, que as relações poderão estabilizar e que os dois países “vão perceber que estas relações são demasiado importantes para serem destruídas”. Sobre o recente relatório das Nações Unidas que fala em crimes contra a humanidade em Xinjiang, Jianwei Wang diz que a denúncia é “um absurdo total” e que o Ocidente está a usar esta situação como arma contra a China. Já Macau pode “mostrar que a China continua a sua política de abertura ao exterior”, considera.

       

      Jianwei Wang é professor emérito do Departamento de Administração Governamental e Pública da Universidade de Macau (UM) e actualmente lecciona na Universidade Cidade de Macau. Em entrevista ao PONTO FINAL, diz que vivemos actualmente o pior momento na história das relações entre os dois países deste o início da diplomacia entre as duas potências. No entanto, para o especialista em assuntos EUA-China, tanto a China como EUA não querem escalar a tensão nos próximos tempos, até porque são “demasiado importantes para serem destruídas”. Questionado sobre o relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) que revelou a existência de possíveis crimes contra a humanidade e mencionou provas críveis de tortura contra a minoria uigure em Xinjiang, o académico diz que as acusações são “um absurdo total” e que a questão está a ser transformada em arma pelo Ocidente para atingir a China. “É uma luta política”, diz, acrescentando que “os países do Ocidente encaram a China como uma ameaça”. Jianwei Wang afirma também que Macau continua a ter como desígnio ser modelo do princípio ‘Um País, Dois Sistemas’ e salienta que pode “mostrar que a China continua a sua política de abertura ao exterior”.

       

      Os últimos anos têm sido marcados por muita tensão nas relações China-EUA. Com esta visita de Nancy Pelosi a Taiwan, podemos dizer que este é o momento mais delicado nas relações entre os dois países nas últimas décadas?

      Sim. Este é o pior momento nas relações China-EUA desde o estabelecimento das relações diplomáticas. As relações degradaram-se até este ponto.

       

      Esta visita de Nancy Pelosi a Taiwan tornou tudo ainda pior?

      Foi uma provocação política. A Pelosi é a terceira figura da hierarquia do Governo norte-americano, depois do Presidente e do vice-Presidente. É uma provocação porque, no geral, as relações EUA-China já estavam em muito mau estado. Esta não foi a primeira vez que um Presidente da Câmara dos Representantes dos EUA visita Taiwan. Há 27 anos, Newt Gingrich também visitou Taiwan. Na altura, a China contestou a visita, mas a situação era totalmente diferente. Essa visita aconteceu depois da terceira crise do Estreito de Taiwan e o Presidente de Taiwan, Lee Teng-hui, visitou a Universidade Cornell, onde proferiu um discurso provocador. As relações [EUA-China] também se ressentiram dessa visita, mas depois recuperaram rapidamente. Na altura, apesar de a China não ter ficado satisfeita com a visita de Newt Gingrich a Taiwan, houve compreensão porque os EUA e a China tinham chegado a um entendimento em como ele iria fazer uma visita muito breve. Além disso, no discurso, Newt Gingrich falou positivamente do princípio ‘Um País, Dois Sistemas’ e, além disso, disse esperar que a China se reunificasse de forma pacífica. Já Pelosi tem sido considerada pelo lado chinês como muito anti-China, tem tentado dividir o país e apoiado a independência de Taiwan.

       

      Após a visita de Pelosi a Taiwan, a China impôs sanções aos EUA. Terão essas sanções efeitos práticos nos EUA?

      Não terá um impacto substancial nos EUA, mas é um golpe nas relações EUA-China. Isto significa que a maioria das cooperações e diálogos entre os dois lados ficam em suspenso. São sanções mais diplomáticas. No entanto, continuam abertos alguns canais de diálogo.

       

      Então as relações EUA-China não estão comprometidas em definitivo?

      Não. Não diria que as relações estão comprometidas em definitivo, ainda. Apesar de as duas partes terem tomado medidas pouco amigáveis em relação ao outro lado, acho que ambos os lados vão perceber que estas relações são demasiado importantes para serem destruídas. A China não aplicou sanções irreparáveis para os EUA, por exemplo, a maioria dos contactos que a China suspendeu foi apenas de forma temporária e quando a situação melhorar poder-se-ão retomar. Por outro lado, a China não tomou medidas como muitos chineses queriam, abater o avião de Pelosi.

       

      Muitos chineses queriam isso?

      Sim, sim. Esse é um dos problemas. O lado chinês, nomeadamente o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, teve comentários muito duros em relação à visita e disse que se ela viesse a China tomaria medidas. Muitos na China interpretaram isso como se a China fosse fazer algo em relação ao avião ou o impedisse de aterrar, esse era um cenário de que se falava antes da visita. A China também só começou os exercícios militares quando ela saiu de Taiwan. Depois, a reacção dos EUA foi moderada. O lado americano viu que fez algo errado, algo provocador. A Administração Biden não achava boa ideia que Pelosi fosse a Taiwan, mas ela não ouve ninguém. Como ela vai sair da Câmara dos Representantes no fim do ano, ela tentou fazer da visita o seu legado político.

       

      Há pouco falou dos exercícios militares da China junto a Taiwan. Isso não poderá também ser interpretado como uma provocação da China?

      Não, não acho que tenha sido uma provocação. Claro que o lado americano vai dizer que foi uma reacção exagerada à visita de Pelosi e dizer que é normal a visita de políticos a Taiwan, mas o lado chinês disse claramente ao lado americano que, se Pelosi visitasse Taiwan, iriam ser tomadas medidas para responder. Esses exercícios militares são apenas simbólicos, para mostrar que a China tem a capacidade militar necessária.

       

      Mas desta vez foram usadas munições reais nesses exercícios. Não é uma ameaça da China face a Taiwan?

      Não. Vemos a reacção dos taiwaneses, eles não estão preocupados que a China realmente avance militarmente.

       

      Não poderá esta ser uma oportunidade para a China avançar para uma reunificação forçada? Poderá acontecer no futuro a curto prazo?

      A China quer sempre a reunificação, isso é certo. Mas acho que isso não está na agenda do Governo chinês, por agora. Se isto estivesse na agenda, a China iria certamente aproveitar esta oportunidade. Há uma percepção errada do lado americano que foi influenciada pela guerra na Ucrânia. Após o início da guerra na Ucrânia, muitos americanos ficaram preocupados com a possibilidade de que a China fosse fazer o mesmo que a Rússia. Depois deste episódio, a China disse muito claramente que a reunificação pacífica é a prioridade. O uso de força militar será o último recurso.

       

      Como é que poderá haver uma reunificação pacífica se os taiwaneses não estiverem interessados nessa reunificação?

      Desde que não declarem independência, o ‘status quo’ poderá manter-se por algum tempo. Mas, se a líder de Taiwan e os EUA pressionarem, isso poderá fazer com que a China tome medidas. Xi Jinping disse ao Presidente Biden que, se os EUA pressionarem, iriam ser tomadas medidas. Mas não creio que isso não esteja na agenda da China.

       

      Depois de toda esta tensão, as relações EUA-China poderão estabilizar?

      Isso leva tempo. Ambos os lados vão continuar a comunicação aberta. O embaixador chinês nos EUA e o embaixador americano na China podem comunicar com o Governo do país onde estão. Recentemente, o embaixador chinês encontrou-se com o secretário de Estado dos EUA e falaram da possibilidade de em Novembro, após o Congresso do Partido Comunista da China, Xi Jinping vá ao estrangeiro para participar na cimeira do G20 e essa poderá ser uma possibilidade para Xi e Biden se encontrarem. Tanto a China como os EUA enfrentam questões domésticas muito importantes. A China tem o 20.º Congresso do Partido, os EUA têm as eleições intercalares. Uma cimeira entre Xi e Biden poderá fazer com que as relações melhorem, mas não muito.

       

      Recentemente, um relatório da ONU revelou a existência de possíveis crimes contra a humanidade e mencionou provas críveis de tortura contra a minoria uigure em Xinjiang. A China diz que a ONU está a ser cúmplice do Ocidente. Concorda?

      Não nego que provavelmente em Xinjiang haja alguns problemas de direitos humanos, tal como acontece em qualquer parte do mundo. Eu tenho estudantes de Xinjiang que estudam em Macau e eu falo com eles sobre a situação e eles discordam que haja um genocídio em Xinjiang. É um absurdo total. A China é um país tão grande que é impossível que as autoridades por vezes não façam algo de errado ou abusem do seu poder. Isso acontece em qualquer lado, mas não me parece que seja algo sistemático e uma política do Governo.

       

      Ao longo dos anos surgiram vários relatórios sobre violação de direitos humanos em Xinjiang…

      Sim, mas a maioria tem como fonte dissidentes que fugiram de Xinjiang e que são protegidos pelo Ocidente. Tudo depende da nossa definição de genocídio. Genocídio, para mim, é tentar exterminar um grupo étnico em massa. A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos [Michelle Bachelet] visitou Xinjiang em Novembro do ano passado e, na altura, não disse que havia genocídio em Xinjiang e foi criticada pelo Ocidente que disse que ela cedeu ao lado chinês. Esta é mais uma luta política entre a China e o Ocidente. A ONU está dividida entre a influência do Ocidente e da China. A China é muito importante para a ONU e os países ocidentais também. A ONU está numa situação muito difícil e tem de tentar manter um equilíbrio e neutralidade. Esta Alta Comissária da ONU fez um bom trabalho, apontou os problemas em Xinjiang, mas não tentou seguir completamente a narrativa do Ocidente.

       

      Mas a China diz que a ONU está a ser cúmplice do Ocidente.

      As conclusões dependem de quem tem mais influência na elaboração do relatório. É uma luta política entre os dois lados.

       

      Mas, na sua opinião, há uma conspiração do Ocidente para dizer que há crimes contra a humanidade em Xinjiang?

      Não quero usar a palavra “conspiração”, mas é claro que os países do Ocidente estão a usar Xinjiang para colocar a China numa posição difícil. Além disso, querem também fazer com que outros países não façam negócio com Xinjiang. Isso é certo. A questão de Xinjiang transformou-se numa arma das forças ocidentais para deixar a China numa posição difícil. Isso é certo.

       

      Este relatório poderá prejudicar as relações entre a China e a ONU?

      Não me parece. A China nem sempre concorda com tudo o que a ONU faz. Na ONU há diferentes influências e a China compreende isso, mas isso não afecta a cooperação da China com a ONU em outros assuntos. A Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos abandonou o cargo, então haverá uma nova configuração de poderes na organização. A China também tem uma voz muito forte na ONU.

       

      Vai decorrer em Outubro o 20.º Congresso Nacional do Partido Comunista da China. O que poderá mudar no país?

      O 20.º Congresso Nacional do Partido poderá apresentar um novo caminho para o desenvolvimento da China sob o comando de Xi Jinping. A China diz que será uma nova era para o socialismo com características chinesas.

       

      O que mudará nesta nova era?

      A China alcançou o seu primeiro objectivo estratégico, que é tirar toda a população da pobreza e isso foi oficialmente alcançado no ano passado. Até 2049, a China quer tornar-se um país mais moderno e alcançar o rejuvenescimento nacional. A China quer tornar-se num país mais moderno e desenvolvido em todas as suas dimensões. Este é o sonho chinês.

       

      Este congresso poderá mudar alguma coisa na abordagem à pandemia de Covid-19?

      Como o núcleo da liderança do partido não vai mudar, não acho que a política epidémica vá mudar muito. Mas pode haver um ajustamento das medidas face à epidemia, tornando-as mais flexíveis e menos prejudiciais ao desenvolvimento económico. Mas creio que a tolerância zero à Covid-19 não vai mudar. Isso não quer dizer que não haja algumas alterações depois do congresso, mas não espero que no geral haja grandes mudanças.

       

      Qual é o papel de Macau no plano geopolítico das relações da China com o mundo ocidental?

      Depois dos contratempos de Hong Kong devido aos motins, as pessoas esperam que Macau seja um modelo melhor do princípio ‘Um País, Dois Sistemas’. É também uma janela para manter esta política de abertura da China para o exterior. Há quem se preocupe que a China regrida e que se volte a fechar ao mundo exterior, mas Macau pode mostrar que a China continua a sua política de abertura ao exterior. Essa expectativa está condenada pela situação pandémica. A situação económica de Macau é muito difícil.

       

      Poderá Macau sofrer consequências destas relações mais tensas entre a China e os EUA?

      Macau tem um papel importante nas relações EUA-China, dado que há um grande investimento americano nos casinos. As concessionárias estão a candidatar-se à renovação das licenças. Entre os chineses e as pessoas que vivem em Macau há discussão sobre se o Governo deve ou não renovar as licenças das concessionárias americanas.

       

      Mas haverá alguma hipótese de o Governo não renovar as licenças das operadoras americanas devido às relações tensas com os EUA?

      O impacto provavelmente não será directo. Depende também se essas empresas americanas querem ficar ou sair de Macau, algumas podem querer sair. A política anti-pandemia de tolerância zero está a afastar turistas de Macau e provavelmente algumas empresas americanas podem achar que não vale a pena ficar. Mas Macau vai continuar a precisar dos casinos americanos e, por outro lado, as empresas americanas fizeram grandes investimentos em Macau, e se saírem vão sofrer muitas perdas. Por isso, acredito que elas vão continuar. Não creio que a estrutura do sector do jogo em Macau vá sofrer alterações dramáticas. Os chineses vão estar mais atentos às empresas americanas devido à alteração do ambiente em Macau e, com a revisão à lei de segurança nacional, vão tentar garantir que a segurança nacional não será comprometida por interferências externas.

       

      Qual a expectativa sobre as relações da China com o mundo ocidental no futuro?

      Serão difíceis, no mínimo. O panorama estratégico das relações entre a China e o Ocidente alterou-se e os países do Ocidente encaram a China como uma ameaça e como um país rival. Isto começou com os EUA e agora tornou-se quase consensual entre os países ocidentais que a China é um país rival. Isto é grandemente determinado pelas relações EUA-China. Se as relações EUA-China melhorarem significativamente, os outros países ocidentais vão seguir o exemplo. Se as relações entre os EUA e a China continuarem em mau estado, os outros países terão de seguir na caravana. O mesmo aconteceu com a guerra na Ucrânia. Muitos países ocidentais perceberam que tinham de estar alinhados com os EUA. Isso aconteceu ao longo da história por inúmeras vezes.